Adeus, Bossanova, adeus


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Sérgio Lavos

Ouvia na Internet a emissão do programa Zane Lowe Show, na BBC Radio 1, aquele em que os Radiohead foram convidados como DJs, e percebi que é possível ouvir música pop sem perceber as palavras cantadas. Percebi o óbvio, portanto. Todos sabiam já, certo?

Não é essa a questão. Ed O’Brien, o guitarra ritmo, escolheu duas músicas cantadas em português, uma de Jorge Ben, que não conhecia, outra d’ Os Mutantes, A Minha Menina, grande canção em qualquer época, qualquer lugar do mundo, por sinal composta também por Jorge Ben. Devo ter ouvido esta canção pela primeira vez apenas há ano e meio, em Barcelona.

No parque Güell, serpenteando pelo meio da multidão tentando vislumbrar a arquitectura (também pop) de Gaudi, o dragão, a casa, essas coisas, e sabendo que a cidade, derretendo-se em direcção ao mar, esperava pelo meu olhar de turista que finge ser viajante (já não há viajantes intrépidos, a World Wide Web extinguiu a raça), dei de caras com um som… ou, dito de forma correcta, fui atraído, como um rato pelo flautista de Hamelin, por uma música dos Beatles. Os artistas de rua são atracção da cidade, é um facto, mas ainda assim dirigi-me ao sítio de onde vinha o som. Atrás de uma árvore, escondidos pela sombra, lá estavam eles, rodeados de dezenas de pessoas. Não minto: eram mesmo dezenas. As pessoas aplaudiam, cantarolavam os êxitos que conheciam, Hey Jude, All You Need is Love, etc., e no fim de cada música enchiam a caixa de euros ou compravam os CD’s gravados de forma artesanal. É verdade que tocavam mesmo bem: uma bateria com dois tambores e dois pratos, um baixo ligado a um amplificador, uma viola, um sintetizador analógico e muita vontade e alegria — peço perdão pelo cliché, mas o termo a usar é mesmo este. Bastava olhar para a cara deles para perceber o prazer que sentiam estando ali, a milhares de quilómetros de distância, concretizando talvez um sonho de criança — e não quero dizer tocar, nem sequer tocar para uma plateia. Falo da sensação de estar perdido no mundo, ser artista de rua. Como não meti conversa com eles, não confirmei as minhas suspeitas. Preferi imaginar uma vida para eles: estudantes no estrangeiro, com certeza (eram brancos e não eram hippies), burgueses (o ar de Strokes provava-o), e escrevo burgueses sem qualquer intenção dúbia — naquele caso, fazia sentido, a boémia sempre foi um hábito burguês. Outros brasileiros rodeavam-nos. Mas não seriam turistas, e isto é apenas um pressentimento — deviam trabalhar nos cafés, nos restaurantes da cidade. Cenas de luta de classes em pleno parque Güell.

Entre músicas dos Beatles, tocavam alguns êxitos dos Mutantes — que não reconheci ao início; apenas aconteceu a com a versão de A Minha Menina. Imagino agora o que o guitarrista dos Radiohead terá sentido da primeira vez que ouviu esta canção. Não identificando as palavras, a fonética, ouviu simplesmente a melodia. Não podia conhecer o sentido das palavras cantadas pelos irmãos Arnaldo Batista e Sérgio Dias e por Rita Lee (com a participação de Jorge Ben), a simplicidade naïf da letra. No programa de rádio nem sequer existe uma menção à letra. Basta aquele som, que respira psicadelismo por todos os lados, automaticamente reconhecível por qualquer melómano, para a adesão ser completa. A linguagem universal, e o lugar-comum justifica-se.

Como aconteceu naquele parque de Barcelona, pleno verão, o sol quente faiscando nos instrumentos que os Soltan tocavam. Escrevo Soltan sem ter a certeza de estar a escrever bem: no caderno de apontamentos que restou dessa viagem, vem escrito Solten. Mas confio mais na memória do que na escrita: penso neles como Soltan. Na minha cabeça, os Soltan continuam a ser um grupo de amigos que se juntou temporariamente para tocar versões dos Beatles e dos Mutantes, e agora cada um faz a sua vida, continuando os estudos que interromperam durante a estadia na Europa. De regresso ao Brasil, algum deles terá perseguido o sonho da música — imaginando o êxito internacional, o estrelato que os seus compatriotas Cansei de Ser Sexy conseguiram atingir. A anti-bossanova, música urbana de exportação rápida, influência anglo-saxónica globalizante num mundo em que a língua inglesa se expande invadindo o espaço das outras — português incluído.

Mas a verdade é que ali, naquele parque, o que me cativou não foi a música cantada em inglês, mas sim os intervalos entre cada música, quando eles trocavam acertos e comentários na língua que eu conheço desde criança. Estranho numa terra estranha, eu sentia (como sempre sente o turista — penso em Lost in Translation) que a Internet não me informara das contrariedades da distância. E eu, que habitualmente passo as viagens a rezar para que não ouça, não veja portugueses, senti o calor de uma familiariedade alienígena. A estranheza de ouvir, em pleno parque Güell, brasileiros a cantar em inglês (adeus, Bossanova, adeus) marcou a viagem e a memória.

Há uma rubrica da revista Uncut na qual personalidades, não necessariamente do mundo da música, são convidadas a falar do concerto da sua vida. Sou bem capaz de ter encontrado o meu (ok, eu sei que não sou personalidade) — pelo menos até à parte da vida que até agora me calhou em sorte. Longe de tudo, uma dezena de canções tocadas por uns rapazes que ainda estavam mais longe de tudo do que eu. As distâncias que se aproximam pela mais inexplicável das criações humanas — a música.

Sérgio Lavos nasceu em 1975, e vive há alguns anos em Lisboa. Procura desde que nasceu alguma coisa, mas ainda não sabe muito bem o quê. Quando não actualiza o blogue Auto-retrato tenta ganhar dinheiro para poder viajar. É pouco? Chega.

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