Quando apagamos amigos
Diego Viana
Um dia, seremos nós. Fomos à estação de Montparnasse para nos despedir de André e ajudá-lo com a bagagem. Ele tinha um trem a tomar, com destino a Lisboa, de onde partirá seu vôo rumo ao Brasil. Bufando e fazendo piada, vencemos as escadarias e a lotação do metrô com as três malas pesadíssimas, carregadas de presentes e memórias do tempo em que ele esteve em Paris.
O TGV prateado e aerodinâmico, diante do qual trocávamos abraços e votos de sucesso, carregava-se aos de espanhóis, portugueses e bascos em viagens corriqueiras. Conosco, entendemos ao fecharem-se as portas, o caso era outro. Pelos trilhos, despachávamos mais um nome a apagar da agenda. E menos um amigo a compartilhar o dia-a-dia de colônia pequena, mas bem atada.
Evidente que não é o primeiro. Já nos despedimos de Ricardo, quando foi aprender, na Índia, as técnicas herméticas de medicina oriental. Rafael e Sílvia retornaram a São Paulo, após vários meses saltitando de cidade em cidade da Europa. Rita, de namorado novo, talvez nunca volte; Paula foi mergulhar em Honduras; Nuno foi cantar loucuras em Portugal; Janaína foi montar suas peças à beira da Lagoa, Malú (com acento) está na Argentina de seus ancestrais.
Pessoas que víamos quase todo dia. Com quem tínhamos projetos conjuntos, problemas comuns e a realidade única. Cujos números de telefone estavam gravados no celular, cujos endereços conhecíamos de cor. Agora, esses algarismos e nomes de rua nada dizem, e deverão ser apagados; e sumariamente, sob pena de uma nostalgia tão dolorosa quanto infrutífera.
Cortadas da agenda, é claro. Da memória, jamais.
Seria possível contar histórias de cada um, mas André teve a mais contundente. Nos seis meses em que esteve na Europa, foi um dos amigos que chamamos de “filho”. A outra é Marina, a pianista virtuosa que seu primo, camarada nosso, nos encarregou de apoiar, e que também nos largou por dois meses, enquanto visitava a família verdadeira, em Brasília.
André nunca foi, é claro, nosso filho, mas dormiu várias vezes em casa, e sua vinda à França não se realizou sem uma forte influência de nossa torcida. Em princípio, ele estava na Europa a trabalho; mais precisamente, em Portugal. Deslocou-se até Paris porque o incentivamos a buscar nesta cidade, em que já morou e pela qual se apaixonou, a realização do sonho de uma boa formação em direção teatral.
É quase certo, agora, que ele retorne no próximo ano, devidamente matriculado. Por enquanto, vale que esteve aqui para praticar o francês e juntar algum dinheiro, de que precisará para reconstruir sua vida no Brasil e, mais tarde, estabelecer-se novamente nesta capital tão pitoresca.
Não foi uma tarefa simples. Para conseguir o dinheiro, foi obrigado a passar o diabo. Trabalhou sob as ordens de um brasileiro de personalidade corrosiva e sádica, que, para sua mera diversão, encarregou-se de fazer um inferno da vida do subordinado. Por pouco nosso amigo não largou tudo. Esteve à beira do esgotamento emocional, e nós seguíamos seu sofrimento tomados pela angústia, mas impotentes para arrancá-lo de uma situação indigna. Mais de uma vez, o remorso nos atacou. Tanto incentivo lhe demos para o gesto de coragem, e revelou-se uma armadilha.
Quem o libertou, enfim, foi o tempo. Esgotado o visto, era momento de tomar o rumo de casa. Nos últimos dias, o rosto do rapaz era a expressão do alívio. Uma tal luz nos olhos, que já havíamos esquecido. Ele aproveitou a liberdade e o dinheiro conquistado arduamente para passear pela cidade e visitar o que ela tem de melhor: museus e casas de chocolate. Sua história foi heróica, eu afirmo. Deu-lhe a oportunidade de se revelar valoroso. Ele não se sente assim, não se orgulha de como se portou diante da humilhação. Mas eu insisto. Com a distância que minha perspectiva me permite, creio que deveria encher o peito. Qualquer marmanjo teria perdido as estribeiras.
A partida de André é mais uma volta que se fecha no ciclo da vida expatriada. Sua companhia é uma que não teremos mais, para os pique-niques à beira do Sena ou as tardes de domingo jogadas fora no parque Monceau. É estranha a relação de amizade que se cria entre as pessoas em temporada fora do país. Forte; estamos todos desenraizados, passamos todos por dificuldades práticas que desconhecíamos no Brasil. Mas fugaz, incerta, porque vivemos deslocados de nossa verdadeira vida. A qualquer momento, um laço inestimável pode ser cortado. Muitos o são. Constantemente.
André é o mais recente. Ainda não digerimos o fato de que não vamos mais convidá-lo para nada. Um dia, já imagino, alguém nos levará ao aeroporto, como nós levamos André à estação de trens. Haverá uma despedida emocionada, que podemos antever porque bem as conhecemos. Depois, esse alguém apagará da memória do telefone os nossos números parisienses.
O ciclo nunca se encerrará.
Diego Viana é jornalista e economista. Está há um ano na Paris de carne dura e sangue quente, estudando a filosofia e a vida do Velho Continente. No mundo inverso da internet sem pátria, é Osrevni, e publica dois blogues: Para ler sem olhar e Cálculo renal.





Vi o link desse post em outro blog e, assim como a autora de domundodela, tb pensei: pq nao escrevi isso antes…