Para o alto e avante


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Nathalia Duprat

Acho que isso tudo tem funcionado mais ou menos com um desastre de avião: uma coisa aqui, outra ali, e bum, está feito. É estranho que me sinta assim, mas não há ordem, não há começos (logo eu, que gosto tanto de marcos e frases do tipo “faz um ano que”). Também não há certezas. Somente um hiato ecoando por dentro ainda que não haja nenhum espaço vazio onde quer que se olhe. O caso, veja bem, é o seu exato contrário. Tanto tempo acostumado com a velha sensação de falta e de repente tudo o que sou capaz de enxergar é um grande amontoado de palavras e casualidades espalhadas por todos os cantos, chocando-se entre si e batendo forte o cabelo pelas paredes como uma bicha ensandecida querendo chamar atenção. Ninguém é culpado, sei como essas coisas funcionam. Depois, quando nada mais houver sentido, abrirei a tal caixa-preta e quem sabe entenda o processo de início-meio-fim — principalmente a parte em que se conclui, com uma única frase, o real motivo de todos os fatos, todas as dores, todas as certezas nunca ditas ou imaginadas.
Mas pensando bem, vejo agora, talvez tenha sido no sinal de trânsito. Os palhaços e seus malabares envelhecidos do suor que escorre das mãos jovens e ágeis. Eram três deles, mas apenas o de nariz vermelho, como devem ser todos os palhaços, chamava os olhares, meus, para si. Alguns segundos, uma desculpa esfarrapada, não tenho agora, fica para a próxima, e um sorriso se abriu, como se dissesse não tem importância, há sempre uma razão para tudo, leva contigo esse clichê, cobre os lábios de bepantol, toma um porre de vinho barato e dança em casa um tango argentino, ou um bolero, ou o que quer que seja, desde que todo o mal seja afastado para todo o sempre, amém. Leva um beijo soprado, as moedas esquecidas no chão do carro, os segredos que talvez derrubem um avião ou apenas preencham algumas linhas que ninguém jamais lerá. Pega teu passado, coloca num saco azul e decides se queres olhar adiante, porque não te sentirás pronto a ver o que se desenhará mais adiante. Dá adeus e vai.

Então veio a pressão, a saudade do futuro, os suores no peito, as rugas que de repente ganharam vida própria, esculpindo meu rosto e gritando está vendo?, está vendo isso?, o tempo está passando, as pessoas estão mudando de papéis, as contas estão ganhando novos valores. Onde você está? Onde estão os planos realizados, as cicatrizes que deveriam estar todas ali, as veias abertas, o dia novo, que viria sempre amanhã, e depois, e depois? Onde você guardou as promessas de nunca mais isso ou aquilo, de não esperar, de não perder, de tentar? O que foi feito das gavetas cheias de verdades absolutas, de idéias mirabolantes, de desejos de largar tudo e ir sorrir e chorar em Paris? O que você fez dos trinta anos que ficaram para trás ainda que pessoas não tenham percebido & pessoas tenham feito questão de gritar para que nenhum ser vivo do mundo ficasse sem ouvir? Onde estão todos os passos, os ritmos, os arranhões marcados ensinando que?

Por que não começar a dançar?

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Lembrei então da cena de um antigo filme em que o protagonista, doente em estado terminal, rodopiava ao som de Maria Callas, abraçado ao suporte do soro que lhe preenchia as veias. E clichê como um roteiro de cinema, imaginei se depois dos créditos finais, quando já não havia mais o que esperar, personagens ressurgiriam indicando que sim, haveria uma continuação, sim, haveria desenrolares não previstos, tramas melancólicas e alegres e depressivas e serenas, sem que fosse preciso nenhuma ordem inicial, era apenas a ordem (sobre)natural das coisas mostrando que Camile estava certa, que há sempre alguma coisa de ausente que nos atormenta e é isso que faz a roda girar mesmo que não haja começos, que não haja argumentos, o que importa, repito, o que importa é que em algum lugar há uma caixa vedada em que as minhas, as suas, as nossas verdades se misturam e completam, e talvez, quem sabe, guarde também um par de segredos, algumas lembranças fugidias e sons antigos que se repetirão incessantemente, lembrando que nada disso era moda, sentimento barato, prazer pelo previsível ou qualquer coisa da qual pudesse me livrar a qualquer instante, era somente a única ocasião em que seria possível perceber num palhaço a revelação de que, de alguma forma, é preciso seguir.

Nathalia Duprat é mãe de Nino e Bibi, mora no Recife e adora sapos, desde que não sejam de verdade. Pratica boxe, é jornalista nas horas vagas, mestranda em Comunicação e trabalha para a Revista Capricho (ela tem mais de 12 anos). Mantém o mesmo blog, e o mesmo layout!, há seis anos e escreve com irregularidade para a Revista Paradoxo.

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19 comentários  


  1. Muito bom!

    Carlos Maciel - 15/11/07
  2. Sou fã de Naty sócia. Mas sou muuuuuuuuuito fã de Naty escritora!
    Amei!

    Ísis Sócia - 15/11/07
  3. mais um lugarzinho pra eu ler as coisas lindas da diva. êêêêê!! =)

    marcelinha - 16/11/07
  4. ooops! digitei o nome do meu blog novo errado. agora no link vai o correto. =9

    marcelinha - 16/11/07
  5. A Naty é linda.
    As entrelinhas mais lindas.

    Sou fã dos escritos.

    :*

    Clarissa Dutra - 16/11/07
  6. É por isso que eu quero ser Nathalia Duprat!
    Mesmo eu não consertando a wi-fi dela, ela também queria ser eu :D

    Marcel - 16/11/07
  7. Seis anos depois e eu ainda me surpreendo com ela!
    :***

    Tatá - 16/11/07
  8. Saudades do futuro; a caixa que trará o final surpreendente e revelador.
    As marcas que não estão; as promessas não cumpridas de seguir adiante. Juntando à minha constante auto-sabotagem, isso tudo me é muito familiar - e entenda-se “familiar” num sentido bem amplo.
    Como é mesmo que a gente faz pra dar o primeiro passo? Se alguém souber, me diz que eu pago com a minha realização.
    Beijos, Nathalia. Você capta as coisas de dentro da alma,mesmo.

    Maria Angélica Giudice - 18/11/07
  9. “É preciso seguir” a leitura dessas linhas e esperar mais palavras esculpidas no cotidiano pelos olhos de Duprat. Parabéns por esse olhar atento, reto e oblíquo, que fala das vastidões inexatas de nossa alma.

    Adriano Cruz - 18/11/07
  10. Excelente!

    Excelente.
    =)

    Manuela - 18/11/07
  11. Achei o máximo!Lindo

    Angela Duprat - 19/11/07
  12. Eu gosto taaaanto dos seus jogos inteligentes de palavras!
    saudades do futuro ;*

    Diandra - 19/11/07
  13. Gostoso de ler, lindo.

    Luciano - 19/11/07
  14. Ah tudo que essa moça escreve é uma delícia!!!!
    Amei Naty!

    Nathalye Nallon [Nina] - 21/11/07
  15. Sou fã desta menina! Texto lindo!

    Neiry Almeida - 22/11/07
  16. Engraçado, não esperava este mail na minha caixa de correio eletrônico… Já fazia um bom tempo que não vasculhava a Revista Paradoxo em busca de algo teu, assim o fiz, mas nada de novo lá encontrei, resolvi ir então ao blog, precisa acalentar de qualquer forma a saudade das sentimentalidades derramadas nas linhas que escreves… Neste novo é como se visse um reflexo de minha vida. Rugas, suor, perplexidade, acredito que é exatamente sobre isso que milhoes de pessoas se interrogam frente ao espelho após despertar… quando, enfim, vamos ter de volta a sensação de que não há tanta pressa assim para “seguir”, que já conseguimos acompanhar nossas almas, e de que finalmente elas nos conduzem ??

    Como sempre perfeita Naty, também estou nessa, avante, um dia chegamos!!
    Bons dias pra vc!! :)

    Hamilton - 23/11/07
  17. Natylinda, que maravilha de texto! Não sei como vc fez, mas, com certeza, colocou câmeras em meus pensamentos. Vc tem o dom de transformá-los em palavras tão lindamente dispostas! Sorte linda, muita sorte pra nós todas!
    Bjo

    Lisa - 23/11/07
  18. se preocupa com as rugas não naty, toda mulher bonita de verdade tem e ainda faz delas parágrafos da história de suas vidas…hehehehehehe

    Nadezhda - 06/12/07
  19. Naty, minha filha, adoro esses seus textos viajados. Absolvo cada pedacinho com muito prazer, porque ele vai direto na “minha caixa preta”. Fico totalmente meio que de listras!
    Beijedinho.

    Maria Rosa - 07/12/07


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