Anticrônica


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Amilcar Bettega

O lirismo e a cena do cotidiano: Início de primavera, uma luz coada pela bruma matinal desliza por entre os galhos das árvores e revela verdes regenerados nas folhas gordas de seiva; é domingo, nem todas as padarias estão abertas, apesar da necessidade do pão nosso de cada dia; por isso as filas saem facilmente na calçada à frente das domingueiras do bairro. Um bom ponto para os mendicantes. Em Paris, como em todas as grandes cidades, eles sempre existiram. Românticos clochards, bêbados molambentos, velhos, jovens, sujos, limpos, com ou sem o cartazinho “tenho fome” à frente, cada um no seu estilo, a turma da rua está sempre na rua, seja para morar ou para defender o pão de cada dia.

O eu: Por princípio não dou esmolas, mas não é nada ideológico, pelo contrário, é algo totalmente gratuito, assim como sou colorado, não como pepino e gosto de ver o Grêmio perder. Mas princípios, gratuitos ou não, têm sempre seus momentos de fraqueza.

A dispersão (da) crônica, ou mais claramente, a encheção de lingüiça: Lembro de uma vez, por exemplo, em que o Grêmio jogava contra um time paulista em São Paulo e resistia bravamente apesar de a arbitragem fazer de tudo para favorecer o time da casa (aliás, isso me faz lembrar do campeonato brasileiro do ano passado, penúltima rodada…, mas essa já é outra dispersão). Para voltar aos princípios e suas fraquezas, no tal jogo do rival e do juiz que não era o Márcio Rezende de Freitas, acabei desligando a televisão com medo de terminar o jogo torcendo para o Grêmio.

O retorno ao eu: Pois aconteceu a mesma coisa com esse meu princípio de não dar esmolas. Momentos de fraqueza. Minha filha tinha nascido por aqueles dias. Toda normalzinha, cinco dedos em cada mão, dois pés também com cinco dedos cada, o nariz abaixo da linha dos olhos e acima da boca, essas coisas. Ou seja, um dos tantos milagres diários da natureza tinha acontecido ali comigo, dentro da minha casa. Pois eu andava meio bobo, caminhando nas nuvens, como dizem. E aí esse cara que por princípio nunca dá esmolas começa a pensar no quanto a natureza, ou Deus, ou seja lá o que for, tem sido generoso com ele, e que seria bom demonstrar, pelo menos simbolicamente, sua imensa gratidão a essa generosidade que, assim como alguns princípios — e só por isso é generosidade —, é gratuita.

O eu observador: Então esse cara, euzinho mesmo, perspicaz leitor, estava pensando nisso ali na calçada, ainda meio sonolento mas observador (para fins desse texto, ao menos), naquela prosaica fila do pão num domingo de manhã de primavera, olhando aquele homem sentado no chão que pedia esmolas à entrada da padaria.

O incontornável eu sensível e humanista: A todos os que saíam, ele emitia um leve murmúrio que os outros às vezes não reconheciam de imediato, pois vinha de baixo, o murmúrio, da calçada, de um horizonte abaixo daquele através do qual seus olhos normalmente transitam. Pois aquele homem emitia leves murmúrios como se receasse incomodar o cidadão em seu merecido descanso semanal, e mantinha os olhos baixos, como que sentindo vergonha de sua situação e do extremo a que essa situação o obrigava. Levei a mão no bolso — não, exagerado leitor, não para puxar um lenço e enxugar as lágrimas que minha sensibilidade faz verter: levei a mão no bolso e separei algumas moedas. À saída as deixaria ao homem, enquanto iria para casa levando o alimento para minha família debaixo do braço, francesamente, e em paz com minha consciência, universalmente.

O fato central, que ao mesmo tempo serve à pitada humorística: Escolhi meu pão, paguei, e já na calçada, quando passava à frente do mendigo e sentia o tilintar das moedas na concha da mão, tocou o celular.

Tocou o celular. Não o meu, porque não tenho nem nunca tive celular. Também uma questão de princípios. Dessa vez um princípio mais embasado, pois embora reconheça a extrema utilidade de tais aparelhos, sempre vi neles um atentado à privacidade. Seja porque (1) você nunca “não está”, ou seja, não há mais separação entre a sua casa e a rua e, esteja onde estiver, você “está” sempre ao alcance de uma ligação de celular, ou seja porque (2) se você é daquele tipo, digamos, mais expansivo e fala alto no ônibus ou no metrô ou na rua, você esfrega a sua privacidade na cara de desconhecidos que quase sempre não estão nem um pouco interessados nela. Atentados à privacidade, portanto, e por causa disso ainda resisto ao uso do celular — com a secreta esperança, leitor confidente, de um dia aparecer no telejornal das oito da noite como um dos últimos exemplares da raça humana a viver em uma metrópole sem usar celular. Por isso, uma vez mais, não foi, não poderia ter sido, o meu celular que tocou quando eu ia dar as moedas ao mendigo. Foi o celular dele, do mendigo, que tocou. E que prontamente ele respondeu, erguendo-se de um pulo, com um sonoro “alô”, que foi ainda mais sonoro porque contraposto aos murmúrios que até pouquinho tempo atrás ele emitia a cada pessoa que saía da padaria.

Por um instante fiquei como você ficaria, leitor incrédulo, paralisado pela surpresa, e, logo depois, completamente sem jeito, parado ali no meio da calçada, com a mão estendida onde tilintavam algumas moedas e ninguém para recebê-las. Aquele a quem eram destinadas se afastava, falando em seu celular enquanto caminhava, bem ao estilo de um executivo que passa instruções ao seu investidor na bolsa enquanto se dirige para a reunião com o gerente do banco. E eu ali com as minhas moedas. Juro que ouvi uns risinhos atrás de mim, do pessoal da fila. Mas aí o mendigo, que ia e voltava na calçada, uma das mãos no bolso e a outra no celular junto ao ouvido — não tenho dúvidas de que o assunto era grave, estava escrito em seu semblante e, pela firmeza das palavras, era ele quem dava o tom da conversa, era ele quem decidia — pois o mendigo ergueu por um instante o olhar que se perdia no vazio, absorvido que estava em sua conversação telefônica, e deu comigo ali parado, a mão estendida à frente. De longe e sem interromper as instruções que passava gravemente ao seu interlocutor, ele me fez um sinal apontando com o dedo alguma coisa ao meu lado. Eu devia ter uma cara quem não entendia, porque ele apontou com mais veemência o dedo, não sem demonstrar impaciência, sempre de longe e sempre falando, num gesto que foi reforçado por um movimento com a ponta do queixo em direção ao chão, onde antes de receber a chamada ele estava sentado. Só então olhei para baixo e vi, quase junto ao meu pé, um copinho de plástico na calçada, e entendi que eu devia depositar ali a minha generosidade. Foi o que fiz, rapidamente e um tanto atrapalhado, e fui embora. De passagem pelo mendigo ainda o cumprimentei com um aceno da cabeça, que ele respondeu sem interromper sua conversação, que me pareceu mais grave do que eu pensara no início.

A reflexão sobre o fato, ou o ápice da crônica, ou onde se passa do humor às coisas sérias, ou, ainda e simplesmente, o fecho de ouro: coisas que estão caindo de maduras mas que aqui não vão existir, porque — novamente uma questão de princípios (dessa vez, um princípio entranhado nos meus ossos) — nunca apreciei que pensassem ou tirassem conclusões por mim, nunca gostei da cereja em cima do bolo, sempre preferi as histórias sem sua moral, histórias simplesmente, para ruminar sozinho e tirar delas a minha percepção de leitor, não a de quem as escreveu. Pois aqui, no ponto onde o cronista experimentado puxaria da cartola sábias reflexões sobre as diferenças do tipo de mendicância praticado no Brasil e na França, ou ainda sobre o poder aquisitivo do mendigo francês, ou sobre a popularização da tecnologia de base, eu, que não sou mágico nem cronista, convido simplesmente o leitor a olhar em direção ao canto superior esquerdo da cena, ali por onde desce essa luz baça filtrada pela bruma e pelos galhos das árvores que movem suas folhas sob o vento ainda frio da primavera parisiense, desenhando estranhas formas na calçada.

Publicado originalmente no Terra Magazine (31/05/06) e gentilmente cedido pelo autor para a publicação na Revista Malagueta.

Amilcar Bettega nasceu em São Gabriel (RS), é autor de O vôo da trapezista (Movimento), Deixe o quarto como está (Companhia das Letras) e Os lados do círculo (Companhia das Letras), livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2005. Vive na França desde 2002.

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1 comentário  


  1. Fantástico!

    Antonio - 13/12/07


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