A capacidade de enxergar paredes
João Paulo Cuenca
O senhor acordou no meio da noite e notou algo estranho na penumbra do quarto. Com a cabeça ainda presa ao travesseiro, forçou a vista e teve a impressão de que o lustre sobre a cama não estava mais preso ao concreto liso e branco do teto. Parecia pendurado a um vidro ou a alguma estrutura translúcida. Sequer teve tempo de ficar curioso: rapidamente acendeu o abajur do criado-mudo. Acima do lustre e do que haveria de ser o teto, viu o fundo de uma mesa. A face inferior de uma cesta, um vaso e o estrado de uma cama de solteiro. Desviou o olhar para o lado e viu a base de uma cômoda e o verso de um tapete colorido. Voltou o pescoço para cima, esticou a vista e pôde enxergar, sobre uma montanha de móveis e corpos estendidos, através de uma pequena brecha, a lua cheia.
Levantou-se da cama procurando alguma explicação para o que acabara de vislumbrar. Quando apoiou os pés no chão, uma súbita vertigem lhe subiu pela espinha e tirou seu equilíbrio. Encheu os pulmões cansados e repetiu o processo de exploração visual, desta vez olhando para o chão — que não mais havia. Exatamente sob seus pés, apenas um espaço vazio o separa de uma cama, onde uma senhora dorme e ronca com a TV ligada num daqueles programas que vendem jóias de madrugada. Abaixo da senhorinha, casais, gente sozinha e algumas crianças se amontoam até o térreo. Todos dormem, com exceção da menina do terceiro andar, rosto iluminado por uma tela de computador. Devia ter 16 anos, 17, no máximo. Vivia abraçada com o namoradinho, encostada no carro estacionado em frente à portaria do prédio, o que causava particular exaltação ao senhor — era no capô do seu carro, um Landau 1967, conservadíssimo, que o jovem casal trocava juras de amor.
Deixou a irritação de lado e concentrou-se no seu problema imediato. Ainda confuso, voltou o olhar para a parede em frente a sua cama. Enxergou seu reflexo enrugado, mesmo sabendo que nunca houve espelho naquela parede. Percebeu que seu rosto assustado estava sendo refletido pelo espelho do banheiro do vizinho. E viu a pia do morador do 703, com quatro tubos usados de pasta de dente de hortelã pela metade; o boxe, xampus e condicionadores anticaspa; o bidê, usado como revisteiro, jornal de ontem e revista de mulher pelada.
Caminhou até a janela e, apoiado no parapeito sem cor, tendo o cuidado de não olhar para baixo, apontou a vista para os prédios do outro lado da Rua Paissandu. A visão aterradora dos edifícios descortinados e seus pequenos movimentos por trás das palmeiras fez com que novamente perdesse o equilíbrio. Naquela noite, sabe-se lá por quê, havia perdido completamente a capacidade de enxergar paredes.
Começou a olhar para dentro da casa dos outros, numa exploração que viria a tomar todos os dias do que restava da sua vida. Naquela noite, a vizinha do terceiro andar era a única acordada além dele. O senhor espichou os olhos alguns andares abaixo dos seus pés, para dentro da mesa de cabeceira da menina. Ali guardava seu diário, bilhetes, recados e cartas românticas que escrevia sem enviar. Cartas bobas, chorosas, que o velho leu sôfrego, com o olhar trêmulo de uma ansiedade que julgava perdida há algumas décadas. Entre páginas marcadas, havia fotos da menina com as amigas na sala de aula, numa micareta no Espírito Santo, entre dois ou três sujeitos que ela certamente havia beijado, para decepção do senhor. Pôde ver também, no mural ao lado do computador, fotos da menina criança ainda. Vaidosa, cabelos presos num rabo-de-cavalo, vestindo vermelho com bolinhas pretas. Certamente malcriada.
Sentado na cama, com o pescoço tombado para baixo, o senhor ficou ali algumas horas acompanhado da menina do terceiro andar, suas palavras ingênuas, gavetas, calcinhas e lembranças, até que dormiu. Ainda não sabia, mas deixar de enxergar paredes premiou-o com inédito sentimento de compaixão.
Despertou radiante, como alguém que ama pela primeira vez.
Publicado originalmente no Jornal do Brasil (11/12/04) e gentilmente cedido pelo autor para a publicação na Revista Malagueta.
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro em 1978. É autor de Corpo presente (Planeta, 2003), O dia Mastroianni (Agir, 2007) e co-autor de Parati para mim (Planeta, 2003). É colunista do suplemento Megazine do jornal O Globo, para o qual escreve às terças. Participou de várias coletâneas e foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro 2007 como um dos 39 autores mais representativos da América Latina com menos de 39 anos.




