Gente que passa


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Nathalia Duprat

Abraçaria o anão que vejo passar do lado de fora. É loiro, veste uma camisa de futebol e tem uma cabeça alongada, como se tivesse sido sugado por um tamaduá gigante.

É um desses ônibus fresquinhos, pequenos e apertados, em que cotovelos que se tocam constrangidos. Ousados, às vezes. Os pensamentos me vieram à cabeça em avalanche, as palavras de braços quase levantados. Tímida, sento ao lado da moça de camiseta verde-limão; cabelos presos, mãos cruzadas sobre a bolsa esquecida no colo. Deve estar preocupada. E percebo isso pelo tanto que contrai as unhas contra a palma da mão. Olho discreta, sorrateira, enquanto escrevo essas linhas. Vestindo um casaco preto, mesmo quando o vento de chuva já passou, sinto vergonha de fazer gestos bruscos e chamar atenção. Hoje quero ser invisível. Quero tomar sentimentos alheios pra mim e brincar de adivinhação com a vida. Tanto tempo sem andar de coletivos, que me sinto estranha. Então seguro forte o dinheiro e as moedas contadas, enquanto mergulho de uma só vez nessa viagem para dentro das coisas.

Na minha frente, duas cabeças conversam. Vejo pouco, mas pelos cabelos e vozes finas, reconheço mulheres. Crentes, falam de Deus. Inconveniente, presto atenção, sem culpa. A balada romântica que sai dos auto-falantes leva embora qualquer sentido, mas ainda ouço Jesus, José, Apocalipse e sacrifício. Cativeiro, Babilônia, promessas e santos. A música preenche os intervalos de uma trilha antiga. Um filme de cinema. You don’t know how my heart aches/ Whatever you say, whatever could mean/ You’re breaking my heart. Rapidamente, pude ver agora um semi-perfil. Não parece dessas radicais, mas é convicta na fé. Imagino que seus olhos devem estar brilhando, as mãos quentes, a garganta cheia. É assim que me sinto quando falo do que acredito; ferrenha, defendo as idéias já cristalizadas. Sou uma apaixonada.

O senhor barbudo da cadeira ao lado observa as mulheres. Lembro dos cachorros diante de um forno de padaria. Por dentro, deve estar dizendo como queria participar dessa conversa, meudeus!. Atrás dele, uma mulher olha distraída pela janela. É gorda e se esmaga tranqüila entre os lados da poltrona. Corro o risco de ser imbecil, mas me condôo de gente gorda. Herança de uma briga infinita com a balança que rouba meus sonhos de chocolate e engorda minha culpa de desejos. Gostaria de saber o que ela pensa. Comida, talvez. Porque o meu estômago impaciente está reclamando, e eu comeria um búfalo inteiro. Um búfalo que, por culpa de Clarice, virou quase poesia.

Lá vem a moça cobradora. Sempre me impressiona ver mulheres ocupando os espaços onde só existia cheiro masculino. A delicadeza, claro. E ela deve ser vaidosa. Anéis ressaltando dedos alongados, cabelos soltos, cachos fartos cobrindo as orelhas. Olha para o meu caderno, como quem não está entendendo muita coisa e sorri. Entrego o dinheiro, relaxo as mãos e devolvo um sorriso. Imagino o que as pessoas pensam de uma garota de casaco num calorão do Recife e uma bolsa enorme sobre as pernas, preenchendo páginas alaranjadas com a voracidade de quem lê um livro bom. E de tanto que dizer que as pessoas são as pessoas, virei alvo de mim. Percebo que sou assim, desse jeito, louca de desejo de ter uma chaleira chamada Rudolpha Elizabeth First. Na verdade, queimei a tramontina inox da minha mãe, e devo uma nova até hoje. Pronto. A que virá já virá batizada. Eu sou o cara.

Nova música agora. O motorista, um senhor de óculos de aros grossos, deve ser fã dos clássicos internacionais. Já eu, prefiro viver em português. Identidade, confesso. Pelo retrovisor, quase por trás das lentes, leio lábios inventando um inglês surreal. A cabeça longe, pés que não se vêem, mãos quase mecânicas, indiferentes aos caminhos tortuosos e inclinados das ladeiras de Olinda. Agora estamos na parte histórica da cidade, onde os sábados de um tal Zé-Pereira enchem a rua de bonecos gigantes. Morro de medo daquelas coisas enormes, rodando braços de cera enlouquecidos. Dizem que o Homem-da-Meia-Noite, quando gira sozinho, na noite de carnaval, espalha maldição sobre os foliões ao seu redor. Um arrepio na espinha e eu sou de novo a moça que escreve e ri e escreve e ri.

As cabeças continuam falando de Jesus. O senhor ainda observa. A moça farta e seu vestido marrom pede para descer. O casal de azul apenas dorme; mãos entrelaçadas, perdidas no meio de sacolas de uma loja popular. Ela, cabelos alisados, unhas bem-feitas e brincos que arranham os ombros. Poderia se chamar Neide. Imagino todas as neides assim, pele negra brilhante e uma cara que diz amém. Ele ostenta um bigode farto. Para cobrir a finura dos lábios, talvez. Daria um bom Roberto Carlos, filho de mãe tiete. As mães são sempre engraçadas. Mas só quando não têm razão, ou repetem euteavisei seguidas vezes. A minha, por exemplo, não consegue dizer castiçal. A cada tentativa, sorri amarelo, procurando algum sinal de aprovação. Ela tem vergonha de beijo. Eu não tenho, não. Gosto de beijar o mundo, abraçando as paredes do meu caminho. Abraçaria o anão que vejo passar do lado de fora. É loiro, veste uma camisa de futebol e tem uma cabeça alongada, como se tivesse sido sugado por um tamanduá gigante. Empurra galanteador a bicicleta, quase envaidecido. Acho que não abraçaria o anão. Às vezes, faço tanto esforço para ser natural com gente, que me sinto virar uma ema. E ema não tem braços.

Última olhada para trás antes de descer. Pessoas distraídas, pessoas que me olham curiosas, pessoas indiferentes, gente feliz e triste e cansada e bonita. Vontade de dar tchau e beijo. Obrigada, pessoal, pelas histórias que imaginei. Hoje virei realismo fantástico do Gabo e autora de novelas invisíveis. Sem revisões finais. Sem finais, para ser mais sincera. É o ônibus da vida, cheio de cor, como a colcha de retalho que sonho desde a infância. Seu Motorista! Pára o mundo que preciso descer! A parada mudou de lugar. Sou eu quem deve correr, pelo lado de fora, os cabelos soltos e a mão cheia de poesia. Quero me ver pintada assim em um quadro. Quero as epifanias, entende? Quero morrer sufocada de rir e escrever no túmulo igual ao CaioF: Aqui jaz Nathalia D., que muito amou. Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?*. Eu tenho pressa, eu tenho pressa! Adeus, Seu Motorista.

* Caio Fernando Abreu, Lixo e purpurina, do livro Ovelhas negras.

O texto foi originalmente publicado na Revista Paradoxo e gentilmente cedido e revisado pela autora para a publicação na Revista Malagueta.

Nathalia Duprat é mãe de Nino e Bibi, mora no Recife e adora sapos, desde que não sejam de verdade. Pratica boxe, é jornalista nas horas vagas, mestranda em Comunicação e trabalha para a Revista Capricho (ela tem mais de 12 anos). Mantém o mesmo blog, e o mesmo layout!, há seis anos e escreve com irregularidade para a Revista Paradoxo.

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