O dia em que fui apresentado ao mundo


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Diego Viana

No dia em que fui apresentado ao mundo, eu voltava para casa cansado e distraído, pensando com afinco na morte da bezerra. Acho que calculava alguma tolice, o espaço entre o trem e a parede ou o horário do pôr-do-sol. Quando enfim chegou o metrô, encaminhei-me para a porta na intenção de abri-la, os dedos estendidos mecanicamente para a maçaneta, como um parisiense nato. De dentro, porém, tinham-se adiantado a mim. A alavanca moveu-se sozinha e a porta foi aberta de um golpe. O estrondo me fez erguer os olhos, e eis que tomei um susto memorável, aquele que me apresentou ao mundo.

À minha frente, uma figura lisa e negra, pouco mais baixa do que eu, mas sem feições, verdadeiramente indeterminada. Uma mancha de breu constituída de algum material que custei a identificar. Uma representação, como naquele breve instante cheguei a imaginar, da morte, ali para buscar minha triste alma condenada. Mas essa idéia, graças a Deus, foi efeito do susto. A figura, na verdade, encarava-me apenas com um misto de pudor e enfado. Só queria que eu me apartasse de seu caminho e a deixasse descer para a estação. Fitava-me, essa assustadora criatura, de trás de uma tela que lhe deixava entrever um par bem feito de olhos negros e humanos.

A julgar pelas grandes pupilas, a maquiagem e o mistério intencional daqueles olhos profundos, concluí que só poderia ser uma mulher. Minto… Não foi pelos olhos que julguei. Sei bem que era uma mulher. Mas a experiência foi arrebatadora: nunca antes eu estivera diante de uma burca. Xadores, sim, já vi centenas; nesse mesmo dia, estive observando a maneira engenhosa como são atados, com o auxílio de grampos enfeitados e dobraduras complexas. Burca (e não me obriguem a escrever burqa), ainda não. Posso atestar que é marcante.

Digo que fui apresentado ao mundo nesse dia porque a burca é tomada com freqüência por um símbolo dos maiores vícios contemporâneos. É a imagem do extremismo encarnado na submissão da mulher, da mesma maneira que o neo-nazismo representa um renascimento das doutrinas de pureza racial (ou nacional), que se criam mortas, e os neo-cons americanos revelam que uma teocracia cristã não é uma idéia assim tão perdida na poeira da História.

Cada vez mais, parecemos habitar um mundo em que radicais têm o poder de interpretar leis à sua maneira, até subjugar povos inteiros e levá-los a concordar com a submissão. Em que países onde há fome endêmica gastam todo seu orçamento desenvolvendo armamento nuclear. Ainda nesta nossa pobre Terra, a maior potência econômica se recusa a evitar o colapso do planeta. Já no terceiro mundo, a espiral da violência é alimento de uma economia claudicante e corrupta.

A simbologia da burca, acredito, faz muito sentido. Tenho a impressão de que todo radicalismo expressa desespero; é a reação a uma adversidade conjuntural, em que um mundo bem estabelecido parece se esfarelar diante dos olhos do indivíduo, esse pequeno universo tão desamparado. Adaptar-se é difícil. Fácil é escolher um dos dois caminhos extremos: de um lado, o abandono irrestrito, melancólico, niilista. Do outro, o radicalismo reacionário, negativo, incapaz de aceitar o câmbio irrefreável dos eventos. Entende-se. É duro ser sensato ao perceber-se efêmero e contingente.

A burca se insere no segundo caso. Ecoa vagamente o esfacelamento do último grande império do Islã, o Otomano, ao final da primeira Grande Guerra. A perda do derradeiro centro cosmopolita arrancou à cultura muçulmana seu senso de unidade e entregou vastos territórios, às franjas do antigo império, nas mãos de chefes tribais incultos e violentos. O Afeganistão, capital da burca, é um notório exemplo, ainda que não fizesse de fato parte dos domínios turcos, apenas de sua esfera de influência.

Mas isso populações inteiras, desprotegidas, abandonadas à tirania desses pequenos déspotas. É triste, mas, de certa forma, normal. Como explicar, por outro lado, os olhos graves que me encararam no metrô de Paris? Mesmo sem ter visto nada senão olhos, sei que a mulher que os dirigia a mim é jovem, instruída e nada provinciana. Apressada, como é típico nos grandes centros urbanos, ela desceu do trem com a agilidade de quem está no auge da forma física e conhece o terreno em que pisa.

Por que, então, a burca? Por medo da família? Por falta de oportunidades fora da comunidade? Por convicção? Talvez seja apenas uma forma de afirmar uma identidade. Não quero aqui comentar o recente debate, em muitos países europeus, sobre a proibição dos véus islâmicos, sobretudo os que, como a burca e o nicab (ou niqab), cobrem o rosto da mulher. (Na Holanda, e agora no Reino Unido, a justificativa é que terroristas podem vesti-los para melhor disfarçar suas bombas. Na França e na Turquia, este último um país islâmico e antiga sede do já citado Império Otomano, recorre-se à laicidade do Estado.) O que me interessa é que a própria idéia do multi-culturalismo liberal do Ocidente está em jogo.

A burca é um símbolo visível e impactante. Mas eu poderia perguntar, também, por que os cabelos raspados dos jovens altos, louros e bem alimentados; por que as jaquetas de couro negro, por que as calças apertadas? A moda entre os rapazes cuja linhagem se traça até Carlos Magno é raspar todo o pelo do corpo. Barba, nem pensar. Tudo para potencializar a diferença em relação aos outros, árabes, negros, imigrantes. A reação desses últimos é proporcional: cultivam o cabelo da cara com dedicação crescente.

A porta está claramente escancarada para as radicalizações. As vozes contrárias estão cada vez mais abafadas e desacreditadas. Assim como o velho império turco desmoronou, também está rachada a estrutura da cultura humanista ocidental. O que virá disso? Não sei, mas a violência está inclusa, com toda certeza. E como vai acabar? Certamente, mal.

Diego Viana é jornalista e economista. Está há um ano na Paris de carne dura e sangue quente, estudando a filosofia e a vida do Velho Continente. No mundo inverso da internet sem pátria, é Osrevni, e publica dois blogues: Para ler sem olhar e Cálculo renal.

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