Verdades de balcão
Orlando de Souza
Em viagem recente ao Rio, tomava um chope no apertado balcão do Jobi, no Leblon, quando apareceu um amigo, poeta reconhecido na década de 1980, que eu não via há muito. Depois de um abraço, ele pediu um Red Label com pouco gelo e iniciou uma insólita conversa:
— Meu velho, driblar a morte é arte do acaso. Por outro lado viver é um difícil fado. Se existe destino, convém tentar saber dele antes, coisa complicada, de jogo de búzios e cartas. Ou só nos resta conformar com o que a vida reserva pra gente. Aí é trabalhar o menos possível pra melhorar alguma coisa. Nunca gostei de trabalhar. Sempre achei que a única lei da natureza que de fato merece respeito é a do menor esforço. É uma lei tão natural, que você não vê bicho, por mais selvagem e esperto que seja, gastando energia inutilmente. Ele pode até se esforçar muito, trabalhar pra cacete, mas é sempre o mínimo para alcançar o objetivo.
Vi que aquilo ia longe e pedi outro chope. Meu amigo continuou:
— Você sabe que levei minha vida com mais graça, charme e prazer do que com esforço, né? Também é verdade, corri mais riscos. Sem modéstia, posso dizer que driblei, por mais de uma vez, a morte. Muita mistura de droga e uísque, compra de cocaína na mão de bandidos armados até os dentes em favelas aqui do Rio, cheiração de pó misturado até com vidro moído, trabalho em zona de guerra na África e a última e melhor jogada: perdi aquele avião da Gol que se estatelou no fim de setembro na floresta amazônica.
Pedalei sobre a morte como o Robinho pedala sobre a bola. Talento do acaso, sorte, proteção divina, sei lá que porra. Sei que andei no fio da navalha como quem caminha seguro e descalço num tapete persa de uma suíte no Plaza Athénée, em Paris. Tive alguns arranhões, pequenos cortes como os de quem faz a barba com pressa, mas nada que um algodão com álcool ou água oxigenada não resolvesse.
Ele pediu outro Red, acendeu um cigarro e prosseguiu com ar já meio nostálgico:
— Foi assim que bebi da vida todo o mel, quando colméias me apareciam e as picadas valiam a pena; bebi todo líquido das entranhas femininas, quando me deparava com saias muito bem recheadas e rostos que não me assustassem de manhã; transpirei pouco, quando o trabalho era inevitável. Mas trabalhei. Você sabe, vivi grande parte da minha vida de escrever, como você. Escrevi anúncios, comerciais de TV, de rádio, programas políticos, campanhas eleitorais inteiras. Também escrevi reportagens, crônicas, poemas. Escrevi verdades em jornais e revistas que nunca acrescentaram um digitozinho sequer no meu saldo bancário. Escrevi mentiras que acrescentaram no mínimo três. Comi nos melhores restaurantes, bebi os melhores uísques, vinhos e champanhes. Ocupei apartamentos e suítes dos melhores hotéis no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na África. Muitas vezes só, outras, muito bem acompanhado. Não escrevia ficção, não, você sabe, na literatura a minha é poesia. Escrevia mentira mesmo. Trabalhei muito em departamentos de criação de agências de publicidade, no Brasil e em Portugal, escrevendo mentiras para consumidores. Trabalhei para políticos brasileiros, portugueses e até africanos escrevendo mentiras para eleitores. Não posso me queixar, ganhei muito dinheiro, mas tudo com mentiras. Se isso incomoda aos puristas, aos paladinos da ética e da moralização de sociedades imaturas, a mim nunca incomodou. Uma das maiores unanimidades entre publicitários, políticos e prestadores de serviço para governos, principalmente brasileiros, é que dinheiro não tem cor, não tem cheiro e muito menos certidão de nascimento. Lição número um para aspirantes a redatores publicitários, a empreiteiros ou a profissionais de marketing político. Olhos bem abertos na elaboração do orçamento e bem fechados no pagamento, você não concorda?
Antes que eu o respondesse ele atropelou:
— Engraçado como a mentira tem prerrogativas muito mais poderosas que a verdade. Não é à toa que é muito melhor remunerada. No mercado da sedução, então, a diferença de cotação é escandalosa. A mentira está como a Microsoft para Wall Street, enquanto a verdade está como as Lojas Americanas para a Bovespa. Quem já tentou sabe. É impossível seduzir alguém dizendo só a verdade, ou os defeitos se tornariam tão transparentes que o máximo que o sedutor conseguiria era espantar o alvo para fora de qualquer limite acessível. A verdade é autônoma, não depende de porra nenhuma. E por isso é onipotente, arrogante, chega a ser soberba ao recusar qualquer ajuda da mentira.
Comecei a ficar assustado, mas pedi outro chope e outro Red para ele:
— Já a mentira é flexível, pode ser humilde, modesta e ainda contar, muitas vezes, com um auxílio luxuoso da verdade. Caetano conseguiu explicar muito bem isso numa música com apenas um verso: “você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir”. O problema é que na mesma música ele completa: “como pode querer que a mulher vá viver sem mentir”. Questão de reciprocidade, meu amigo. Aí, é preciso recolher o ciúme e, de novo, correr riscos. Vida de sedutor e, por conta da atividade mentiroso, pode ser divertida. Você come mulher pra caralho. Mas é atribulada.
Ameacei concordar com a obviedade, mas fui de novo atropelado pela verborragia:
— Tive mulheres bonitas, algumas lindas, outras apenas mulheres, nos três continentes por onde passei. Quatro, se contar com os Estados Unidos, onde só fui a passeio. Todas seduzidas com mentiras, auxiliadas por pitadas de verdades. Normalmente aquelas que despertam a dose certa de compaixão, aquela peninha que as fazem se sentir mães, capazes de te ajudar e, rapidamente, transformar essa ajuda num instrumento para a criação da dependência. E este é o maior perigo. É facílimo se tornar dependente de uma mulher, você sabe. Não falo por dinheiro, por conforto, companhia, porque isso nunca foi problema pra mim. Falo por amor mesmo. Porque, não se engane, os mentirosos também amam.
Estava ficando brega, pensei em mandar recolher o uísque, mas ele foi mais rápido, tomou o copo nas mãos e continuou, indiferente a minha tentativa de advertência:
— Também têm angústias, carências e, claro, dependências. E esta última é fatal. A mulher identificou a dependência que ela mesma plantou, você dorme na posição de amor da vida dela e acorda na de um pobre coitado, carente e mal resolvido, um menino que se esqueceu de crescer. Das muitas mulheres que tive, amei poucas, me apaixonei mais do que o necessário para me tornar poeta. Comi todas como quem devora livros didáticos. E, além de testemunhar as verdades que a música de Caetano tão bem revela, aprendi com a maioria delas uma regra que, se eu fosse você, aplicaria em qualquer lugar do mundo: você pode correr o risco de confiar num estelionatário, num traficante de drogas, num assaltante com arma em punho ou num candidato a presidência da República do Congo. Mas cuidado. Redobre a sua atenção, apure bem seus instintos e mantenha os dois pés atrás ao confiar numa mulher.
Dito isso, meu amigo jogou uma nota de cinqüenta sobre o balcão, me estendeu a mão e saiu em silêncio, deixando um rastro de amargura, de cansaço. Algo de fracasso, de irremediável solidão.
Orlando de Souza é mineiro de Belo Horizonte, jornalista, publicitário e poeta é autor do livro O Ardente Naufrágio de Minas e tem textos publicados no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Viveu por oito anos entre Portugal e Espanha e por um ano na África. Foi cronista do Diário de Minas, do Estado de Minas e Colaborador da Folha de São Paulo. Atualmente vive em São Paulo e trabalha como roteirista no departamento de conteúdo de uma produtora de TV.




