Envelhecer
Alessandra Quites
Apesar de estar na flor da idade, penso em viver muitos anos e desfrutar também da temida velhice.
Quando envelhecer, vou usar roupas com lantejoulas , que não combina nem fica bem em mim. Vou gastar a pensão em vinhos, cruzeiros para terceira idade, ração para gatos e sandálias de cetim — e dizer que não tenho dinheiro para a conta de energia. Vou sentar na calçada quando me cansar e devorar as ofertas do supermercado, tocar as campainhas e jogar milhos para pombos nas praças e compensar toda a sobriedade da minha juventude. Passar muitas tardes jogando baralho com velhos amigos ou lendo revistas de meditação e culinária.Vou lembrar de quando eu andava na chuva de chinelos, apanhava flores no jardim dos outros e aprendi a cuspir.
Pensar no futuro, muitas vezes é terapia para voltar a viver o presente. Hoje, tenho uma vida boa, com bons amigos, um emprego, uma família linda, saúde e tenho também mais um grande mistério do ser humano: um amor.
Quero brincar então, de futuro, de vida. Penso que no futuro, a gente pode usar camisas horríveis e engordar, comer um quilo de guloseimas de uma vez, uma barra de chocolate amargo ou só pão com salaminho a semana inteira e juntar canetas e bolachas de salgadinhos chips e coisas em caixinhas. Mas agora temos de usar roupa que nos deixe secos, pagar aluguel, não dizer palavrão na rua e ser bom exemplo para as crianças. Temos de ler o jornal, entender de política e convidar amigos para jantar.
Bem, a velhice vai chegar é inevitável. Será que serei um pouco louca? Mas quem sabe eu não deva treinar um pouco agora? Assim os outros não vão ficar chocados demais quando de repente eu for velha e usar lantejoulas, bengala arco-íris, beber vinhos em copos maravilhosos e usar meias de estrelas.
Alessandra Quites tem 28 anos e é mineira da capital das Minas Gerais. Publica contos, crônicas, poemas e curiosidades na internet em um blog bem simples, sem quaisquer limites ou revisões, desde agosto de 2006. Escreve nele por terapia e prazer.




