Faz sentido


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Walter Ramos de Arruda

Não ando bem com a recente situação de muitos aspectos da vida do país. Ameaças e incertezas. Perspectivas estreitas. Violência. Greve de fome em voga. Corrupção. Todos os dias me convenço de que não vale a pena escrever mais nada sobre certos assuntos. E, logo em seguida, estes mesmos assuntos me convencem de que precisam ser tratados. Mas confesso que não é nada fácil enfrentar tal dilema. Uma onda de desânimo e apatia rouba-me as forças diante do quadro torto dos nossos dias.

Ainda assim, um ocorrido chamou minha atenção esta manhã. A chegada de uma mensagem, via e-mail, de um grupo de debates intitulado Projetos para África do qual faço partee. A mensagem traz um endereço. Um endereço de uma criança lá na Guiné Bissau, com a qual me comprometi, junto ao grupo, a iniciar uma correspondência via correio convencional. Ou seja: através de cartas. Lembro que, há semanas, no fórum de debates, o moderador do grupo apontava muitos benefícios a todos. Além de praticarmos a escrita do idioma comum, poderíamos nos aproximar enquanto diferentes. E, citando algumas diferenças, destacava o fato de sermos de gerações distintas, além de termos nascido e vivermos em países distantes. Então, cada um do grupo adotaria um amiguinho que concordou previamente na escola, sob a monitoria dos pais e da professora, em participar da nossa interação epistolar. Só bastava um sorteio e nos chegariam os endereços com os nomes. E como são interessantes certas coisas. Eis que me ocorre a chegada desta mensagem, fruto de uma missão acertada, justamente hoje que acordei meio confuso, com um eco niilista de concha soprando ventos ruins aos ouvidos, vindos do início da minha juventude. De onde eu, apático, por vezes não enxergava sentido para vida e indagava angustiado sobre quando tudo isso acabaria. Como era triste aquela época. Às vezes, me lembra os dias atuais.

Devo é iniciar logo a correspondência. Quero terminar estas linhas aqui e partir para escrita da carta a punho e caneta. Como tanto se fazia antigamente. Antes dos e-mails e mensagens instantâneas. Relembro do pouco que sei sobre Guiné Bissau. Recordo de uns conhecidos que tenho no outro lado da fronteira senegalesa. Outros guineenses que conheço e moram aqui no Brasil. Minha certa admiração por Amílcar Cabral, o herói daquela nação e do arquipélago de Cabo Verde. Até me vêm à mente alguns provérbios crioulos, e o som do tambor-de-água…

Mas há um detalhe no tal e-mail recebido. Sei que o meu destinatário chama-se Davi e se encontra no auge dos seus oito anos de idade. Não será nada fácil escrever para alguém com sabedoria tão distinta. Acho mesmo é que falarei, em princípio, sobre a antiga trindade nas brincadeiras de minha infância: pião, papagaio e bolas-de-gude. Na minha infância vou procurar algo para nos entendermos.

O certo é que agora, aos poucos, minha insatisfação vai se desfazendo. Quero pensar que o tempo nublado geralmente me deixa antipático no começo de dias como hoje. Já me animo a pegar uma esferográfica e uma folha de sulfite. Afinal, Davi, um menino esperto de oito anos de idade — lá na Guiné Bissau — aguarda uma carta minha.

Engraçado. Esta manhã, a vida faz todo sentido.

Walter Ramos de Arruda (1976) nasceu em Recife. Tem formação em Letras e antropologia. Poeta e roteirista, está a preparar um livro de poemas. Vive escrevendo.

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