Capitu, afinal e finalmente


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Roberto Gomes

Todos conhecem o teste de DNA. Até mesmo dona Pâmela, moradora do bairro, que passeia por estas ruas tranqüilas com seu cão dobermann, chamado Astolfo. Dia destes, estava ela conversando com o meu jardineiro, sendo senhora solitária e carente de companhia, e a surpreendi dizendo que muitos benefícios trouxera à humanidade “aquele teste de DNA inventado pelo Ratinho”.

Bom, ninguém é perfeito. Embora tenha feito faculdade de Estudos Sociais, nos tempos de universidade dona Pâmela andava demasiado ocupada com seu casamento para se aprofundar em questões médicas e biológicas.

Mas não lhe falta razão. De fato, o teste de DNA poderia ter resolvido muitos problemas, inclusive literários.

Se no século XIX houvesse o tal teste, mesmo sem televisão e o programa do Ratinho, os rumos da literatura brasileira seriam outros. O livro Dom Casmurro soaria falso ou teria que ser reescrito por Machado. Logo que Bentinho desconfiasse de sua esperta e atilada Capitu, ele cortaria uma mecha de seus cabelos, iria a um laboratório e descobriria, com erro de menos do que 2%, se aquele garoto com a cara do Escobar, o andar do Escobar, o jeito do Escobar, era ou não filho do Escobar.

Nesta hipótese, o romance — a não ser que o notável talento de Machado lhe desse outro destino — não ultrapassaria umas cinco páginas, viraria conto. Mas, aparentemente, muitos leitores e críticos literários ficariam satisfeitos por gozarem da certeza científica de que Capitu traiu (ou não traiu) Bentinho.

Tenho dúvidas se a literatura brasileira ganharia com isso. Acho até que este recurso à ciência — que fulminou fantasias humanas que nos faziam tanto bem — levaria Machado a engavetar Dom Casmurro.

Houvesse o recurso ao DNA, porém, inúmeras dissertações de mestrado, quilos de teses de doutorado, muitos artigos doutos teriam sido evitados. Vestibulandos não seriam obrigados a se torturar com as dúvidas do ciumento Bentinho e saberiam marcar a alternativa correta com exatidão científica. Economizaríamos litros de tinta e toneladas de papel.

No entanto, o jardineiro com quem dona Pâmela trocava prosa na calçada aqui de casa, enquanto Astolfo, o dobermann, atacava os sacos de lixo e destruía o canteiro de begônias, disse uma coisa surpreendente. Ele puxara conversa dizendo-se preocupado com um vizinho que tinha dúvidas se aquele rapagão que tinha em casa era realmente seu filho. Por isto, quando dona Pâmela sugeriu o teste de DNA, ele se apoiou relaxadamente no rastelo, passou a mão no rosto e disse:

— Sei não, dona. Ele já se acostumou com a dúvida. Acho que gosta de viver desse jeito.

Não ouvi o resto da conversa. Segui minha caminhada, convencido de que este jardineiro é um craque em teoria literária.

Em primeiro lugar, não há como conferir um adultério cometido (ou não) numa história que só existiu na cabeça de Machado de Assis e que agora só existe em nossas cabeças. Que o autor provoca o leitor o tempo todo, não há dúvida, mas tentar resolver o problema objetivamente exigiria abandonar qualquer distinção entre ficção e realidade; Machado, no fundo, se diverte. Larga pelo caminho todas as pistas possíveis e escancara todas as possibilidades. Ao contrário, aliás, do teste de DNA, que só concede 2% ao opositor. Menos do que o emplasto inventado por Brás Cubas, que seria uma espécie de panacéia universal 100% infalível.

Ou seja, Machado não brinca com este adultério que houve (ou não houve) para nos legar uma charada inútil. Penso que escreveu este livro para nos advertir: isto é ficção, não é realidade. Grande lição.

Mas estou convencido de que o texto estrábico de Machado nos diz que Capitu traiu Bentinho. Dou razão ao Dalton Trevisan, o maior conhecedor de adultérios na literatura brasileira, que afirmou: “se Capitu não traiu Bentinho, então Machado de Assis é José de Alencar”.

Aliás, a frase de Dalton me permite especular. Mário de Alencar, filho de José de Alencar, tinha a cara do Machado de Assis. E aquela inglesa, Giorgiana Cochrane, a Senhora do Alencar, não era de se jogar fora.

Roberto Gomes nasceu no ano de 1944, em Blumenau. Formado em Filosofia pela Universidade Católica do Paraná em 1969. Iniciou sua carreira de escritor com uma obra de filosofia, Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima segunda edição. Publicou cinco romances, sendo o mais recente Júlia (Editora Leitura). Desde 1979 trabalha na área editorial, tendo participado da Coeditora e, entre 1981 e 1989, da primeira fase da Criar Edições. Dirigiu a Editora da Universidade Federal do Paraná de 1990 a 1998. Aposentou-se como professor da UFPR em abril de 1998. Em 2000, reativou a Criar Edições, que dirige atualmente. Mais informações em seu site.

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