Pai, Filho e Espírito Santo
Walmor Santos
Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles. (Mt 18, 20)
Os inimigos do homem serão seus próprios familiares. (Mt 10, 36)
Pai
Porque o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família… (Mt 20, 1)
Pai sentara à mesa. Mãe preparava o café da manhã. Um pouco afastada, a Bíblia permanecia aberta.
Diante dele a cafeteira fumegante espalhava o cheiro do café forte obrigando-o à ruidosa aspiração, como se principiasse a bebê-lo pelo olfato. Mãe recém pusera a fôrma com o pão-de-ló exalando mornura. Apontara para a geléia e a nata. Provocara-o: a gosto!
A leitura da Bíblia era hábito antigo. Da infância, quando sua mãe, pacientes vezes, reiterava: a gente deve inaugurar o dia com a palavra de Deus. Como o pão alimenta o corpo para enfrentar o trabalho, a palavra de Deus alimenta o espírito para que possa digerir as tribulações da jornada.
Embora Pai cultivasse o hábito do acaso na leitura, seu exemplar mostrava-se viciado no Novo Testamento. Sobre todos, apreciava Mateus. Naquela manhã fizera luz com o capítulo 15: O puro o impuro. Ficara mastigando o versículo não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro. Depois o Mestre iluminara: … o que sai da boca procede do coração.
Concordava: somos o que vem de dentro. Irritava-o sobremaneira a hipocrisia social das aparências, dos discursos farisaicos, dos comportamentos obscuros. Sabia cada história íntima de fazer mudo exclamar meu Deus!…
Repetia para a família: não somos o que dizemos que somos nem o que pensam de nós. Somos o que pensamos intimamente! É pela qualidade dos pensamentos que revelamos nossa verdade interior. É preciso, pois, vigiarmos os pensares, o comportamento íntimo, as reações espontâneas.
A palavra, admitia, significava mais do que as acepções oferecidas pelo dicionário na estante, ao alcance dos olhos. E, sem medo, pensava na palavra costumeira: merda! Conforme o tom, poderia ser uma ofensa a algum desafeto ou um desabafo ante a dor. Sorri encabulado por juntar exemplo tão chulo à reflexão espiritual. Inocenta-se ao concluir que Deus está em tudo e que o dicionário é a bíblia universal de todos os povos. Sem ele, impossível fazer a luz e recriar mundos.
Mãe o observa, intrigada, mas com terno brilho nos olhos. Pai fala alto:
— Assim como o alimento estragado faz mal ao organismo, a conversa inútil envenena o espírito.
Mãe o compreendia sem entender o porquê da sentença a essa hora. Para recuperá-lo à realidade da casa, fisga-o com farto pedaço de pão-de-ló. Pai agradece com luminoso sorriso e retribui servindo-a com café e leite:
— Bem como gostas! — acrescenta com doçura.
Como sempre, logo após o primeiro gole de café — para espantar o hálito da madrugada — ele a beija com leveza evangélica:
— Que tenhamos um bom dia!
Do pátio a brisa traz o sonoro trinado do bem-te-vi.
O amor — Pai repete como mantra —, a Deus e ao próximo estão entre os maiores mandamentos. Nele, toda a Lei!
Mãe benze-se, olhando-o com ternura capaz de encher espírito, estômago e cama. Então ligam o televisor no noticiário matutino.
— Veja! — Pai alteia a voz e o volume do aparelho — Outro carro-bomba no Iraque!
A imagem dispõe, além da mesa com a imaculada toalha branca, costume preservado pela esposa ao longo de tantos anos, o inferno recente. Na raiz da fumaça em ascensão o carro em chamas, corpos despedaçados, sangue no asfalto; o alarido desesperado da multidão e a voz grave e neutra do repórter anunciando cento e vinte e três mortes.
Com o pão-de-ló à boca, o cheiro de canela subindo ao nariz e despertando primevas lembranças da mãe e de um menino terno e sem máculas em sua primeira comunhão, ele repete o mantra venial:
— Que merda!
Mãe franze a testa com terna severidade e, sem perder o brilho ridente dos olhos nem o sabor açucarado à boca, o repreende:
— Pai!
Filho
Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. (Lc 15, 21)
Pai e Mãe permaneciam à mesa quando ouviram o barulho de chaves à porta. Voltam-se. Filho chega de outra noitada. Faceiro e levemente embriagado, cheirando a cigarro, a roupa amarfanhada.
Mãe olha para Pai, como quem diz eis o meu filho amado, em quem meu coração se compraz, mas voltando-se para o garoto, mais suplica que ordena:
— Deixa os tênis enlameados lá fora!
— Ah, mãe, não aporrinha!
Mas descalça, deixando-os ao pé da porta, sabedor que logo a mãe os recolherá e que, ao acordar, estarão limpos ao lado da roupa passada com muito zelo para ele tornar às baladas.
Filho estende o braço sobre a mesa, entre os pais, agarrando uma fatia de pão-de-ló. Espalha migalhas sobre a Bíblia.
— Senta e come! — Pai ordena com voz de trovão. Filho, ríspido:
— Tô sem fome!
Vai à geladeira e volta com o refrigerante laranja, bebendo-o diretamente no gargalho.
— Nojento! — Mãe o repreende em voz baixa, cansada da inútil insistência por boas maneiras. Pai acusa:
— Esse parece que não tem mais jeito!
Mãe divide a inquietação paterna, mas permanece com olhos ternos sobre o filho que, sem qualquer inquietação ou remorso, os abandona na sala de jantar.
Pai, afogueado e impotente, vomita:
— Vagabundo! Não serve para nada! — Mas repentinamente se cala:
— É o que sai da boca!
Olha para a Bíblia, para a mulher, para a Bíblia novamente:
— Onde erramos?
No entanto, relembra as palavras da Lei: os filhos se levantarão contra os pais e os farão morrer. Penalizado, olha para Mãe em evidente desalento. Pressente-a com espinhos embebidos em fel. Relembra da Virgem Maria: as mães são crucificadas por tanto amar.
Mãe recolhe os farelhos que o filho deixara sobre a toalha branca. Entrega-se:
— Passo a madrugada entrando e saindo do quarto dele, pra ver se já chegou. Há tanta violência por aí! Temo o dia em que sejamos despertados por telefonema fatídico.
— Vira essa boca pra lá, minha velha. Deus é pai, há de protegê-lo.
E ele exorciza o destino batendo os nós dos dedos contra a mesa. Mas repensa a notícia da rádio no dia anterior: jovem morre esfaqueado em briga de torcidas.
— Nosso lar — admite pesaroso — está cada vez mais distante do ideal cristão.
Mãe ascende olhos para o alto:
— Graças, Senhor, pelo filho pródigo que ainda volta!
Espírito Santo
Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu. (Mt 18, 18)
— Ah, o colégio! Maria dormiu demais!
Mãe ergue-se da mesa, apressa-se pelo corredor, entra no quarto da filha de quinze anos:
— Esqueceste o colégio, minha criança?
— Tô mal, mãe!
Filha desata num choro convulsivo. Mãe sente a pressão da panela sobre o fogo. Mãe senta-se à beira da cama, puxa a menina para si, aninhando-a em colo protetor. Filha continua a chorar:
— Não sei o que fazer, mãe!
Mãe compreende na pergunta o desespero da súplica. Sabe que, mais que desabafo, a filha pergunta o que faço agora, mãe.
O que fazer? O que lhe dizer? Mãe também não sabe da resposta. Intui que não pode falhar com o rebento de seu ventre:
— Conta o que está acontecendo, filhinha! Estás apaixonada? Brigou com o namorado?
— Antes fosse, mãe. Sabes que não tenho ninguém!
— O que foi, então, minha querida!
De repente Filha liberta-se dos braços maternos e corre ao banheiro, deixando lances de vômitos pelo corredor.
Mãe ouve o arrastar da cadeira na sala de jantar. Pai tosse. Mãe benze-se, temendo o juízo final. Gostaria de fechar a porta, mas condenaria Pai à insignificância da masculinidade. Juntas, mãe e filha são deusas. Mas pai impõe-se à porta, a Bíblia nas mãos:
— O que acontece?
Mãe teme parir o que pensa. A ira certamente abaterá o esposo. Seria o inferno no lar.
Muito depois Filha abre a porta do banheiro, pálida. Com olhos assustados para a mãe, inquire calada do que ela dissera ao Pai. Mãe a tranqüiliza com breve negaceio da cabeça. Quando a menina passa ao lado dele, é puxada:
— Fala comigo, filha! Confia!
A garota vê o Livro Sagrado nas mãos do pai. Apreendera dessas leituras que nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser revelado. Talvez falando, alivie-se. Mas resguarda-se nos braços maternos, deixando-a como pacificadora entre o juiz, o Pai, e a ré, ela:
— Acho que estou grávida!
O quarto se faz Gólgota. O silêncio, trovões apocalípticos; o olhar do pai, pedra tumular. Pesa. Esmaga. Mãe sofre. Filha entrega-se à imolação. Aquele dolorido “acho” já a ninguém permite dúvidas. Com ancestral cumplicidade a abraça.
Pai permanece mudo, pálido. Balança pesaroso a cabeça. Sente o coração fender-se: tão novinha e condenada ao limbo, entre o paraíso da maternidade e o inferno da juventude perdida com a gravidez precoce! Ao abrir a boca, o faz como se tivesse medo:
— Quem é o pai?
O silêncio continua sendo triturado por soluços. Pai insiste, com voz impositiva. Mãe acaricia sua pequena que, desesperada se entrega:
— Não sei, pai. Não sei!
Mãe passa a mão sobre o ventre da filha:
— Um menino! Emanuel será seu nome. Trará o amor para esta casa!
Pai teme nuvens negras sobre o lar. Mãe desveste-o do inferno com o preceito maior:
— Pai, amarás o teu próximo como a ti mesmo!
Pai, impotente e desconsolado, volta-se para o corredor e sai relembrando: aquele que receber uma criança por causa do meu nome, recebe a mim. Embora deseje esbravejar, chamar Filha de vagabunda, gritar para alívio de sua angústia, sabe que a ira de nada adiantará agora, pois ai do homem pelo qual o escândalo vem!
O teto de casa, ameaçado de ruir, sustenta-se no Verbo: Filha ainda é uma criança! Entrega-se, então, ao choro.
Gostaria da cabeça bem assentada para não falir nesta hora de aflição. Atônito, abre a janela do quarto em busca de força: pois meu jugo é suave e meu fardo é leve. Olha para o alto. No azul das nuvens vê a suavidade de anjos: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho!
Benze-se:
— Em nome do Pai, do Filho e… do Espírito Santo!
Amem!
Walmor Santos nasceu em São João do Sul, SC, em 16.08.1950. Reside em Porto Alegre, RS. É proprietário da WS Editor, uma pequena empresa que se dedica a lançar novos escritores e a levá-los às escolas. Foi o idealizador do grupo Cria Contos, do Projeto Autor na Sala de Aula e do Projeto Comunidade Leitora (este, com Nóia Kern). Foi criador e editor da extinta Revista Literária Blau, hoje em formato jornal. Presidiu a Associação Gaúcha de Escritores no biênio 1999-2001. Tem vinte títulos publicados, destacando-se O paraíso é no céu de sua boca, em 12ª edição, participou de inúmeras antologias e recebeu vários prêmios. Mais informações em seu site.




