Nara está viva!
Rafael Cortez
São quase 11 da manhã e só agora Nara Leão chega à entrevista. Ela está atrasada. Tudo estava marcado para as 9 horas. Rapidamente ela se desculpa, tira os óculos de sol e critica César Maia: a culpa é do trânsito do prefeito. Onde já se viu, agora o Rio tem trânsito!
A senhora de 66 anos que senta na poltrona agora é bem diferente da moça que exibiu os joelhos e cantou desafinada em 1967. Nara Leão está acima do peso — o que ela mesma destaca. Mas a culpa é dos netos que não me deixam mais fazer exercícios, diz. A grande satisfação da senhora Nara agora são os filhos de Francisco e Isabel. Há dias inteiros de passeios e brincadeiras com as crianças no Leblon ou no parque do apartamento que a musa ocupa hoje ao lado do parceiro de três décadas, Marco Antonio Bompet. Os netos do Chico (Buarque) às vezes se juntam na farra, conta ela.
Nara não vê Chico há alguns meses. Aliás, há algum tempo ela não vê Caetano, Bethânia ou a turma da Bossa-Nova. Quem não sai de casa mesmo é o Menescal e a Iara. A cantora se refere ao parceiro de uma vida inteira, Roberto Menescal, e sua esposa. Contatos que a velha Nara ainda preserva em meio à nova vida de psicanalista e cantora nas horas vagas, como ela mesma diz.
O alvoroço em torno do show está uma brasa!, brinca ela, imitando Erasmo Carlos. Não é pra menos. Até então reclusa em seu novo cotidiano, Nara abriu uma exceção no jejum de 19 anos sem gravar Bossa-Nova. Por ocasião das cinco décadas de comemoração da música que mudou o Rio de Janeiro e o Brasil, atendeu ao apelo direto de João Gilberto (sou uma das poucas que ele ainda deixa visitar em seu flat, diz) para gravar um novo disco de canções do movimento que a imortalizou. “Novas Saudades em Tempo de Bossa” ainda nem foi lançado, mas já é um sucesso. A regravação de “Chega de Saudade” (homenagem à pioneira Elizeth Cardozo, como ela destaca) não pára de tocar nas rádios. Por conta desse sucesso, o tão sonhado show de Nara voz e violão foi marcado. E em poucos dias, na frente do Copacabana Palace, nas areias da Avenida Atlântica (onde papai tinha o apartamento onde começamos tudo, lembra) Nara fará sua volta triunfal à música de Tom, Vinícius, Carlinhos e tantos outros.
Hoje é mais fácil me apresentar, apesar de ser cada vez mais raro. Naquele tempo, quando a turma era mocinha, havia mais ingenuidade, mais medo. Não sei por quê. Acho que agora que sei usar internet e tenho telefone celular fiquei menos bicho-do-mato e mais solta. É a idade também, né? Nara não se ilude. Sabe que os tempos são outros e que ela é também reflexo de seu tempo e de sua longa carreira. Na verdade, ela está mais madura.
Não é pra menos. A artista que teve um tumor no cérebro, ficou em coma e viu a morte de perto, tem muito o que comemorar. Ganhei uma nova chance, filosofa. O dia 7 de junho de 89 foi um marco na minha vida. E foi mesmo: depois de dias inconsciente, foi nessa data que Nara teve uma parada cardio-respiratória grave. Teve gente que mandou coroas de flores antes da hora, brinca. Mas, milagre ou não, ela se safou. Milagre ou não? Foi milagre sim! — defende a cantora. Vinte e cinco dias depois de muita vigília na UTI e de diversas operações delicadas, Nara saiu da clínica de Botafogo renascida. O tumor nunca mais voltou, conta orgulhosa. Mas eu nunca mais dei trela também, e não largo a homeopatia por nada desse mundo! Após contar isso, ela faz uma pausa e toma 15 gotinhas de um floral que descobriu recentemente e virou uma nova paixão; aliás, agora Nara adotou os florais também, viu?
De 1989 para cá, a carioca nascida em Vitória, no Espírito Santo, fez de tudo um pouco. Casar com o Bompet foi o primeiro passo. Ele foi o companheiro que segurou a barra mais pesada, lembra. A volta à Psicologia foi outra iniciativa. Ela só lamenta o fato de ter tido de prestar vestibular de novo (minha matrícula na PUC caducou, conta rindo). Hoje Nara tem sociedade em uma clínica em Laranjeiras. Mas não atende. Gosta de ler, de escrever sobre o assunto e fazer a consultoria do espaço onde a amiga de sempre, Helena Floresta, colocou a filha para trabalhar. Para Nara, ela sim é “fogo na roupa”.
O lado artístico, de 89 para cá, seguiu a mesma linha de sempre. E eu lá sei fazer as coisas de modo diferente?, pergunta indignada. Nara parou um pouco e chegou — de novo — a anunciar o fim da carreira. Só voltou a gravar de novo em 1992, quando lançou o excelente “Nara canta Caetano”. Estava devendo um disco desses para ele, ressalta. A crítica gostou. O mesmo não aconteceu com o CD de 1995, “Outras Canções”. Qual o mal de homenagear Aguinaldo Timóteo e outros compositores populares? Até hoje Nara não se conforma. Quando lancei o disco só com músicas de Erasmo e Roberto, foi o mesmo barulho. Mas naquela época, as pessoas eram melhores, mais abertas. Em pouco tempo o disco pegou. Hoje a turma tem mais preconceito. Bem, é o que a indignada Nara diz.
Foi preciso esperar até o ano 2000 para ouvir o excelente “Nara” (mais um disco só com seu nome), repleto de músicas pops. Foi um prazer gravar músicas dos Engenheiros do Hawaí, Renato Russo, Rodrigo Amarante, Skank, Pato Fu e outros ídolos da moçada. Nara destaca também a alegria de ter a participação dos Los Hermanos em seu álbum. Me senti moçinha de novo, gargalha. Fernanda Takai, do Pato Fu, gostou tanto de gravar uma faixa com Nara Leão que dedicou, oito anos mais tarde, um disco inteiro à cantora capixaba. Nara gostou? Não ouvi ainda inteiro, mas não publica isso não, por favor! Desculpe Nara, eu publiquei…
Nos últimos oito anos Nara cuidou mais dos netos, da casa e do marido. Coloca aí que eu li muito, ela pede. Nara leu muito. Seus shows tornaram-se cada vez mais raros — os do Japão eu parei mesmo, conta. Eles só querem saber de Bossa-Nova… Fora que não aguento mais andar de avião e comer peixe cru! Na verdade, o que Nara não conta é que não pode mais arriscar a saúde em longos vôos japoneses. Os orientais não se conformam.
Meio emocionada, Nara enfatiza o prazer que teve ao abraçar os novos projetos de sua carreira. Foi gratificante parar um pouco com os discos para batalhar pela pesquisa com células-tronco, lembra. A Fundação Nara Leão, criada pela cantora, defende até hoje projetos de lei ligados ao tema. Fora o nosso empenho em estudar e tratar casos familiares de pessoas que, como eu, tiveram algum tipo de tumor. Nara fala disso com mais alegria do que quando fala de música.
Sobre o Brasil e o Rio de hoje, Nara tem pouco o que dizer. Tudo piorou muito, não é? Mas a política me aborrece demais. Ela, que já fez campanha para o Brizola no passado, vê com ressalvas o governo Lula. Mas seria pior se ele tivesse ganhado em 89, quando eu estava bem doente, diz. Eu via tanta estrelinha na época que podia muito bem ser uma militante petista! Nara não perde o bom-humor.
São quase 13 horas e Nara tem que ir embora. Ela explica: a Isabel precisa de uma mãozinha… O Bial tá viajando e a avó aqui vai domar as feras. Como Nara não dirige mais desde 1988, é o repórter aqui quem pede o táxi. A cantora é levada até o hall do prédio sem ter tomado toda a xícara de café que pediu. Antes de entrar no veículo, já de óculos escuros de novo, puxa os mesmos até a ponta do nariz, dá uma piscadinha marota e pede, com cumplicidade: olha lá o que você vai escrever, hein?
O carro leva Nara. O sol continua brilhando forte em meio ao doce azul do céu carioca repleto da vida ganha que Nara Leão desfruta senhora.
Rafael Cortez é ator, músico, produtor, jornalista e repórter do programa CQC (Custe o que custar). Escreve em seu blog.





O cabra é bom mesmo!
Ficção ou biografia?
O bom é imaginar. Mas é preciso estar apaixonado pela vida de alguém. Parabéns!
Mais viva do que nunca!
Grande imaginação essa sua, Cortez.
Fãzaço.
Pena ela ter morrido uns meses antes de eu nascer.
Me emocionei ao pensar que ela poderia estar viva cantando de tudo um pouco.
Ela é minha inspiração pra continuar tocando Bossa Nova. Meu professor de violão até me disse: você poderá virar uma Nara Leão.
Bom, chegar aos pés dela eu sei que não vou, mas levar a arte com o amor e carinho como ela fez, até posso tentar.
Viva Nara Leão!!!
Viva a música brasileira!!!
Zênti.. tô passadãn…esse Rafael falando da pessouãn…Nara q é diva
amo essa amapô q voix… Rafa..kiss na boca.
Rafael, você é demais!
Adoro sua atuação em tudo; escrevendo, entrevistando, creio que é completo!
Faço votos que com esse talento você se realize plenamente!
Parabéns
Anamaria
É, vc escreve que nem jornalista.
É mais que preciso, é fundamental manter viva “em nós” as pessoas a quem estimamos…
Muito boa esta “entrevista”..rsrs nos faz sentir Nara viva mesmo…