Montanha russa
Marco A. Domingues
Vozes vindas da rua interromperam o fluxo de saliva que copiosamente deixava sobre o livro que tinha aberto para ler momentos atrás. Estava atordoado, aquele cochilo definitivamente não fizera bem para ele, mas as vozes continuavam. Mulheres. Foi até a janela ver se alguma daquelas vozes tinha algo para oferecer para ele, grande apreciador da beleza feminina. Não tinham. Apesar de bonitas, já tinham passado da idade que o agradava, neste ponto, ele gostava de brincar que tinha parado no tempo. Pena.
Esses cochilos haviam se tornado freqüentes ultimamente. Não conseguia mais se concentrar, bastava começar a ler que já estava dormindo. Meio século, como podia ter vivido tanto tempo? O corpo se fazia mais presente, dores, indigestões, dificuldades, o preço que se pagava pela sabedoria. Puxou um caderno para tentar escrever algo, transformar aquela conversa de rua em uma história, buscava inspiração nos fatos do dia a dia. Ele estava desesperado para criar literatura, mudar de lado, passou a vida analisando o trabalho dos outros, entendia perfeitamente o que funcionava e o que não funcionava em uma obra literária, anos criticando o trabalho dos outros, agora era hora de mostrar seu verdadeiro talento e conquistar sua imortalidade.
Mostrou seus primeiros trabalhos para alguns amigos professores e eles gostaram, escreveram críticas e resenhas favoráveis ao seu primeiro livro de contos, era o estímulo que faltava. Aceitou que estava destino a ser escritor e que tinha talento.
Porém aqueles escritores do passado o assombravam. Aqueles aos quais ele dedicou toda sua vida, num impulso egoísta, não largavam mais dele, tudo que escrevia tinha que passar por eles, não conseguia ser original, não podia atingir seu EU mais profundo, que, sem dúvida, carregava em sua alma. Magistrais escritores do passado. Assim eles os chamou enquanto os estudava e, talvez por isso, por ter mimado aqueles fantasmas é que eles não desgrudavam mais dele, ainda tinham coisas a dizer e queriam dizer através dele. Mas o tempo dos fantasmas já havia passado e agora era seu tempo, e conhecendo até onde eles haviam ido, ele sabia o caminho a percorrer, esta era sua vantagem sobre outros que queriam se dedicar à literatura.
O corpo falando novamente. Mais uma vez escrevia sobre sexo. Invariavelmente seus textos falavam desse assunto. Ninfetas que eriçavam os pêlos só por serem tocadas, mulheres mais velhas e seus problemas sexuais, suas traições, tudo narrado em uma prosa canhestra que podia muito bem ter sido escrita por um mau escritor do século XIX. Adjetivos exóticos, afetação, hipérboles sem sentido. ELES. Todos eles cochichando ao mesmo tempo em seus ouvidos. Estavam mortos e agora só pensavam na carne que deixaram para trás, sentiam falta e queriam dizer isto através dele.
Obviamente ele próprio não enxergava isso. Uma suspeita, talvez, perdida em algum pesadelo, de que não significava nada, mas nunca admitiria isso para si mesmo. Gostava de andar pelos corredores da universidade colhendo os falsos elogios, sempre sorridente, falador e arrogante. E a ironia, ele era o mestre da ironia, o que lhe garantia muito sucesso entre os jovens alunos e, principalmente, as alunas. Ah! As eternas possibilidades que elas significavam, quanto material novo para suas histórias. Em aula sentia-se como um pavão, as penas levantadas atraindo a atenção para si, deixando que elas brigassem por ele, todas querendo um pouco de sua genialidade.
A cada ano estava mais velho, mas suas amantes tinham sempre a mesma idade. O semestre acabava e vinham outras, iguais, sempre havia alguma para inflar seu ego. Pedantismo a troco de sexo e boas notas.
No início seguiu os concretistas, e, como eles, idolatrou Pound e Eliot, embrenhou-se no mundo da poesia experimental, para depois negar tudo, não podia afundar junto com aquele navio, sabia que era mais do que aquele movimento e depois virou um crítico feroz daqueles que o alimentaram. Aplicou Pound a si mesmo, seria um dos criadores, criador da nova literatura brasileira, estava destinado a redespertar a glória e o orgulho literário do país.
Depois da aula uma das alunas veio até sua mesa, queria falar sobre sua aula, mas, principalmente, queria falar sobre os livros que ele tinha escrito. Ela tinha todos os livros que ele havia publicado e disse ter lido todos.
“Podemos falar sobre isso mais tarde, em casa, se quiser me fazer uma visita…”, disse para ela com o melhor sorriso que pode arranjar.
“Sério?! Claro, sim, eu adoraria, me dê seu endereço, por favor, eu, eu… adoraria.”
Ela o idolatrava. Não via em suas leituras a seqüência monótona de sílabas repetidas mecanicamente, via sabedoria naquelas citações da crítica repetidas por entre sorrisos sarcásticos, via algo que não estava lá, via o que ela queria ver, uma manifestação de uma idealização que ela carregava, ela procurava o poeta, a chama do poeta vivo, queria ser consumida por essa chama, e ele adoraria consumi-la.
A garota desceu do ônibus mais de quarenta minutos antes da hora combinada. Sentou-se em um banco e abriu uma das obras de seu ídolo, queria parecer inteligente, falar as coisas certas, ela tinha ensaiado a tarde toda o que iria dizer, que dúvidas queria tirar, mostrar para ele os pontos que realmente gostava.
Finalmente chegou a hora e ela tocou a campainha radiante. Ele pediu que ela subisse. Estava tão empolgada que assim que atravessou a porta espalhou os livros pela mesa dele, queria saber dele como tinha sido criada aquela poesia, e ele explicava, e recitava, envaidecido, inflamado.
“Gosta de Martinis?”, ele perguntou para ela.
“Não sei, nunca tomei…”
“Ótimo, vou preparar um para você também, é uma bebida clássica, sabia, todo amante de literatura deve saber como preparar um bom Martini…”
Logo estavam falando de seus contos no sofá, ela se sentia estranha, não costumava beber, mas estava tão empolgada, ele falava e falava sobre seus personagens, sobre seu estilo e influência, ela a envolvia com suas palavras doces, e ele ficava cada vez mais excitado com o interesse da moça, e logo entravam em uma de suas histórias, a ninfeta, primeiro envolvida com palavras, agora era envolvida com suas mãos, seu corpo, ele estava em toda parte. Ela percebeu o que ele estava fazendo e tentou empurrá-lo, porém quanto mais ela lutava mais ele vibrava, “Tesão, meu tesão…”, como tinha sido idiota, o poeta entrou por baixo de sua saia e rasgou sua calcinha, ele tirou a camisa, abriu o zíper e estava tudo acabado, em alguns minutos tudo havia morrido, ele não havia cumprido sua promessa, queria a iluminação através de belas palavras de amos, queria ser consumida em suas palavras e renascer inundada de poesia, porém ele a inundou com sua podridão.
Quando ele terminou, ela ficou olhando o teto, tentando não chorar, tentando não olhar para aquela ser que com uma enorme barriga peluda, aquele homem nojento que se levantava para abotoar a camisa. Ele sentiu que ela estava desconfortável e se levantou para ir ao banheiro, depois foi à cozinha demorando o máximo que podia para não ter que vê-la novamente. Esperou até que ouviu a porta de seu apartamento se fechar.
Quando voltou à sala, para seu alívio ela não estava mais lá. Estavam apenas os livros de sua autoria que ela havia trazido, empilhados em cima de sua mesa. Mas não havia sinal da calcinha rasgada, por algum motivo ele sentiu vontade de guardar aquilo como um troféu. Ele pensou na moça de uma forma abstrata, no que todas elas representavam para ele, pensou nas convicções que os jovens possuem e lembrou-se de suas próprias convicções aos dezoito anos, suas enormes convicções que alcançavam o céu e de como ele tinha a sensação que vivia acima delas e de lá podia olhar para baixo, protegido de tudo e de todos, mas não era mais assim que ele se sentia, agora ele sentia como se elas tivessem mudado em uma caverna profunda e escura, na qual ele se esconde, com medo da verdade do mundo. Ele havia destruído as convicções de alguém e a havia lançado no vazio, no dia seguinte ele a veria na sala de aula, os olhos vermelhos por ter chorado a noite toda, mas não tinha pena dela, e não teria nem mesmo quando, no futura, notasse que ela desapareceu das aulas, do curso, foi ela quem veio até ele, ela quis aquilo, ela queria despencar de seu mundo de sonhos, ela quis perder suas convicções, que estavam longe de ser grandiosas como as dele.
Ele voltou à mesa de trabalho e invocou todo seu conhecimento, sua sabedoria, poesia e exotismo, ainda podia amar no papel, mas por um momento sentiu que um vácuo tomava conta dele, mas ele ainda podia invocar os cargos e títulos que obteve em sua vida, a política que fez para subir na universidade, relembrou tudo em que ele havia se destacado para preencher aquilo espaço, provar para si mesmo que sua vida não era em vão, que havia algum sentido. Aos poucos o sorriso irônico voltou, mas cada dia ficava mais difícil se convencer, se enganar completamente, tornava-se um velho, e seus fantasmas não o deixavam, e ele despencava no vazio e na escuridão, lentamente ele despencava no esquecimento…
Ele ouviu a porta se fechar. Sentiu um alívio. Agora, sozinho, sentou-se à mesa de trabalho, invocou todo seu conhecimento, sua sabedoria, poesia e exotismo, queria amar no papel, mas em vão. Começou a sentir o vazio, então, invocou todos os cargos que já ocupou, seus títulos, a política, tudo em que ele havia se destacado para tentar apagar aquilo, provar para si mesmo que havia algum sentido em sua vida. O sorriso voltou, porém, não podia mais se enganar completamente, tornava-se um velho, e despencava rumo ao vazio, ao esquecimento…
Marco A. Domingues mora atualmente em Campinas. Passou quase uma década tentando entender a produção humana através do que chamou de livre discência, estudando Química, Física, Matemática, Filosofia, Lingüística e Letras, se formando no último. É principalmente um leitor, mas se arrisca na ficção de vez em quando. Mantém um blog.




