Cataplexia


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Ana Claudia Calomeni

Sento no sofá e espero.

O chão range, um tremor percorre meus pés, sobe até os ombros.

Os móveis, simetricamente dispostos ao longo da sala, são limpos e claros. As mesinhas de madeira, idênticas, estão encostadas ao lado do sofá branco, sobre o qual se esparrama o pano estampado de um azul perpétuo, combinando com os tons da cortina. Os abajures acesos descansam silenciosos sobre as mesas, fazendo desenhos triangulares nas paredes. Os quadros estão corretamente posicionados. Aquela paisagem quieta me embala, é como um navio singrando sempre à mesma velocidade um mar de águas paradas.

Meus olhos começam a pesar, mas um gosto de terra invade a minha garganta, aperta o meu peito e me suspende a respiração. Me levanto em busca de ar. Espero alguns segundos até meu corpo se acostumar à nova posição, o que demora mais tempo do que eu estou disposto a esperar. Tento um primeiro passo. Fico tonto. Estanco. É como se o chão a qualquer momento pudesse se abrir para um céu sem estrelas. Estou de pé, parado, imerso no meio daquela sala muda. Até este momento, os móveis, os quadros, o silêncio, até então tudo isto era meu. Olho em volta. Os quadros encenam histórias sem sentido, os móveis me denunciam, os abajures me acusam, mas eu não sei de quê sou culpado. Consigo finalmente dar um primeiro passo. O chão range profundo. Tenho a sensação de estar tentando caminhar sobre um ser recém-despertado de seu sono milenar. Estou de pé, equilibrando-me sobre algo que desconheço, quando avisto no canto oposto da sala um pequeno risco, uma rachadura surgindo lenta e firme por baixo da porta da cozinha. Dou um passo naquela direção, mas a determinação com que a fenda avança me faz parar. E tudo fica calmo novamente.

É o silêncio quem dita as regras, ele é o imperador deste tempo suspenso. Quanto a mim, não passo de um preso sem cordas. Aqui dentro jaz a eternidade, até que uma lufada forte de vento invade a sala, derruba o pano azul do sofá e o arrasta para o interior da fenda, que começa a se alargar no canto oposto do cômodo. Seguro o pano com os dedos dos pés, mas algo o puxa com força e eu cedo.

A casa começa a ruir. Os quadros soltam-se das paredes e, um a um, são tragados pelo solo. O sofá é arrastado; os abajures, derrubados de cima das mesas. Paro novamente com a intenção de interromper o movimento, embora saiba estar me condenando a ficar ali para sempre. Inútil. Novo ranger de chão, novo desequilíbrio. Tento gritar, mas não consigo. Sou arremessado contra a porta de saída. Daqui, bastaria abri-la e sair, mas algo me impede de fazê-lo. Olho através da janela da sala e vejo a noite se anunciando. Duas mulheres atravessam a ponte e crianças brincam no lago que se forma ali naquela época do ano. Eu nunca havia reparado o vigor com que ele reflete o céu crepuscular. Um homem corre em direção a casa. Suas mãos estão espalmadas ao lado das orelhas, seu corpo está submerso num ar de ondas invisíveis, sua boca desiste, mas percebe-se que seus olhos gritam. Abro a porta da casa, corro na direção dele, nossos olhares se misturam, mas não consigo impedi-lo de seguir caminho. Na verdade, sequer tento fazê-lo. Passo pelo homem, pela ponte, pelas mulheres, pelas crianças, pelo lago.

O barulho da casa desabando, do crepúsculo, da alegria das crianças, do pensamento das mulheres, do vigor do lago, do grito no olhar do homem, tudo é insuportável. Estou esgotado. Sem fôlego. Sem parar de correr, olho para trás. O crepúsculo, as crianças, as mulheres, o lago, tudo parece igual. Com exceção da casa ruindo e do homem parado, deixando-se tragar pela fenda que se abre no chão onde estão seus pés.

Ana Claudia Calomeni é carioca, formada em Jornalismo. Tem contos publicados nos sites Releituras, Bestiário e O Caixote. Recebeu menção honrosa no 11º Concurso de Contos Paulo Leminski pelo conto “Por um fio de sangue”, publicado na antologia Total, organizada pelo poeta Cairo Trindade.

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4 comentários  


  1. QUE MARAVILHA !!!! me vi diante de um pintura do munch… é sempre bom te ler ana claudia, cade esse pessoal que ainda não imprimiram essa moça???

    ed - 18/05/08
  2. Nossa!!!! Fantástico e surpreendente….meu coração disparou,falando sério…lindo!!! Parabéns! Beijos

    Jocélia - 18/05/08
  3. Lindo, Nacrau! VC escreve pa carai!!! O Ed tá certo, esse conto tem a força do Grito de Munch!! parabéns!!! Beijão! Paula

    Paula Nogueira - 18/05/08
  4. Um “conto” nos peitos. Como sempre me deixam estupefata na primeira leitura e depois doida pra voltar garimpando!
    Bêjenorme e parabéns, ANuska!

    Luciana - 27/05/08


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