As partes de um suicídio
Raimundo Neto
Destemperada, desceu ao inferno. Com o tempo preso na garganta, ela deu o primeiro passo, vomitando um rosário, que só usava para marcar páginas do mesmo livro. Um quarto de si para fora. Engolira o objeto para abençoar as vísceras doentes, que acabavam de morrer, infeccionadas. Ela não morrera do engasgo.
O elevador do subsolo aportou; abriu a boca calculada e convidou-a para a descida. Ir profundamente. Saltou aos olhos a coragem. Era outra possibilidade, sentir o fogo lamber-lhe a vida. Espaço suficiente para abarcar todos os seus desgastes. Ele, feito de metal contemporâneo, com destino a algum inferno. Melhor que o dela. Lá não tem café; é piche, asfalta o destino de qualquer humano, alarga as vias, amplia o horizonte; torna a respiração difícil, a visão da distância. O inferno é um conteúdo imenso. Cabe dentro de um homem.
Para comprar comida é preciso engolir sapos, grandes, sem vomitar; cultivar sapos para digeri-los mais tarde; com ironia, se possível. Lá embaixo, no Subsolo, as portas se abrem e todos os homens exibem um cigarro. Logo agora que ela parou de fumar, e comer. Os pensamentos são rápidos e saem em fumaça; na ponta do cigarro, olhos; na ponta da língua, cortesia. A palavra final é do diabo: “Orgulha-me saber que desistiu!”. Ele não fuma. “Faz mal à saúde.”
Não percebeu: perdeu alguns pedaços seus à medida que caminhava. Não percebeu: tinha restos de um espelho cravados nos pulsos. Não percebeu: ela estava viva?
E no inferno.
Não há fogo. Lá as coisas dependem de sua vontade divertida. As flores são cinza; o que é dourado é a raiz. Para colori-las se paga um preço: “Não sentirá mais fome.” Não é preciso arrancar a própria língua; a censura vem de dentro. Uma vez no inferno, o sangue é do diabo. B-Negativo serve? Sirva-se. Entregue-se, sem justificativas. Espere pelo pior. As mordidas vêm de dentro; se o fogo acontecer, combustão espontânea, sem timidez. Deixe-se explodir, seus pedaços grudados em outros homens e mulheres. Homens de um lado, mulheres do outro. Perdidos e explodidos. O diabo coleciona pulsos, arrancados a cacos de espelho — duplicam o desespero, refletem o pior.
Antes do primeiro passo, pés descalços, calor dos diabos, entrega-se o coração. Nada de amor pelas bandas de Lá. Abre-se a roupa do tronco, espera-se as forças se reunirem, e uma mão de homem, incômoda, perfurar-lhe o umbigo e arranca qualquer possibilidade de satisfação. O vazio estabelecido; e então o coração desmorona, lei da gravidade vale no inferno; já desce a pleno fogo branco, sem fumaça, nenhum pensamento. Não dói estar morto. O que dói é ser bem recebido.
Qualquer pessoa, sem coração ou vísceras, consegue planejar fuga. É que as cores de lá têm sabor. Não dá para explicar. Seu vazio começa a fazer sentido. Seus pulsos expostos, seu interior queimando, e as perguntas acontecendo como coceiras. “Eu escolhi isso?”
É possível ouvir, nitidamente, todos os seus amigos. Eles não choram. Vestem branco e quase esqueceram o bom-humor. As palavras dedicadas foram encolhendo com o tempo. E finalmente a decifraram. “Ela escolheu o inferno.”
Ela não gritava. Nem pensava. Sua língua já era parte das flores da lapela do Dono de Lá.
Ela não tinha pulsos, nem língua, não tinha vísceras ou coração. Já explodira uma vez. Poderia explodir de novo. Qualquer um viraria consciência indecifrável no inferno. Ninguém morre com vinte e poucos anos. Ninguém morre por poucas escolhas. Quem explode com tanta paciência?
Árvores-anãs, partes gigantes de um mistério.
Fogo branco, milhões de corações despejados na entrada do inferno: ingresso.
E o céu é conhecido. O céu é inverso, inventado pelas consciências que lá abrigam. Todos mortos e ninguém sobe. Não há escolha ou salvação. Todos deixaram de ser homens e mulheres; as portas se confundem. Vez ou outra, parte ou outra, ela perde o controle e tenta subir nas árvores-anãs para avistar a melhor saída. Desiste logo: olhos já fazem parte das jóias do Dono: janela da alma, menina-virgem-dos-olhos prontas para o sacrifício: vislumbrar a salvação.
É permitido, apenas uma vez, escolher seu melhor pedaço: olhos azuis, orelhas bem feitas, pernas firmes, cérebro, sobrancelha, tronco, braço ou perna. A escolher certa é pela utilidade. O que se precisa mais no inferno? Porém, cuidado: não olhe nos olhos, não ouça os encantos entoados, não ceda aos cumprimentos, não dê as costas, não fuja, não queime, não aplauda, jamais cruze os braços, nunca relaxe as pernas, não se excite, não borre as calças, não estale as juntas, não mova a consciência para fora de Lá. A segunda morte á sempre a pior: indescritível.
Por isso, pense bem antes de morrer.
Raimundo Neto, 24 anos. Estudante e Funcionário Público Temporário. Publica contos em seu blog. Faz Psicologia no Piauí, mas vive com a cabeça na Literatura do mundo todo. Não tem livros publicados, não participa de concursos literários e tem medo de elogios. Queria publicar seus contos numa antologia, um romance, e ter uma fotografia na orelha de O livro da minha vida.





Neto, você é um excelente escritor acredite no seu potencial e continue a escrever.
Um beijo de sua admiradora secreta.
ELIANE
Netooo, sem comentario pra esse teu conto, aliás, para todos!!!

Parabéns!!!!
Ah, com certeza, depois disso, vou pensar duas vezes antes de morrer!
=****
Texto excelente. Está repetindo aqui na revista o sucesso do blog! Parabéns!