Romance
Elton Pinheiro
2
Os ombros, como se duas espadas de mágico de circo estivessem fincadas para baixo, dentro das costas. São invisíveis, nem aceno nem sorriso. Passam despercebidas, às vezes de mim mesmo, vestindo a camisa em frente ao espelho.
1
Estou pronto para ir. As entradas dessas ruas são relativamente conhecidas, olho para elas, cabelo penteado para trás. É uma segunda-feira de chuva, nesses dias estou mais disposto, existe um aconchego gostoso, sonoro. O terno preto é bem cortado e me sinto ótimo. Na verdade, esperei por isto durante anos.
3
Escuto o caminhão de lixo, homens que gritam. A rádio tocava Bossa Nova, e agora anuncia uma Tropicália. Bebo o café preto olhando o cabelo penteado molhar para trás até escorrer pouco; reconheço meu rosto, procuro nele uma vastidão de histórias tão irreais quanto o não-imaginário. Pelas entradas de uma estrada erigida escrevo crônicas para jornais; viajo o mundo como diplomata; bebo a noite de Madri; ando em Manhattan dentro de um livro de Paul Auster. Vôo para um Rio de Janeiro aquém de mim.
4
Domador de leões lendários. As estátuas imaginárias, mas de pedra, ganhando vida como outrora as da Cinelândia polifônica em frente à Biblioteca Nacional. É meu quarto. Ao emudecerem meu texto no Amarelinho, prevaleciam déspotas e dissidentes fazendo desenhos vermelhos, vestindo musas histéricas com bandeiras esquecidas numa alada passeata; músicas que perderam o cheiro do café descendo pela garganta. Reconheço meu rosto: seguro, com uma xícara de porcelana branca na mão esquerda. Minha alma vem de fora na poesia de um salmo denunciando a lenta anunciação de um delírio geral, descortinado como se por um contra-regra na leitura vespertina. Vejo, estou pronto. Não há como cegar, nem por quê. Fecho o espelho e desapareço.
7
Vejo o tempo que fecha um cenário perdido no horizonte chumbo. As mulheres orientais continuam seu trabalho, balançam a perna cruzada em cima da outra. Como se contassem o tempo lembram uma antiga namorada que tinha essa mania, balançava a perna lentamente quando estava sentada dentro de ambientes formais. As estátuas da Cinelândia, que antes andavam comigo em meu apartamento, sendo que agora já eram leões de plástico transformados nelas mesmas também lentamente, juntam-se a essa namorada distante e as orientais que parecem imitá-la. Todos começam a concatenar a idiotice de um baile sem máscaras que tenta imitar o salão de um sobrado no centro do Rio de Janeiro, onde posso almoçar no ambiente sedutor da dança de salão; Rua 7 de Setembro.
5
Dias de chuva são ótimos, para mim. Pela janela do carro que me leva ao aeroporto, lanço pensamentos para a água. Eles molham discretos, sem som, por dentro do pecado. Penso lentamente e com certo gosto naquelas bolinhas ligadas umas às outras que as mulheres orientais usam para uma masturbação controlada, quase pudica. Olho o asfalto correndo, a água caindo. Sinto-me seco, deserto que devora letras, palavras. Mas tudo sem som, agoniza numa forma de romance sem amor ao cotidiano inodoro, sem gosto, licor. É um mar de sargaço misturando várias crônicas cotidianas. Elas aparecem, desaparecendo logo depois, num comentário breve, com muitas vírgulas. Existem atribuições, alusões, rimas, clichês. Uma fome comercial faz delas uma declaração sem título para a média cansada de um povo que assiste discursos, protestos, canções. Eles, acreditados por si mesmos, procuram uma justiça coloquial, gritam o nome do seu homem preferido diante de Pilatos. Ouço o tumulto bronco que procura mestres e líderes, acredita que faz o bem angariando novos lutadores para usarem esses em mesmas fardas do outro lado da mesma luta.
9
No aeroporto me iludem dizendo que o avião chegará em quarenta minutos. Mas ele demorará bem mais que isso, terei tempo para comprar uma Bravo! e tentar ler, enquanto aquela senhora, usando o tailler vermelho que ficaria ótimo em sua filha caçula, me perguntará coisas sobre o tempo; o Sr. acha que vai melhorar? Depois de uns minutos, pernas cruzadas contra ela, conversando e olhando a Ninfa ao seu lado, digo: olha, o avião está caindo… e aponto pro avião de papel que um menino fez e jogou no ar voltando direto com a ponta para a bunda de uma mulher, saia bonita colorida sem contar os anos, que assim não doem. O tailler enrubesce de vermelho o rosto gorducho ao meu lado, olho seus olhos estarrecerem até jogarem para os céus um olhar confuso ao procurar o que estou olhando e encontrarem o aviãozinho de papel que o menino fez decolar voltando do teto num mergulho descendente para cravar no glúteo da mulher uma espetada final. Sorrio para ela, que ri da mulher. Todas elas se odeiam, penso. Observo as contorções sem emoção no rosto da moça ao lado da mãe, enquanto num desdém pelo avião do menino, olha meu isqueiro prata descansado num movimento de mãos, pergunta se tenho fogo empunhando um cigarro forte; o maço escarlate iludindo sua boca. Escrevo que Andréa trabalha numa pousada de outra crônica. Mas agora não sei se ela está almoçando no centro do Rio, dentro de um sobrado na Rua 7 de Setembro. O tempo escapa por uma literatura livre, sem obedecer aos rigores da sala de espera, no aeroporto de Goiabeiras.
11
O menino continua a fazer decolar o avião branco, que vem parar perto do meu pé, o piloto correndo para salvar o vôo. Pergunto qual é a companhia, se aquele avião pode me levar a algum lugar. Está lotado! É o que escuto. Bem mais sincero que todos os comissários de bordo. Você deve largar a aviação, digo a ele. Assim não dá pra seguir carreira. Ele corre pela sala ampla, ante-sala de outra, que é outra e secretamente finita enquanto ele é outro e não sabe. Desenhei em seu bólido de papel as iniciais de seu nome e uma Companhia de mentira capaz de atravessar toda a sala sem saber que ela é uma matemática finita de Cantor. Escrevo equações, distraindo uma folha branca de meu caderno de notas, vagando acima da edição da revista que agora já não me interessa. Escrevo essas equações, que não têm destino desconhecido e para as quais restará sempre um zero no final, previsto desde antes dos tempos do ginásio. A sala espera; pura, matemática, quase silenciada. Sua forma eqüilátera contrai pensamentos comportados sem máculas aparentes e desafiam na forma de um romance a estória que se escreve sozinha antes de nossa partida. Estou pronto para ir. Volta a senhora gordinha. Ela e a filha: moça de vinte quatro anos, usando vestido indecente. Mas não tem nada a ver com mulheres orientais que se bolinam sem consciência nem perda de tempo no trabalho. Não, ao contrário delas, a moça é lânguida e vespertina, acaricia um gato imaginário no colo enquanto afofa a bolsa em cima das pernas, cruzadas como as pernas orientais, mas com um pequeno desleixo branco apontando o firmamento. Leitora de livros suspeitos, sua beleza é a graça terrorista dos trópicos essenciais aos escritores prontos para a viagem. Estamos tomados por um calor insuportável, mesmo no inverno desse ar condicionado perpétuo ele exala de nós, como nós desta sala e como a sala do menino e o menino do avião que ele julga exilar por um sonho original.
8
Vejo que Andréa está lá, Rua 7 de Setembro. Leio jornais numa mesa próxima. A hora do almoço rememora sorrisos, lástimas, vendavais e cidades. Essas ilusões são vastas metades ou partes de uma outra que não chega a ser escrita porque estou apenas indo de carro para o aeroporto, pensando em construir um texto ameno. Mas as amenidades, que me fogem como um atleta de cem metros olímpicos, por serem risonhas, acabam levando ao corredor imenso da casa em que cresci. O barro vermelho jogado no canto das ruas cortadas pelos carros às vezes remexe algumas ondas, o trânsito pára, os sinais são muitos e os motoristas compraram suas carteiras aceitando um negócio oferecido por instrutores de Auto Escola. Vejo Andréa, que almoça sozinha em sua mesa. A música traz ao ambiente um bailado. Sussurros e palavras bonitas, sensíveis numa sala de espera que abra para sempre outra sem jamais tocar sua pintura, móveis e corpo; antes de qualquer sonho, palavras que tentam não amar, mas são o fruto ou o significado delas mesmas. Uma montagem indiscreta de um significante delicioso.
10
Estraçalho um texto de anúncio, logo ali na frente. Saio da sala depois de convencer o guarda azul uniformizado, ando em frente à joalheria, perambulo sem remédio. A senhora gordinha anda também e quando passa por mim, cumprimenta. Parece que saiu de uma crônica de Fernando Sabino. Sem talento para descrevê-la, desisto de me atirar para dentro da joalheria e conversar com a moça que vende relógios, que parece sua filha, que por sua vez agora acho que é Andréa, personagem de outro texto, tão crônico quanto este. Escrevo parágrafos inteiros, conto palavras. É imperfeição em cima de imperfeição, um coito. Voltam as mulheres orientais, masturbadoras secretas invioladas pela moral de antigos Samurais, hoje gurus da auto-ajuda convertida ao mundo da administração. Elas lembram esses Blogs de mulheres metropolitanas as quais editam banners com a foto de uma genitália aparada nas laterais e acima dela a frase: Nós nos masturbamos, e você? Essas mulheres, orientais ou não, nesse ocidente capitalista e liberado, muito além da revolução existencial que sempre as traria ao mesmo ponto de partida, hoje pretendem ser dançarinas de Baco.
12
Sinto que meus ombros voltam a doer num movimento silencioso, pestilento. Tenho a certeza de que existem mesmo duas espadas de mágico de circo enterradas para baixo, como fossem ao encontro dos rins e até me suspendessem, marionete de pernas libertas do chão num suposto passeio de parapente; quem sabe no avião de papel de vôo lotado, então no lugar de seu trem de pouso que não existe. Que mágico é esse, que traz as espadas que não são plástico, nem aço, nem pesadelo, nem realidade? E por que o mágico teria espadas a não ser para fazer suspeitas chacinas em moças que se deitam seminuas, reparti-las para o grande público de homens depravados em cidades moralistas, viúvas e sem tristeza? Lancinado pelo espetáculo circense que começa a me aparecer no cenho enrugado, levanto vôo pendurado por essas duas espadas que entraram pelos meus ombros e foram até as tripas; minhas pernas estão mexendo, não sinto dor e uma anestesia toma conta de mim. Vôo por cima da sala de espera, onde estão a senhora gordinha e sua filha gostosa, o menino que arrisca o avião de papel ao ar, os passageiros sentados esperando outro, a senhora de quarenta anos que recebeu uma lembrança na bunda antes de contemplar papel e aviador; o próprio avião que sobrevoa a todos e passa num rasante perto do meu rosto quando o menino, de lá de baixo, arremete seu sonho para cima.
Elton Pinheiro foi contemplado no Edital 2006, que selecionou obras literárias inéditas de autores residentes no Espírito Santo, com o livro de poemas Orações com vícios de linguagem, e indicado ao Prêmio Taru 2007. Compositor e músico, poeta e escritor, publica em seu blog polifOnia.




