Rio/ Buenos Aires / Rio
Luís Eduardo Neves
Anoitece mais uma vez. Curvo-me sobre a máquina de escrever e, antes mesmo de completar este primeiro parágrafo, já me doem as costas. É que não sou mais jovem, ou melhor, já sou velho. E mais: vivo nostálgico de algo que não chegou a acontecer. Mas vou em frente para relatar esta experiência, a única que me ocorre numa vida de rotinas.
Passo o olhar por este decrépito quarto de pensão para detê-lo num móvel que me acompanha desde a juventude: a minha eletrola.
Sei que hoje poucos conhecem uma eletrola de válvulas, mas não há aparelho mais fiel para reproduzir a pungência dos tangos, principalmente aquela contida nos sulcos dos velhos discos de 78 rotações.
Agora batem à porta. Estendo a toalha sobre a máquina de escrever como quem esconde uma amante sob os lençóis, ou melhor, como quem cerra a cortina de um confessionário. Inútil. É o garçom, apressado por servir o jantar e assumir seu posto em alguma boate da vizinhança.
Antigamente eu ia a dancings, onde a música era suave e o ambiente propiciava confidências. Com palavras sussurradas e cubas-libres tinha-se a ilusão da conquista… Mas acabaram-se os dancings e, com eles, os abajures e os tangos. O som das boates de hoje é tão intenso que percorre as ruas, escala as fachadas e chega ao meu quarto.
Já pensei em deixar a Lapa, onde sempre morei, mas faltou-me ânimo. Há quem me considere sovina, quem diga que devo alugar um apartamento. De fato, eu poderia até comprar um, já que gastei na vida bem pouco do não-muito que ganhava, mas confesso que gosto de pensões.
Enquanto sorvo minha sopa observo as pessoas e identifico os solteiros que, como eu, permanecerão fiéis a este modo de morar. Os que falam muito, os que vestem jeans, estes certamente não ficarão por muito tempo.
Já perdi a conta das pensões em que morei. Algumas foram demolidas antes que desmoronassem, outras transformaram-se em hotéis de encontro. Uma delas pegou fogo sem que o meu quarto fosse atingido, feliz ou infelizmente. Depois do rescaldo, lembro-me de ter oferecido a um dos bombeiros um disco, que ele poderia escolher da coleção. Folheou os álbuns em que guardo os de 78 rotações e estranhou o peso dos mesmos. Depois, fitou-me inquisitivamente e não quis levar nenhum. Acho que não gostava de tangos…
Olho agora para os livros, lidos e relidos, que se acumularam a um canto do quarto…
Eram os romances passados na Buenos Aires dos anos quarenta que me cativavam. Enquanto os amores de hoje, portenhos ou não, terminam em divórcio, aqueles de antigamente se arrastavam hasta la muerte, como doenças incuráveis. Os cenários eram iluminados por um abajur invariavelmente lilás e os personagens se moviam embalados por tangos; quase não comiam e embriagavam-se com facilidade; falavam pouco mas sentiam muito; eram desencantados e sarcásticos; passavam do amor ao ódio num virar de página.
Foi Magdalena — sim, com g — quem me iniciou naquela literatura e na arte de ouvir tangos. Ela era dona de um bordel e eu, aos dezessete anos, empreguei-me como trocador de discos na eletrola da casa. É claro que o termo ainda não existia, mas foi esta a minha primeira profissão: disc-jockey de bordel.
Magdalena era argentina e, mais do que patroa, foi minha protetora e amiga. Cedeu-me um quartinho sob a escada e ensinou-me espanhol. Queria que eu estudasse contabilidade para um dia deixar aquele ambiente. Sim: ela escolheu para mim esta profissão, não sei por quê. Matriculou-me num curso que funcionava ao lado e arranjou o emprego na firma onde passei a vida. Eu a visitava e lhe falava de meus progressos até ela decidir vender o “negócio”, voltar para a sua terra e deixar-me os seus livros, os discos e a eletrola.
Aquela foi a única surpresa que a vida havia de reservar-me, pelo menos a única boa surpresa de que me lembro. Daí a aumentar minha coleção de discos e envelhecer… foi um átimo.
Passo meses, anos até, sem lembrar-me de Magdalena, e devo à coragem de escrever estas linhas a oportunidade de render-lhe tributo. Com isso, puxo aquilo que chamam de fio-condutor da vida, no meu caso um fio mais tênue do que o produzido pelas aranhas para tecer suas teias no meu quarto.
Sonhos? Tenho pena de quem os teve no plural… Bastou-me o que tive: conhecer Buenos Aires e lá viver. Mas antes de descrever a minha viagem devo resumir uma história que escrevi há muitos anos, essencial para que se entenda a minha decepção.
Passava-se lá, é claro, e envolvia um casal que obviamente morava numa pensão. O homem era cantor de tangos e a mulher, ex-prostituta. Não tinham filhos. Um dia ela se deixou envolver pelo rapaz que morava no quarto ao lado, estudante conflitado ao qual ela oferecia frutas e alfajores, mas o moço acabou por servir-se também da benfeitora, num arrebatamento que ela inocentemente atribuía a uma carência de amor materno.
Deu-se, porém, que ele se apaixonou por ela e a proibiu de chamá-lo de hijo mío, o que a impedia de exercitar seu pendor maternal frustrado. Ela, coitada, não correspondia àquele amor quase pueril, já que era apaixonada pelo cantor, mas não rompia a perigosa ligação para não ferir o jovem. Patético, não?
Páginas e páginas foram gastas para descrever a tortura da mulher, obrigada a fingir prazeres que não sentia e a ocultar que só amava o estudante como una madre ama a su hijo, até o dia, ou melhor, a noite em que o cantor chegou à pensão mais cedo devido a uma súbita rouquidão.
Ao escutar os passos dele na escada o jovem entra em pânico, abre a janela e salta. La mujer assoma à janela e reprime pela última vez o grito Hijo mío! Apanha suas roupas mas o marido a surpreende, nua, no corredor. Vai ao quarto do jovem, depara com a janela aberta e já não se espanta ao ver o corpo esquálido sobre a marquise, três andares abaixo.
Com o ímpeto de que só é capaz um cantor de tangos ferido, ele arranca os lençóis com os quais a mulher, já deitada na cama do casal, tenta cobrir sua vergonha e sua nudez iluminadas pela luz lilás que vem do abajur.
A rua está deserta e, na pensão, todos dormem. Sorrateiro, ele sai e faz muito mais do que interpretar o tango Esta Noche Me Emborracho: embriaga-se no bar mais sórdido que encontra e só retorna ao alvorecer. Dramático, não?
O corpo já fora recolhido. No quarto, encontrou a mulher nua, na mesma posição em que a deixara. Receou (ou desejou?) que ela tivesse tomado veneno. Trôpego, despiu-se, deitou-se sobre a mulher e possuiu-a brutalmente. Depois virou-se de lado e dormiu o sono agitado dos ébrios. Ao acordar-se fez as malas e instalou-se numa pensão do outro lado da cidade. Sempre uma pensão…
Abandonada, a mulher fala vagamente de uma tournée do marido no Uruguai; só abre a porta para receber as refeições mas os pratos voltam cada vez menos tocados. Definha.
No último dia do mês o cantor retorna e, sem maiores explicações, paga a mensalidade ao dono da pensão. Sobe a escada e bate à porta do quarto. La mujer veste um négligé que revela o quanto emagreceu. Ele fecha as cortinas, despe-se e a arrasta para a cama. Sem palavras nem preâmbulos, sacia seu ódio ou sua paixão sem que ela tome conhecimento do que se trata.
Ato contínuo, veste-se e, antes de partir, deposita sobre a mesa duas miseráveis notas de dez pesos. Sem se voltar para a mulher, que soluça, ele deixa o quarto para só retornar um mês depois, no último dia do mês…
Pobre mulher, presa entre quatro as paredes de um quarto de pensão, temerosa de acercar-se da janela e rever, sobre a marquise, o corpo nu do filho-amante. Seus olhos vagueiam até se deter num calendário que mede a espera do último dia do mês para receber o insulto do uso do seu corpo e o pagamento reservado à prostituta mais rampeira do cais de Buenos Aires. Trágico, não?
A cena haveria de repetir-se indefinidamente se a infeliz não tivesse morrido meses depois. O dono da pensão desconfiava que a partida do cantor e a morte da mulher tinham algo a ver com o suicídio do jovem, mas jamais teceu um comentário nem fez perguntas. Discretos, os donos de pensão daquele tempo…
De volta do enterro, o cantor convidou-o para um trago e, emocionado, contou-lhe a história que julgava completa mas que não passava da metade, já que a mulher levara para o túmulo os seus segredos: a fidelidade de uma mãe para com seu filho adotivo e uma infidelidade conjugal que, a rigor, jamais praticara.
Ao concluir a novela pus-me a imaginar quem poderia lê-la, por ter sido escrita num espanhol pouco correto. Eu não tinha um amigo que, como eu, apreciasse histórias portenhas. Aliás, eu não tinha amigo algum. Passei dias a burilar a novela, na tentativa de dar mais dramaticidade aos gestos e penumbra às cenas. Acabei por rasgar aqueles manuscritos e esperar pela aposentadoria para realizar o sonho de viver em Buenos Aires meus últimos anos.
Metódico, paguei um mês adiantado para a dona da pensão e pedi-lhe que deixasse o meu quarto reservado. Se eu não voltasse naquele prazo, ela devia remover para o sótão minha eletrola, meus discos e livros, e alugar o quarto para outro. Ao comprar uma passagem de avião só de ida, lastimei não poder fazer a viagem de trem ou navio, como faziam os personagens dos livros de antigamente.
Fui alertado para o frio do sul no mês de julho, mas eu não o temia. Ao contrário, era justamente o que desejava, por só imaginar uma Buenos Aires gélida e envolta em nevoeiro. Numa casa de roupas usadas consegui o sobretudo preto que julgava adequado. Recusei, é claro, a oferta de city-tours com guia: eu não seria um mero turista. Sabia de cor o mapa da cidade e tinha bem claro na mente os caminhos ventosos que levam ao Bairro da Boca assim como ao hipódromo de Palermo, onde deve ter-se desenrolado o drama do tango Por una Cabeza, um dos meus favoritos.
O frio e a garoa, porém, foram as únicas coisas desejadas que lá encontrei. Cheguei às dez da noite e pedi ao chofer do táxi que me levasse a uma pensão. Ríspido, ele disse não saber de pensões e conduziu-me a um hotel. Deixei as malas no quarto sem desfazê-las e precipitei-me para a rua em busca de um cabaré.
Que ilusão! Só havia “casas de tangos”. Entrei numa, apinhada de turistas buliçosos, insensíveis. Pior, porém, foi o espetáculo: o piano não passava de um teclado eletrônico e o bandonión não chorava. O cantor mais parecia um cantor de rock e, pior, não demonstrava ter vivido um drama como aquele do meu personagem.
Depois de três números levantei-me para recolher o meu sobretudo preto, aliás o único em meio às jaquetas coloridas dos turistas, para os quais tanto fazia aquele cantor como um Gardel. Saí desacorçoado mas um resto de ânimo levou-me a percorrer a Calle Corrientes em busca do nº 348 entoando baixinho A Media Luz, o tango que cultuou aquela rua. Lá estavam o 302, o 314, o 330… Aí fechei os olhos a acelerei o passo, por medo de que o tres-quatro-ocho não mais existisse ou sequer tivesse existido. Convenci-me, finalmente, da insensatez de tentar viver uma fantasia.
No dia seguinte tomei o avião de volta. Do alto pude observar aquele Rio da Prata em cujas águas, cinzentas e geladas, tantos amantes desesperados deviam ter-se afogado. Depois fiz uma reflexão sobre a minha vida, o que pouco tempo consumiu porque pouco havia a recordar. Jamais me apaixonei nem fui abandonado, contente com sentimentos alheios e emoções fictícias. Tive também uma súbita consciência de que a minha novela, além de nada acrescentar à literatura, não encontraria leitor hoje em dia.
A aeromoça que servia o almoço reconheceu-me e quis saber por que eu já estava de volta. Pensei em contar-lhe os dois dramas — o do cantor traído e o meu próprio — mas decidi ser mais conciso:
— Acho que cheguei atrasado…
Luís Eduardo Neves. Natural de Porto Alegre, 69 anos, seu primeiro trabalho, ainda no tempo do curso secundário, foi como revisor do Correio do Povo, na época o maior jornal do Rio Grande do Sul. Formado em Geologia, trabalhou na Petrobrás de 1961 e 1990, período que inclui quatro anos na Argélia e no Iraque. Aposentado, passou a escrever contos, tendo publicado os primeiros no livro A Comédia Urbana (1992). Como tem sido bem classificado em concursos da Fundação PETROS, decidiu publicar agora três livros de contos (Lúgubres, Lúdicos e Conjugais) e uma novela de 110 páginas (Rio/Paris, Ida e Volta). Reside no Rio e tem como hobbies as corridas de cavalos e o desenho de móveis, além do óbvio binômio leitura-e-escrita.




