Onde está o morto?


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Walmor Santos

Das histórias que vivi como detetive particular ou das que enfrentei em minha atribulada vivência nenhuma foi tão estranha e inverossímil e ao mesmo tempo de tão fácil solução quanto esta. Se fosse criá-la como história, o absurdo a faria incrível. Você, leitor atento e desconfiado, responda-me: Quantos absurdos já lhe aconteceram no cotidiano? Creio, pois, ter a sua concordância de que o absurdo faz parte da vida. Porém, acredito que concordamos que o mesmo soa falso na literatura… Então, façamos assim: eu simplesmente conto e você finge que acredita.

Bem, apesar deste primeiro parágrafo borgeano, minha história começa absolutamente igual ao do jardineiro da mansão onde eu, diante do portão, esperava atendimento. Ou melhor, eu atendia ao chamado da senhora Maria Amélia de Albuquerque Fragoso e Bulhões, recém viúva.

O portão era de ferro trabalhado e ostentava o brasão da família. Percebia-se por trás da ferrugem, das trepadeiras e dos musgos que fora imponente. Não encontrei campainha, aldrava, interfone ou câmera. Sem opção, bati inúteis palmas. Resignado, decidira-me pela espera, porém fui surpreendido pela imediata chegada por minhas costas de um matusalém, que me pareceu ser o jardineiro. Sorriu sem dentes e resmoneou um bom-dia, acompanhado de sutilíssimo movimento da cabeça. Empurrou com leveza uma das folhas do imenso portão, que se abriu quase sem ruído. Fez-me sinal para seguir à sua frente por entre as aléias de buxeiros finamente aparados. Mais ao fundo, pelos dois lados, os plátanos coloriam o jardim, embora suas imensas copas ensombreassem o caminho. Estranhei que entre tanto verde não se ouvisse um só trinar de pássaros. Pensei apropriadamente em um caixão de defunto. Adiante, uma bifurcação do passeio. Com voz a cavernosa dos fumantes, instruiu-me para seguir à esquerda. Quando me voltei para agradecer, ele desaparecera, talvez entre as galhadas. De onde o conhecia?…

Cheguei à porta de carvalho envelhecida, com ferragens azinhavradas. Bati com os nós dos dedos e a porta imediatamente foi aberta. Não vou descrever o mordomo. São todos igualmente insípidos e fazem questão de manter a imagem entre o olhar estúpido e o da desconfiança. Conduziu-me através da grande sala mobiliada com requintes de antigamente. A mesa de mogno atenderia umas trinta pessoas. Com certeza, lembranças do tempo farto do senhor embaixador. As paredes com belas águas marinhas, uma foto do casal quando novo, estatuetas, o brasão outra vez. O mordomo deixou-me ante a porta levemente entreaberta da nova sala. Do meu ângulo de visão distingui na sala escura livros em profusão, discos, quadros. Um, em especial, me prendia à sua luminosidade: seria o embaixador? A imagem me era vagamente conhecida, embora não a localizasse nos porões entorpecidos da memória. Quando a porta foi totalmente aberta, fui convidado — ou seria, intimado? — a entrar. Era realmente a biblioteca. Numa mesa central permaneciam seis pessoas rigidamente sentadas. Se me fosse possível somar suas idades, com certeza alcançaria os seiscentos anos.

À cabeceira, a viúva. Sorria tão somente com os olhos. Estendeu o braço magro, uma corrente de ouro no pulso esquerdo, apontando-me um lugar no outro extremo da mesa. O mordomo serviu-me água e saiu silencioso, mas demonstrando com clareza o seu olhar de cão de guarda. Ela pigarreou e disse em tom misto de suavidade e força que meu nome havia sido indicado por um amigo. Era uma missão difícil e talvez original. Ela precisava confiar em alguém.

Inquieto, perguntei-me se existia algo realmente original.

Ela olhou com vagar para cada uma das pessoas ali presentes, demonstrando sua ascendência primordial e atávica sobre todos. Mantinha-as estupidamente caladas, enrijecidas. Estariam vivos?

Bem, ela prosseguiu, como o senhor deve saber, meu marido faleceu recentemente. De morte natural e sem dor…

Eu sabia, sim. Toda a imprensa nacional estivera presente. O homem finara-se como uma vela. O velório recebera a visita rápida do Presidente da República e de vários ministros. Mensagens de condolências vieram de muitos países e da ONU.

Ela explicava, pausada, solene: Ele recusara-se à cremação: cumpriria seu dever orgânico com a mãe-natureza. Foi enterrado no Jardim da Paz Celestial, no jazigo de seus ilustres antepassados.

Eu já não conseguia disfarçar a minha angústia para saber em que poderia servi-la. Nunca fui muito de rodeios.

Ela ignorou minha ansiedade: O meu marido viveu longa e intensa vida diplomática, podendo dele se dizer que raros acontecimentos do mundo nos últimos quarenta anos não tiveram sua participação ativa. Mas, ultimamente, dedicava-se ao estudo da energia mental.

Em minha silenciosa impaciência pedia explicações mais objetivas. Ela finalizou: Sua missão é a de encontrar o morto!

Embora experimentado na frieza dos perigos, dos enigmas, das “verdades” e das emoções que traiam, não consegui sopitar a surpresa, já pensando em intrigas internacionais, rapto de cadáver: E quem foi enterrado no lugar dele?

Ora, claro que foi ele! Respondeu-me seca e definitiva, como se eu tivesse proferido uma blasfêmia. Então!?…

Senhor, disse-me ela, o corpo nós sabemos onde jaz cumprindo a sua última função orgânica na cadeia alimentar. O que desejamos saber é onde o embaixador está?

Fingi entender, dando tempo para compreensão do inexplicável. Realmente, era uma missão original. Pensei em convocar um médium e reclamar a presença do embaixador diretamente do além, para que descesse ao rés do chão e dissesse para a viúva e seus pares que ele estava entre os demônios. Afinal, políticos, desde Dante, e a prática no Congresso Nacional tem comprovado essa assertiva, estão condenados ao inferno. Mas ela parecia ler meus pensamentos.

Disse: Ele não acreditava em vida depois da morte!
Tartameleei: E a senhora?… E eles?… — apontei o olhar para os moribundos.

O silêncio ficou ainda mais sepulcral. Até que ela impôs sua resposta a todos: Também não acreditamos! Realmente, eu me deparava com o insólito.

Como o senhor vê, ela insistiu, é fácil inventar uma mentira e nos dizer qualquer coisa improvável. No entanto, seu avalista me garantiu de sua honestidade. Ah — e entregou-me um cheque —, e o honorário afetará positivamente sua relação bancária.

Resisti olhar para a folha de cheque sobre a mesa. Ela prosseguiu com fala mansa: O senhor deve saber que meu esposo, depois que se afastou das atividades do Itamarati, dedicava-se à pesquisa das energias mentais. Segundo ele, seriam estas que sustentam a evolução de Darwin, o inconsciente coletivo de Jung, a reencarnação e outras teorias mais. Segundo meu finado marido, a passagem do homem ao macaco, o chamado elo perdido, se deu por impulsos elétricos que transformaram o intermitente instinto animal em pensamento contínuo.

Bebeu um gole de água como se degustasse o melhor tinto. Inspirou e disse: Portanto, senhor, o meu finado marido acreditava que permaneceria em forma energética…

Aí me desesperei: E a senhora quer que eu a encontre? Trago-a numa bateria de celular ou de lap-top? O repuxo dos lábios mostrou sua decepção. Pedi desculpas. Nunca ouvira proposta tão insensata. Ela encerrou nosso encontro: Cabe ao senhor nos dizer onde está o embaixador. E o mordomo apareceu, intimando-me à saída.

Atrás de mim fecharam-se portas e o silêncio fúnebre guardou as múmias. Juro que vislumbrei o sorriso irônico do mordomo. O que teria ele a ver com isso? Caminhei entre os plátanos, plenamente decidido a ignorar o caso, afinal, minhas experiências com almas de outro mundo não passara do desmascaramento de um espiritualista que tinha mais de mágico que de mediúnico. No entanto, apesar dos truques baratos, acabou ganhando uma casa de um boçal crédulo.

Entre as aléias reencontrei o jardineiro. Familiar!? Seu frágil sorriso pareceu-me de deboche.

Estava bastante claro que se eu contasse a alguém, além da falta de ética, seria ainda motivo de chacotas: Caça-fantasmas! Depois que esse dístico me pespegasse às costas, somente fantasmas teria como clientes. Com qual moeda esses me pagariam? Provavelmente com mapas de tesouros perdidos.

Tratei de considerar a curiosidade e a inquietação, que são as matrizes das descobertas, e lembrei do inacreditável valor do cheque: Como terminaria tal bobagem?

É das artes do bom detetive considerar os absurdos até reduzi-los ao óbvio ou ser surpreendido pelo trivial. Relembrei o que lera num romance policial barato: o absurdo é apenas o estranhamento sobre o desconhecido e a melhor mágica do mundo não passava de ilusão de ótica. Ainda que me sentisse um tolo aceitando a missão, fui para o escritório e acionei a internet. A investigação moderna abandonara lentes e cães farejadores em prol da espionagem eletrônica. No caso, nem disso precisei. Pesquisa: nome do embaixador. Resultado: mais de 100 referências e muitas fotos assemelhadas ao pessoal da mesa. Tudo o que era ligado à política e à diplomacia fui deletando. Interessei, claro, por seus estudos sobre energia em suas múltiplas manifestações. Pareceram-me escritos inconsistentes, mais para provar o que ele pensava do que conseqüência da observação científica. Seus artigos sempre se linkavam aos de outros autores, que poderiam ser espiritualistas, monges, físicos quânticos e outros doidos. Também a Darwin e a estrutura do DNA, a Jung e seu inconsciente coletivo. Enfim, era uma suma quase teológica. A grande prova final, escreveu o embaixador, é a fotografia pelo método Kirlian.

Outro artigo, inacabado ou mal-elaborado, despertou-me a atenção. O autor tentava sintetizar as manifestações da fé nas diferentes religiões, reduzindo-as à tríade: massa > energia > vida. Do urânio ao pensamento mais sublime, do grão de pó à constelação mais afastada, tudo seria energia pulsando em diferentes comprimentos de ondas e de velocidade. Para ele, espírito, enquanto inteligência ou sensibilidade, não estava para seres incorpóreos ou vida além da vida, mas apenas para unidades energéticas que davam continuidade a um impulso elétrico primitivo e infinito no tempo e nas possibilidades. Desejava provar isso com as fotos Kirlian do instante da morte, quando o corpo físico perde vinte e um gramas e uma massa dele se despreende. Segundo ele, essa volatização retornaria a algum centro energético universal ou alimentaria o psíquico dos que permanecessem no corpo físico, assim como as partes orgânicas alimentam a vida orgânica. E citava como prova psíquica o inconsciente coletivo junguiniano, num intercâmbio de inteligência e afinidade, e como prova orgânica a cadeia alimentar.

Loucura! Conclui: o homem era louco mesmo! Porém, voltaram-me à lembrança Galileu, Beethoven, Nietzche, Poe, Kafka… enfim, eram tantos os que se mostraram loucos num tempo e não muito depois geniais. Quem, a princípio, acreditou que algo mais pesado que o ar pudesse levantar vôo? Só o doido do Santos Dumont. Quem não julgou Julio Verne um sonhador ao criar ficcionalmente um barco que andaria debaixo da água sem que ninguém morresse afogado? Quem poderia imaginar o funcionamento desta máquina-deus que nos surpreende a cada dia, chamada computador? E a bomba-atômica?

Por via das dúvidas, subornei o zelador do cemitério e abri o lar atual do embaixador. Dormia roxo, gordo e fedorento. Em sua cara balofa, imaginei um breve escárnio na comissura dos lábios. Ainda que eu não acreditasse em respostas, perguntei-lhe: Onde estás, agora, senhor embaixador? O zelador soltou uma gargalhada sinistra. Olheio-o, desconfiado. Ele transmudou-se, sorrindo piedoso, mas não se furtou à realidade: Na mesa posta, aguardando o banquete dos vermes.

Por incrível que pareça, ele confirmava a teoria do defunto: o orgânico servia ao orgânico. Isso quer dizer que o psíquico deveria servir ao psíquico. E como a energia é sempre dinâmica me caberia responder à senhora embaixatriz e à sua corte de múmias: onde estariam as correntes elétricas que compunham os pensamentos do embaixador?

Voltei, então, às fotos Kirlian. Algumas me impressionaram vivamente. O ensaio explicava que no instante anterior à morte uma substância ectoplasmática se desprendia aos poucos do corpo. Elevava-se sobre este até se desligar por completo, no exato momento da morte cerebral, e ascender às alturas.

Se as fotos fossem verdadeiras, o embaixador seria uma massa energética ocupando algum lugar no espaço. Mas, onde? Pensei no cheque. Eu precisava descobrir. Era uma questão mais de necessidade do que de honra. Deduzi que essa energia seria levada, atraída, consumida por leis de afinidades.

Voltei às pesquisas. Outra matéria, que eu havia descartada, vinha ao encontro. A lei de atração dos corpos. Uma intensa e imensa comunidade constitui-se de partículas subatômicas, naturalmente invisíveis aos instrumentos menos potentes, mas, segundo a teoria quântica, tão reais que era mais fácil duvidar da materialidade física do que dessa estrutura invisível…

De repente, uma vibração interior me abriu os olhos. Teria sido o embaixador quem me soprava ou eu chegara a ela por lei de atração fisio-química? E de onde ele me parecera tão conhecido?

De repente, um clarão energético pulsou-me do cérebro aos olhos: A resposta darwiniana.

Voltei ao vetusto casarão, já com intimidade com o portão e sem medo do túmulo de plátanos. O jardineiro cortou meu caminho e sussurrou que o fantasma do seu patrão aparecia entre os plátanos, em uma forma luminosa, quase corpórea. Que eu atentasse para ele. Agradeci com sorriso escarnecedor. Adiante, o mordomo impávido e frio tornou a me conduzir à biblioteca. Os velhos me esperavam, imóveis, como se apenas eu tivesse realizado algum movimento no último dia. Estariam vivos? Desconfiei de onde viria o cheiro de mofo.

Pois, não? — a voz impessoal e anódina da senhora despertava-me, cobrando explicações.

Bem, comecei muito devagar, organizando pensamentos para conseguir ser claro a todos, inclusive a mim mesmo. Prossegui, indiferente ao olhar do mordomo, que desta vez permanecera em pé, ao lado da senhora, está claro que o senhor embaixador morreu e que o corpo está no jazigo familiar. O.K.?

As múmias sequer piscaram. A senhora bocejou.

Entre indiferente e curioso para saber aonde eu chegaria, prossegui: O corpo está sendo devorado pelos vermes, uma categoria animal notoriamente inferior. Como é pacífico entre vós, e eu não discordo, cumpre-se a lei natural, orgânica…

Fiz breve pausa, organizando-me: Porém, inegável a sensibilidade, a inteligência do embaixador…

Ela corrigiu-me: Senhor embaixador!

Bem… do senhor embaixador… Mas como eu tentava explicar o óbvio, achei importante repetir: o orgânico vai para o orgânico… Correto? O que me leva a concluir que a energia psíquica será atraída por energia psíquica. Portanto, por lei de afinidade, será atraída por seus iguais, por aqueles que lhe compartilhavam dessas idéias…

Não soube eu definir se a senhora demonstrava impaciência ou desabrida curiosidade. Apressou-me.

Atendi-a: A mente é composta de impulsos elétricos, energia. Os impulsos elétricos do senhor embaixador foram atraídos — e destaquei — de forma obsessiva, diríamos se fôssemos espíritas; ou por lei de imantação, se físicos, por seus iguais aqui presentes, que reclamam o intercâmbio com suas energias mentomagnéticas, tanto que me incumbiram de localizá-las…

Como a senhora e os senhores pensam intensamente nele, ele aqui está.

Pelo espanto da senhora com meu simplismo matemático, vi que tinha merecido o cheque. Despedi-me de todos, mão a mão, só para ver se as múmias ainda viviam, e voltando-me para o lugar onde o coronel costumava sentar, acenei-lhe cordialmente.

Walmor Santos nasceu em São João do Sul, SC, em 16.08.1950. Reside em Porto Alegre, RS. É proprietário da WS Editor, uma pequena empresa que se dedica a lançar novos escritores e a levá-los às escolas. Foi o idealizador do grupo Cria Contos, do Projeto Autor na Sala de Aula e do Projeto Comunidade Leitora (este, com Nóia Kern). Foi criador e editor da extinta Revista Literária Blau, hoje em formato jornal. Presidiu a Associação Gaúcha de Escritores no biênio 1999-2001. Tem vinte títulos publicados, destacando-se O paraíso é no céu de sua boca, em 12ª edição, participou de inúmeras antologias e recebeu vários prêmios. Mais informações em seu site.

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1 comentário  


  1. Um conto diferente, mistura o real e o imaginário de forma atraente e dinâmica. Adorei. Tem uma pitada de humor com muita classe.
    Beijos doce!

    *Veri* - 06/04/08


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