Farewell
Luís Fernando Pinotti
Para Stéfano, Rafael e todos os meus amigos que seguem em frente, sempre.
Quando alcançamos a alameda principal foi que ela me disse: você já percebeu que os pais dos nossos amigos estão morrendo?
Porra, Gisela, eu disse, dissolvendo o elo formado por nossos braços e apertando o passo entre mausoléus, querubins, cruzes e credos. O sol das dez da manhã que batia duro e sem trégua obrigou-me a afrouxar a gravata escura, a tirar o paletó e a desejar que meu carro estivesse estacionado bem mais perto do que realmente estava. Tal comentário não podia ter vindo em pior hora, quando os aromas florais das coroas ainda confundiam-me os poucos sentidos restantes.
Foi apenas um comentário, ela me disse. Não era para você ficar assim. Mas inútil se fazia sua dialética, já estava de banzo, o qual se agravou quando pisei numa poça d’água por entre um vão de calçada, encharquei a barra da calça e adentrei, de pés sujos, o carro recém-saído do lava rápido. Gisela se calou, oito anos de casados eram suficientes para compreender o estado de meditação em que eu me encontraria pelas próximas horas.
Tomando a avenida principal daquele bairro, fui sintonizando o rádio até que encontrasse uma melodia agradável aos meus ouvidos. A orquestra de Benny Goodman determinou o fim da busca. Gisela abriu o vidro, acendeu um cigarro, acompanhou a programação como se seus dedos fossem a bateria de Gene Krupa, enquanto seu comentário percorria cada osso do meu corpo como uma descarga elétrica. Acendi um cigarro também, ela afagou os meus cabelos e ficamos nisso.
A merda toda era que eu sabia que Gisela tinha razão, mas aceitar um novo ciclo de perdas era doloroso demais para mim. Meus avós maternos e paternos haviam falecido há muitos anos, não havia mais nenhum irmão ou cunhado deles para contar a história. Do lado de minha mulher, a mesma coisa, sem avós ou coisa que o valha, com uma agravante: os pais dela saíram do interior goiano para tentar a vida na cidade grande, graduaram-se em arquitetura pela Universidade de São Paulo com méritos, alugaram um casarão para instalar o escritório e nunca mais voltaram para rever os parentes. Uma história obscura, nunca esclarecida quando Gisela indagava o fato de não conhecer os avós. Quando seus pais afirmavam nunca ter lhe faltado nada, ela sempre dizia o contrário, tentando, desde a infância, mostrar ao mundo onde ficava o grande abismo de sua alma. Creio ter sido o único a conseguir adentrá-la sem precisar partir costelas ou rasgar tecidos, o único a decifrar o enigma de seu triste semblante permanente, que agora me contagiava por conta do ocorrido naquele dia.
Minha avó sempre dizia que, quando um telefone toca de madrugada, você pode ter certeza absoluta de que alguém partiu desta para uma melhor. Minha mãe telefonou as quinze para as duas da manhã para informar o ocorrido. Gisela e eu havíamos gozado juntos pela primeira vez em vinte e poucos dias, sem fingimentos, e aquela notícia cortou o agradável efeito da serotonina. Sentei-me na cama e pus-me a chorar, sempre fui péssimo para lidar com perdas, cheguei a chorar três dias pela morte de um cachorro, atropelado pela bicicleta de um vizinho, num tempo em que ainda se podia pedalar pelas ruas até tarde da noite. Gisela apagou o cigarro, terminou de tomar uma taça de vinho branco que estava na cômoda e me abraçou ternamente pelas costas, tendo a certeza de tudo sem precisar me perguntar nada. O pai de Renato era um daqueles senhores bonachões, de bigode amarelado pela nicotina, ligeiramente calvo, daqueles tipos que caminham pelos parques combinando meias sociais escuras com tênis branco e que fazem parte da tua vida desde que você se conhece por gente. Renato e eu éramos vizinhos, crescemos juntos, nossos pais faziam churrasco aos domingos, nossas mães preparavam a ceia natalina, tinham até a mesma receita de peru com frutas nos seus livrinhos. O pai de Renato fumava muito e estava sempre tomando um conhaque no botequim do bairro, onde eu costumava gastar os trocados do açougue comprando balas e pirulitos. Às vezes ele me pedia para não contar a ninguém que o tinha visto ali, me pagava um sorvete, um quibe, uma paçoca, e aquele nosso pacto de silêncio era tão importante para mim quanto uma missão secreta daqueles agentes das matinês dominicais.
Quando o pai de Renato perdera o emprego na multinacional automotiva, em meados dos anos noventa, a situação complicou-se na casa do meu melhor amigo. Estávamos na fase das garotas, das danceterias paulistanas, do primeiro carro, do primeiro baseado, da primeira trepada, da primeira pílula do dia seguinte, do distanciamento de grandes amigos por conta das opções profissionais assinaladas nas diversas fichas de inscrição dos vestibulares. Mas Renato e eu havíamos traçado um pacto quando fomos nos matricular na faculdade: mesmo com ele cursando pedagogia no campus da capital e eu direito no interior paulista, nunca deixaríamos que a distância conseguisse ultrapassar a amizade numa maratona com duração mínima de cinco anos. Quando eu parti, carregando duas malas e um coração apertado, logo recebi a notícia do corte de operários nas fábricas do distrito industrial, dos planos de demissão voluntária, da tropa de choque descendo porrada nos grevistas e do que acontecera com aquele homem de quem era cúmplice desde menino. Nas cartas que trocávamos, Renato dizia que seu pai quase não estava em casa e, quando estava, era porque os vizinhos o traziam carregado do velho bar. Minha mãe dizia-me, nas poucas conversas telefônicas semanais, que Renato só conseguia chegar ao final dos semestres porque meu pai estava lhe pagando a condução do nosso bairro até a universidade. Quando eu vinha visitar a família, meu melhor amigo passava grande parte dos dias a meu lado, discutíamos um pouco de política, falávamos de futebol, assistíamos a uns vídeos pornôs na tevê grande da sala enquanto meus pais não voltavam com a pizza do sábado à noite. Nossa relação se mantinha retilínea e intensa, como se cursássemos as mesmas matérias, no mesmo corredor da mesma faculdade.
Mas eu conheci Gisela numa daquelas andanças pelas repúblicas, moradias coletivas mantidas pelos estudantes no entorno da universidade, e não sei como fui me apaixonar de bate-pronto. Talvez porque enquanto as outras garotas estivessem fazendo caipirinhas de cachaça vagabunda para a maior quantidade de homens nus por metro quadrado que se tem conhecimento desde as bacanais da Idade Antiga, ela era a única que mantinha seu vestuário intocado, além dos olhos fixos num livro sobre os projetos de Niemeyer. E bebia Coca-Cola sem gelo, enquanto todo o resto começava a procurar o litro de álcool debaixo da pia e a trepar sem camisinha pelo chão de tacos. Foi complicado conseguir que ela me olhasse, pensei em me sentar sobre seu pé esquerdo, que repousava sobre um pufe, mas achei melhor puxar conversa sobre arquitetura.
Gosta do Niemeyer? Gosto, mas prefiro que você acenda esse teu baseado e me convide para fumar contigo sob a luz do luar. Assim, de bate-pronto, consciente do que estava sentindo pela primeira vez desde que havia me mudado para o interior, me apaixonei por Gisela e começamos a namorar em poucas semanas. Ela me reaproximou do sexo com carinho, do qual me recordava vagamente e não praticava há uns bons anos, e eu gostei, gostei bastante. Ouvíamos muito jazz, ela tinha um disco fascinante do Chet Baker em Milão e eu, em contrapartida, sempre tinha um baseado para dividir, além de tê-la feito entender que as canções do Chico Buarque sempre são melhores na voz do próprio.
Porém, ao mesmo tempo em que trazia Gisela para conhecer meus pais, minha casa e o meu melhor amigo, Renato e eu nos distanciávamos simultânea e abruptamente. Percebi que ele não vinha mais me visitar, que não aparecia para trocar seu Jorge Amado pelo meu Manuel Bandeira, tampouco ouvia mais sua bicicleta barulhenta descendo a ladeira que cortava nossa rua e dividia a mesma calçada em dois quarteirões. Outrossim, Gisela ia se tornando amicíssima de papai, além de sua parceira no pôquer, e auxiliar de mamãe, ajudando-a tanto na limpeza do fogão quanto na confecção dum bolo para a festa junina da paróquia. Durante as primeiras férias da universidade passadas em minha casa oficialmente como um casal de namorados, a constante presença de minha namorada fazia com que eu acreditasse que, num arroubo de extrema amizade, Renato estava permitindo que me mantivesse à vontade para conhecê-la melhor, sem intermitências desnecessárias. Um equívoco de minha parte que fui descobrir faltando dois dias para o retorno ao interior: Renato não saía mais de casa porque seu pai, já alcoólatra e com depressão profunda diagnosticada, ameaçava se suicidar a cada segundo de solidão. Sua mãe, muito franzina e já doente dos nervos, implorava ao filho que não deixasse a casa sequer para ir à universidade, temendo que o marido rompesse as amarras e encontrasse em si a força oculta para estraçalhar cada louça, cada quadro, cada pessoa que surgisse diante de sua vista. Renato havia abandonado a faculdade, sua casa não era mais um lar, seu pai já não era aquele senhor bonachão que bebia seu conhaque em pé no balcão do bar, sua mãe não era mais aquela costureira requisitada por grandes estilistas do centro paulistano para reger, como um maestro à orquestra, um batalhão de trabalhadores manuais em prol da alta costura. E eu, dessa forma, também não fui o grande amigo cujo abraço o meu grande amigo deve ter esperado, minuto a minuto, ao longo daquele mês de julho. Ao saber dos fatos, corri em direção ao seu portão, toquei a campainha inúmeras vezes, chamei, bradei, urrei, mas a dobradiça não rangeu, a fechadura não girou, os olhos negros de Renato não me fitaram, saudosos, como o fizeram desde que me conheço por gente. Caí, soluçando, de joelhos, senti as mãos suaves de Gisela afagando meus cabelos e os braços fortes de meu pai me erguendo e me amparando até chegar no sofá de casa. Perdi a conta de quantas vezes tentei contato, sem sucesso, com meu melhor amigo naqueles dois dias que antecederam meu retorno para a faculdade, minha mãe contou-me que o telefone deles fora cortado há dois meses por falta de pagamento e que papai ofereceu dinheiro para quitação do débito por inúmeras vezes, porém sem êxito algum. Logo após a minha partida, Renato e sua família deixaram o bairro, assim, na calada da noite. Meu pai disse ter ouvido um caminhão estacionar no meio-fio, mas jamais pensou que significasse a partida da minha grande referência de vida, a qual vim a reencontrar apenas nesta manhã, mal-barbado, triste e friamente distante, como se o anúncio da morte de seu pai nada mais fosse que a formalização do que se encerrara há quinze anos atrás. Quando, naquela tarde de terça-feira, apanhei o ônibus de volta para o interior e só voltei um ano depois, e quem me visse subindo os três degraus do coletivo até poderia dizer que eu regressava da mesma forma que chegara: os mesmos setenta quilos, a bela namorada no assento ao lado, a saudade já debaixo de escombros invisíveis. No semáforo, após o último acorde da canção no rádio, Gisela arremessou seu cigarro na calçada, olhou-me e disse, você não muda nunca. Eu disse, sei disso, e a olhei com aquele olhar de aqui jaz minha tristeza. Continuamos seguindo para casa e nunca mais falei nisso, apesar de saber que, há instantes atrás, ao me despedir silenciosa e distantemente de Renato, jamais voltaria a vê-lo e que nunca saberia realmente o que nos distanciou daquela forma. Ao engatar a terceira marcha no carro, me doeu aquela dor de quem carregará para sempre a certeza de que a vida nem sempre permite uma segunda chance.
Luís Fernando Pinotti Silva tem 28 anos, é libriano, flamenguista, já tocou percussão em botequim, nunca tomou o Daime, cinéfilo, não fuma, não bebe, não é considerado o salvador da literatura, muito menos do rock and roll. Gosta de escrever, já publicou seus contos em diversos sites da internet e numa antologia de novos escritores, publicada no eixo Norte-Nordeste. Deposita todas as suas neuras em seu blog.





Tem gosto de nostalgia. Dá até aperto no peito!
Sempre imagino você no personagem principal, com seus olhos parecendo duas fubecas e sua cara de melhor amigo.
Beijo Féfis!
Veri,
Muito obrigado pelo comentário.
As pessoas que passam por isso merecem todo o meu respeito.
Grande beijo.