Do lado de fora


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Raimundo Neto

Arrumar todas as panelas é seu desajuste. Cada panela, um destino de comidas. No fim da noite, os pés empurravam o sono, perambulava arrebatada pela cozinha. Cadeiras pra lá, mesa pra cá, e os sonhos mantidos distantes.

Prostrava-se, em segundos perdidos, no tempo que não a prendia, resto de compromisso, na beira da janela, cedendo aos olhos uma essência de quem toma emprestado detalhes alheios sem cometer grandes crimes: ela espiona a vizinha.

As mãos ainda antipáticas a gorduras, segurando a janela para evitar impulsos; com os olhos nas pontas dos dedos; olhos coloridos, grandes e plásticos, substituindo outras vistas. E seus dedos que enxergavam embrulhando-se na palma da mão. Se a vizinha, do outro lado da rua a quisesse — naquela casa-castelo, com aquele sorriso-surpresa, ombros habitados por homens e mágicas, cintura feita para toques e não para abrigo de imperfeição —, ela se doaria inteira. Gostava de homem, porém, se impregnava da realidade de outra mulher. “Moça, não se assuste, só quero ser você”. Ela não disse. E foi seu pensamento, filho único, nascido do frio, do impulso, da substância da admiração, que se destacou, distinto dela, sem som, espantosamente avançado, cortando tudo que é a noite, e acordou a moça da casa-castelo.

Do outro lado, luz acesa é mistério que se inflama.

Correu para a cozinha, aproveitando o nervosismo que a movia, sentindo-se vivinha. Enfiou o dedo em mel puro — e se preciso fosse concorreria com a natureza pela porção. Voltou para a janela, ainda sobressaltada, em conjunto com a escuridão, e lambuzou todo o ombro direito; com uma fome de outra ordem, sem sentir nojo de si, lambeu suor e ombro. Tudo seu. Seu novo gosto pela descoberta. Era mulher como a outra. Podia acordar no meio da noite, sentir-se rica, pronta para iniciar qualquer conquista.

Esperou que formigas a consumissem. Mas nem isso. Que a outra tivesse nas mãos um jeito de sorrir, que para não acordar os vizinhos elas se fizessem amigas, com gestos, e que fossem roucas, que elas brincassem de ser mulher com mel nos ombros. E nada. Desfez-se na escuridão de maneira irreversível, sentindo docilidade no meio da noite, uma sombra, enquanto a outra chorava na varanda da casa-castelo.

Sabia bem, com detalhes encarnados e acalorados, a história alheia: Rosa no nome, pêssego na pele; homens curvados em 90º de encantamento e as mulheres sempre mais baixas e prostradas diante da moda cotidiana de Rosa, que a tornava impoderável, mas sem natureza: ela era as roupas que vestia, a moça da casa-castelo.

Ainda sabia que a vida da outra era de escassas atribuições, atribulações de poucas polegadas, e dizia-se dona da própria vida. Concordava apenas com: o cabelo nascera de uma fantasia; aspirava nos fins de semana ar de Coberturas. No último andar há sempre uma liberdade encantadora, um desejo de humilhar os outros andares — Rosa nascera para respirar os melhores ares. A moça da casa-castelo.

No quarto escuro, o corpo sujo pela insatisfação sem bom emprego, ela aprendera a chorar agruras. A julgar pela discrição, choro engolido, refeição de derrotado, as lágrimas talvez fossem escuras. Os olhos funcionariam como nasceram, atribuições dignas, serviriam então para jorrar lama. Era lama que escorria. Se tudo escuro, sua água sem alegria minava do canto dos olhos.

Nunca seria a outra. Aquela nunca perscrutaria nenhum quarto alheio. Tantos quartos, inúmeras intimidades suplicantes por revelação, e a outra se bastava com a sua. Ela não era assim, pensava em ser outra. Intimar o interior morto com gritos de “Bom dia!”. Contar as costelas e certificar-se de que algum homem foi feito de um pedaço seu: outro osso duro para se desgastar em boca qualquer.

Ainda não tinha nome. Só admiração.

E ela ia e voltava. Aparecia e desaparecia. Aparecia e desaparecia. Aparecia e desaparecia. Nela mesma. Aparecida! E lembrava do nome num assovio.

A dor só amenizava com enfrentamento. Por trás dela, o passado. Então, acordou de si, consciência desperta, soluço de existência, uma luz verde sempre a lampejar-lhe soluções “Eu existo. Ela. Eu. Ela. E-u.” Sentia o tempo como outra alternativa se repetindo, compulsivo. Em surto de improviso comprometedor ela precisava gritar para acordar quem dormia ao seu lado. Faltava contar a ele sobre suas descobertas: ela queria ser outra.

Existia um homem com ela. Seu corpo ainda era seu. Os dedos lúcidos partiam em busca de territórios inexplorados, outro lugar que não fosse sua janela: sobrancelhas despenteadas que precisavam de dedos, o suor que desbravava o corpo, inseto limpo e flexível, ansiando por uma mão que o acolhesse, que entendesse de acúmulos, propiciasse o nascimento de um rio virgem e revolucionário. Ela, que nunca soube sustentar um corpo inteiro, teria que controlar seus desmanches: “Desculpa! Hoje, acordei buraco negro, e minhas escolhas estão tão sem luz quanto eu.”

A moça da casa-castelo jazia em casa, dormindo, encantada com a vida. Aparecida sumiu de seus próprios sonhos; pois até para sonhar é preciso bom-senso, assim como para ser burro é preciso coragem.

Decidiu ser inacessível. Descobriu, outro dia, que bastava um corpo apontar-lhe sinuoso, e ela estaria derretida.

Era fácil, como era tragicamente perdida, desprovida de coragem. Alguém assaltando-a, em qualquer hora do dia, espancando-a, exigindo toda a roupa do corpo, e ela ficaria quieta feito pedra, imóvel e fria. Sorriria até. Podia seu agressor ser uma criança que ela não reagiria. Aparecia e desaparecia. Aparecia e desaparecia. Quietinha e nua. Se fosse presa por crime não cometido, choraria entalada sem reclamar seus direitos. Humilhada pelo chefe, e um sorriso de compreensão subjugada rasgaria-lhe os lábios finos. Se o mundo desse, em mau dia, a destruir-se, Aparecida apenas se trancaria no banheiro e ouviria suas melhores músicas; se o aviso fosse de que o foco da destruição começaria por sua casa, ela apenas daria de ombros e entenderia o destino.

Seria lua em céu de papel; num céu de papel crepon. Mesmo com pouco prateado e sempre a minguar, ela seria Aparecida, a aparecer e desaparecer.

Aparecida, já quando nascia a manhã, e outra vida acordava, dirigiu-se ao banheiro para espreitar seu homem. Ele limpava o corpo com os panos que usava para dormir, jogava no chão a camisa encharcada, cheia dos restos de admiração de Aparecida, a bermuda em sopa intragável pendurada, bandeira de propostas de homem que se cuida pouco. Despiu-se do inorgânico, pôs-se de pé e procurou sentido: banho para alma que aprendeu a derramar-se de suor. Limou o ombro cheio daquela outra mulher. A vida dele saía pelos poros, perceptível; era como ver baleia em corpo de metro e oitenta comportar-se conformadamente em cubículo de dez palmos. As mãos arrancando sujeira, sabonete no chão pelo descuido e a liberdade de mistura líquido-água com líquido-homem: rio que corre para o mar. Sim, ele também se desmanchava por Aparecida. E não era amor?

Os dedos dela perderam posse e a última gota foi sua: primeira estrela que nasce no mundo para a única mulher que a vida lhe deu.

E Aparecida, que queria ser outra, não precisaria mais deixar de ser por si. Torceria para aparecer na própria vida. Aparecia, sem desaparecer.

Raimundo Neto, 24 anos. Estudante e Funcionário Público Temporário. Publica contos em seu blog. Faz Psicologia no Piauí, mas vive com a cabeça na Literatura do mundo todo. Não tem livros publicados, não participa de concursos literários e tem medo de elogios. Queria publicar seus contos numa antologia, um romance, e ter uma fotografia na orelha de O livro da minha vida.

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3 comentários  


  1. Raimundo, você e sua escrita apaixonante. Escrita Aparecida, cheia de tranças, sinuosa como as mais saborosas dádivas. Agradeço por poder te ler, ainda que de vez em quando.

    Guto Melo - 19/03/08
  2. Este é só para marcar a notificação que eu havia esquecido.

    Guto Melo - 19/03/08
  3. Cada vez melhor…

    Camila - 25/05/08


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