Amor de Psilídio


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Guto Melo

Certa vez a alma do genoma de uma bactéria foi seqüenciada. Da análise, foi colhido material para uma história lastimosa. Carsonela apaixonou-se perdidamente por Psilídio — um inseto desgraçado que vivia chupando a seiva das plantas. Da seiva, Psilídio extraía o açúcar, mas não os aminoácidos necessários à sua sobrevivência. Carsonela, apesar de contar com parcos genes, oferecia todos os aminoácidos que seu adorável inseto precisava e se tornou a simbionte mais dedicada do reino unicelular procariota. Psilídio, insaciável, voltava para o pé de goiaba, desatinado de desejo.

— Quero sugar-te em teus bordos e tuas folhas, para que injetes em mim toda tua alegria. Então, enrolo-me inteiro com a tua doçura, fico verde e depois fagueiro e depois erótico.

A Goiabeira amolecia, menos por cair na lábia do Psilídio, e mais por estar impedida de desenvolver suas brotações, com seus galhos infestados, folhas encrespadas, impregnada de inseticida. O inseto, resistente ao veneno e cada vez mais cheio de vida, construiu células especiais para alojar Carsonela. Em troca, dava a ela uma parte do açúcar que roubava da Goiabeira. Carsonela se sentia protegida, segura, dentro de seu Psilídio fofo e bem nutrido. Assim, costuraram uma cumplicidade que parecia infalível, como deve ser em toda intimidade.

Em um belo dia, Coleobroca apareceu pelas bandas do pomar onde estava plantada a Goiabeira que o Psilídio chupava. Enorme, com seus trinta e tantos milímetros de tamanho, assustou o miúdo Psilídio. Coleobroca fincava suas mandíbulas no tronco da Goiabeira, inventava ruídos surdos guturais. Era uma verdadeira larva-cadela! No chão, próximo à árvore, a serragem como lágrimas expectoradas de milhares de furos e aberturas que ali existiam.

Triste por não ser mais praga dominante, Psilídio perambula meio aflito e um pouco sonolento. Como o açúcar nesse dia não veio em grande quantidade, Carsonela também não teve o seu quinhão. No meio do caminho, uma tal de Xylela deu bola. Psilídio, com o pouco de energia que lhe restava, se aproximou da bactéria exuberante, na plenitude de seus milhares de genes. Abraçaram-se, chamegaram e, em pouco tempo, Xylela invadiu o inseto e sem muito esforço expulsou a rival. Carsonela, sem condição de produzir sequer a sua própria membrana celular, lutava para não morrer, torta, envergada pelo desterro do abandono.

Psilídio seguia risonho, saltitante. Sentia o odor de algo cítrico, possivelmente uma Laranjeira. Convidava Xylela para bailar e seguir adiante na vida. Do alto de sua tolice, não percebia que a goma de sua nova amada não entupia mais os vasos das plantas como antes, que suas regiões codificadoras de proteínas andavam meio debilitadas. Xylela era um ser que crescia lentamente e a sua exuberância à primeira vista disfarçava os genes do declínio, do ocaso. Aos olhos de Psilídio tudo era belo, sem a menor lesão de cor.

Guto Melo, 33, é jornalista e escritor. Recentemente, foi selecionado no I Concurso Nacional de Poesia da FATEC (SP) e deve integrar antologia a ser publicada este ano. Participa de outras antologias, tem textos publicados em revistas eletrônicas e mantém um blog.

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1 comentário  


  1. Acho que esse conto ficaria super legal ilustrado. Imaginei também uma peça de teatro com ele hi hi hi. Achei muito criativo, apesar de meio confuso em algumas partes. Mas faz pensar, rir e querer continuidade dele o.k!
    Beijos doce!

    *Veri* - 06/04/08


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