A parte que te cabe


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Ana Claudia Calomeni

Mal amanhece, ele desperta e vai ao boteco mais próximo pegar água e sabão. O rapaz que o atende enche a lata enferrujada com água da bica, pega um pedaço de sabão em barra que sobrou da limpeza do dia anterior, joga dentro dela e a devolve. Deus lhe ajude. Custódio acredita na Sua existência, apesar de não temê-Lo. É que ele não sabe o que é ter medo. É o mesmo que crescer no meio do lixo. Chega uma hora em que não se sabe mais o que é ter nojo do lixo. E Custódio sempre viveu no meio do medo.

O sol começa a despontar por trás da Baía de Guanabara. A alvorada explode fria. Custódio caminha a passos lentos, encolhendo os braços dentro do casaco puído e sem botões. Os outros vão aos poucos acordando. São homens na maioria. Uns têm casa, outros a perderam, muitos nem sabem se ainda a têm. Deixam família e filhos e passam a semana remexendo o lixo, tentando vender o que conseguem achar, juntando trocados para levar para casa quando tiverem faturado algum. São retirantes na cidade em que nasceram. Com Custódio não é diferente. Vai em casa quando os cacarecos que consegue vender lhe rendem o suficiente para pagar a comida, a cachaça do dia e um trocado para deixar com a mãe e os irmãos. Mas faz tempo que ele não sai dali. Da última vez que apareceu em casa não gostou da decepção que causou quando esticou a mão e só o que havia nela eram algumas moedas que de tão poucas mal tilintavam.

Custódio avança alguns passos, senta-se no chão, faz um bochecho com a água turva e cospe na rua. O pouco que sobra ele bebe. Sem saber se vai conseguir muito mais do que isso para passar o resto do dia, sai arrastando os passos pela rua da praia e abre a tampa de um bueiro para esconder o casaco e a lata enferrujada. Os outros fazem o mesmo. Até o final do dia, como uma procissão, eles voltam, recolhem os trapos e rumam para os vãos, esquinas e becos. A cidade é uma durante o dia e outra ao do cair da noite, quando por ela circulam livremente seus ratos em busca de comida e seus mendigos à procura de abrigo.

O dia passa lento. Custódio caminha sem pressa. Acha um par de calças e uma camisa, que ele compara com as que usa. Troca de roupa e sai andando em direção à praia, preso em uma solidão que desconhece.

O sol que o mar reflete já está branco e quente. Os barraqueiros escondem-se nas sombras das tendas, os pombos desapareceram das areias. Custódio se joga no banco de concreto e aperta os olhos para protegê-los da luz do sol que bate na areia da praia. Um vapor condensado paira acima da areia e ele vê o ar pesado se deslocando em ondas transparentes. Perto dali uma imagem lhe chama a atenção. Ergue-se do banco, atravessa a areia e se aproxima dela. A mulher o encara. Tem um sorriso duro e seus olhos são apertados e frios. Ele a pega no colo e sai se arrastando em direção ao mar. A areia quente oprime seus passos e o suor lhe cai da testa sem intervalo. Ele encosta a mulher em uma barraca, tomando cuidado para protegê-la do sol, e mergulha. O mar está limpo, a temperatura, agradável. Sai da água, pega a mulher e caminha em direção à feira.

O zelo e o cuidado com que a carrega, como se segurasse uma boneca de louça, chamam a atenção dos feirantes. Os homens balançam os quadris simulando o ato sexual. As mulheres riem. “Vai uma manguinha aí, patrão? Leva que a patroa vai gostar.” Grita um. “Aí, mano velho, segura!” Grita outro, arremessando-lhe um cacho de bananas. Deus lhe ajude. Passa o resto do dia vagando pelo calçadão. Não será mais preciso se preocupar com comida.

O dia começa a cair e a noite chega trazendo nuvens carregadas, que mudam de tonalidade com os minutos. O mar está calmo, como quem adormece. Uma pena de ganso paira no alto de um edifício de três andares. O mundo parou por um infinito instante.

De volta ao vão onde havia dormido na noite anterior, Custódio encosta a mulher na parede e sai para buscar suas coisas. Os passos de Custódio têm a cadência das ondas do mar, mas os ombros, menos caídos, lhe conferem agora certa altivez. Os lábios, mais abertos, ensaiam um sorriso.

Chega carregando algumas folhas de jornal, com as quais forra cuidadosamente o chão, deita a cabeça no casaco e acomoda a mulher ao seu lado. Está calor. Custódio tira a camisa e envolve o rosto com ela.

A madrugada passa densa. Os ratos saem dos bueiros e as baratas não ficam muito tempo escondidas. Um clarão ilumina o lado oposto da baía e o barulho cada vez mais nítido dos trovões anuncia tempestade. Raios cortam o céu de nuvens carregadas, o vento sopra forte, como uma fera enjaulada que reage a maus tratos: firme e sem aviso. Uma gota molha a camisa. Outra. E mais outras. Ele acorda, tira-a do rosto e um raio cai perto dele, iluminando o lado vazio do chão onde dorme. Custódio tateia o cubículo. Seus movimentos vão ficando mais rápidos à medida que descobre estar novamente só. Agachado, pernas encolhidas, varre as ruas com um olhar apressado. Novo clarão ilumina o céu. Ele se levanta ligeiro, ágil, e corre em direção à praia. Pingos grossos lhe furam os olhos, invadem a sua garganta sem matar a sede. Custódio não consegue enxergá-la, mas ele corre, ele continua a correr, transforma as mãos em olhos, tentando descobrir no escuro. Ele chega a conseguir tocá-la, mas o vento insiste. O barulho das ondas fica mais forte e a fúria com que batem na areia faz Custódio descobrir o medo. Outro clarão abre o céu. A chuva cai mais espessa, cobrindo o horizonte com um véu semitransparente. Custódio a vê. Lá está ela, deitada na areia com o mar quase alcançando os seus pés.

O sol que o mar reflete está branco e quente. Os barraqueiros escondem-se nas sombras das tendas, os pombos desapareceram das areias. Sento-me no banco de concreto e aperto os olhos, protegendo-os da luz do sol que bate na areia da praia. Um vapor condensado paira acima da areia e eu vejo o ar pesado se deslocando em ondas transparentes. Perto dali uma imagem me chama a atenção. Ergo-me do banco, atravesso um trecho de areia e me aproximo. Um homem dorme. Tem um sorriso estampado nos lábios. Seus braços envolvem um pedaço de papelão onde se vê a metade de um rosto de mulher cobrindo-lhe o peito. Uma mulher de sorriso duro e olhos frios.

Ana Claudia Calomeni é carioca, formada em Jornalismo. Tem contos publicados nos sites Releituras, Bestiário e O Caixote. Recebeu menção honrosa no 11º Concurso de Contos Paulo Leminski pelo conto “Por um fio de sangue”, publicado na antologia Total, organizada pelo poeta Cairo Trindade.

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8 comentários  


  1. Gostei muito. Escrita densa, boa. O final do primeiro parágrafo já anuncia o texto forte; o fim do conto é bonito, achei bem original.

    Elton Pinheiro - 20/02/08
  2. Parabéns , eu acredito que vc está apenas se aquecendo, pois talento vc tem de sobra e Custodio é uma figura.

    Arnaldo Costa filho - 20/02/08
  3. Autêntico, carioca, cotidiano e forte!! Se pudéssemos ver em cada um desses filhos de ninguém um pouco do que vc viu em Custódio, nossa cidade estava salva!

    Mariana Mollica - 20/02/08
  4. Comecei a ler e senti o ar pesado, encolhi os olhos por causa do reflexo na areia. Depois, quando terminei, reparei que só tinha um monitor na minha frente… Legal, deu pra viajar.

    Alexandre Fikota - 21/02/08
  5. adorei.

    ed sartori - 21/02/08
  6. Aninha, como sempre, nos surpreendendo.
    O que não é surpresa p’ra ninguém!
    Bj,

    Káthia Junqueira - 25/02/08
  7. Custódio, pela própria natureza, não tinha medo dos castigos de Deus. Quem ensinou a ele que o medo pode fazer dormir foi a bruxa das letras Ana Cláudia Calomeni. Belo texto!

    Francisco Dandão - 28/02/08
  8. parabéns!

    gostei do conto; gostei concordando com o Arnaldo: espero que isso seja só um “aquecimento”. você parece ser capaz de mais, Ana. siga escrevendo com constância, aprimora o teu trabalho, pois valerá à pena. as cenas e o personagem são realmente muito bons, porém creio que é possível melhores ainda mais a narrativa, explorar mais psicologia do Custódio.

    abraços

    João Barreto - 29/02/08


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