A cegueira de Bentinho
Igor Henrique Sternieri
Cena 1
As cortinas vermelhas de tecido caro se abriram, tornando a nudez da minha intimidade palco, voz e atuação. Solitariamente, eu via uma profusão de cores ao meu redor, compassando melancolia em fortes acordes fúnebres. Não havia réstia do vermelho das cortinas, o mesmo vermelho que tanto me acalentava. Meus olhos, depostos de qualquer proteção, não conseguiam situar-se em meio à ciranda de roxos e púrpuras que o iluminador jorrava na minha face. Num primeiro instante, a minha momentânea cegueira não me permitiu contemplar a lotação quase máxima do espetáculo. Fechei os olhos.
Cena 2
O salão estava vazio, completamente vazio; só vácuo entre a minha pele e os objetos, mas eu sentia que algo devia estar errado, não era para estar vazio, não naquela noite em especial; eu me lembrava do quarto escuro, cuja cama rangente fora pousada de vários pesadelos anteriores na infância; no susto do ranger do estrado já velho, eu via medos interiores abafados pela falta de coragem de abrir os olhos; eu só via poltronas almofadadas todas vermelhas, pareciam tão confortáveis, mas nenhuma delas possuía mãos ou braços ou olhos ou corações, não naquela noite, justamente naquela noite de céu azul claro e lua quarto crescente; a minha esperança só diminuía; o numero oito vazio; já se passaram quase sessenta segundos de ausência, o ar estava pesado, com fumaça a minha frente, parecia que tudo ficava embaçado e eu não enxergaria mais nada, embora eu já estivesse presenciando o nada naquele instante; mais dez segundos se passavam e a poltrona vazia penetrava meus olhos cegos que eu gostaria tanto de esquecer.
Cena 3
— Quase nunca tenho a tua companhia e quando tenho só vejo tua cegueira intempestiva – dizia uma jovem loira de cabelos encaracolados, olhos castanhos, face delicada, sua voz apresentava desespero e desesperança. Os lábios dela, fortemente avermelhados, contrastavam com as pequenas mãos de unhas sem esmalte e de toque quase imperceptível. Os pés descalços, também pequenos e delicados, dirigiam-se para próximo de mim. A minha respiração ofegante dizimava a poeira do chão abrindo passagem para aqueles passos. Eu queria direcionar o caminho daqueles pés, de forma que, independente do tempo a ser percorrido, eles sempre chegassem, exclusivamente, até mim. Aqueles passos eram meus. O mapa daquele trajeto fazia meus olhos cegos brilharem, sentirem-se vivos, contrapondo-se a todo o resto do meu corpo.
As luzes púrpuras que tanto me desagravam foram desligadas, refletor por refletor. Mas meus olhos nem sentiram muita diferença nem agradeceram prontamente; a ausência do vermelho já começava a ser sentida pela minha pele; minhas mãos de unhas sem corte não mais tendiam a proteger minhas íris. Eu só tinha olhos para os passos que desbravavam a crueza daquele chão, cujas vísceras começavam com a cera da vela do espetáculo do dia anterior, compenetrada e arraigada próxima aos meus pés. Silêncio entre nós.
Cena 4
A poltrona de número oito vazia me lembrava do silêncio da última conversa que tivemos, tão solitária quanto profunda, os olhos se confundiam entre a melancolia derramada dos olhos castanhos dela e a decepção da minha voz abafada por pensamentos impuros, transbordados da minha desconfiança; não que não houvesse imperfeições a serem discutidas, mas aquela erupção momentânea de descontentamentos deixava evidente que as pragas a serem colhidas eram maiores do que a força da natureza poderia propiciar de bom; o silêncio dela implicava em ausência me deixando sozinho com a minha ira e com a minha visão solitária de mim mesmo perdido naquela cegueira.
Cena 5
Eu via os pés a menos de meio metro de mim. Os olhos dela não pareciam ter a intenção de proferir qualquer palavra que fosse. A fixação do meu olhar, embora fosse o que de mais forte eu possuía no momento, não se mostrava suficiente para que o silêncio do diálogo fosse quebrado por ela. Um pisão no delicado pé dela seria um ai roubado que acalentaria meu ego; não passaria também de um falso antídoto, que camuflaria o veneno aparente jorrado pelas minhas artérias, no entanto, a medida exata daquele silêncio não era nítida aos meus olhos. Eu já estava de peito nu e face sem máscaras.
— Jura? — foi o que o silêncio dela e o veneno dentro de mim me permitiram pronunciar.
A resposta foi transparente e ácida; queimou meu orgulho, transformando-o em vergonha, a qual seria, fatalmente, misturada ao pó que os pés dela deixariam para trás. Os passos soaram alto nas minhas retinas, que já ficavam embaçadas. Tentei agarrar o pó com as mãos, no entanto, só senti o vácuo escapulir por entre os meus dedos. Minha respiração ofegante que, anteriormente, abriu caminhos, agora, esculpia o pó em paredes que, provavelmente, aprisionar-me-iam com o vácuo.
Cena 6
Ainda permanecia vazia a poltrona de número oito, tão vazia quanto a casa de meus avós depois de seus falecimentos; eu nunca mais visitei a casa imponente, avarandada, de paredes brancas, piso cor de areia da praia, com um pé de jabuticaba no quintal; a jabuticabeira era o esconderijo da minha tristeza camuflada na infância; apesar de nunca comer as jabuticabas, eu subia em seus galhos para me ver livre das minhas inquietações interiores; eu contemplava os olhos de preocupação de meus avós me procurando, da mesma forma que eu os via procurando meu irmão mais novo, tão arteiro e desbravador de esconderijos nunca descobertos por meus avós; já eu me escondia na jabuticabeira sabendo que meus avós sempre me achariam, até sentia inveja do meu irmão, que conseguia esconder seus medos e bem-aventuranças de todos, ao passo que eu tinha que deixar transparecer falsas melancolias por meio de lágrimas fajutas para ganhar atenção; minha avó amedrontada pedia para eu descer da jabuticabeira rapidamente, com medo de eu ter me machucado ou que algum bicho pudesse me morder; já meu avô sorria velhaco e me chamava para jogar bola, era quando de fato meus medos suplantavam minhas lágrimas, que eram enxugadas rapidamente para melhor encontrar a bola de futebol.
Cena 7
As luzes incididas sobre mim apagaram-se. Não havia vermelho, púrpura ou roxo. Somente escuridão entre mim e o ar parado. Uma vela rolou de uma das pontas do palco, colidindo com a amargura das minhas mãos. Senti um objeto arremessado passar rente a mim. Fatalmente, era a caixa de fósforos. A platéia emudecida fixava seus olhares em mim, de forma que quase nem notaram a luz rosa que vagarosamente iluminou tanto a mim como a vela. As pessoas sentadas nas poltronas só se importavam, naquele instante, comigo. Eu era o centro de tudo.
Cena 8
Os olhares da platéia, embora possuíssem cada um uma peculiaridade, quando juntos me lembravam do mesmo olhar de meu avô, me fitando na jabuticabeira e me chamando para jogar bola; ele parecia conhecer a fundo meus temores e não se fazia invisível quando me via nos apuros que a minha inquietação causava; nunca, em minha infância, escutei a voz de meu avô proferir uma frase direcionada a mim que soasse em tom sentencial, toda vez que minha cegueira fazia-se notar.
Cena 9
Ao acender a vela, contemplar sua cor rosa, ajoelhar-me e bradar por perdão, eu seguia o roteiro do diretor. Ao relembrar a cera da vela do dia anterior, eu me fechava no vácuo, tentando esquecer meus medos. Eu conseguia ver, enfim, a lotação quase máxima do espetáculo, contudo, o vazio da poltrona de número oito ainda me era tão nítido e tão doloroso.
Minha demora na próxima fala arrepiava as pernas e braços dos que estavam por trás da cortina. Eu podia sentir inquietude e apreensão por parte deles, quando minha língua travava e meus olhos pareciam inocentes. Eles não me notavam como cego que eu era.
Cena 10
Relembrar a contínua profusão de erros de dias e dias, que somados já se faziam superiores em número e grau aos acessos ininterruptos de alegria e tranqüilidade, me deixava nostálgico e mais deprimido do que de costume; do mesmo modo já soava a mim burocrática a última meia hora de peça, baseada em desculpas melodramáticas e sermões de uma perfeição que, embora desejada, jamais chegaria ao meu alcance; eu via o meu veneno na cera das velas de cada espetáculo; aquela amostra de imperfeição não me permitia esquecer da minha primeira atuação, na qual eu já era cego, embora, talvez, não o soubesse; minhas falas que hoje se confundiam com a própria natureza, nos primeiros momentos, foram declamadas com torpor de viciado, anestesiado por altas doses de veneno, visto como salvação; eu mirava os olhos de cada um dos que permaneciam sentados a minha frente, procurando o olhar velhaco de meu avô, contudo quanto mais eu procurava, mais eu criava desilusões; quando observadas separadamente as peculiaridades dessas pessoas, me soavam como reprimendas em tom de deboche; algumas particularidades me avistavam como se eu fosse a criança manhosa que se escondia na árvore por mero capricho; aquele público não me conhecia como o meu avô me conhecia, eles também não me notavam como cego que eu era.
Cena 11
A minha triste constatação foi interrompida por um leve toque no meu ombro. Os dedos já me eram familiares, pois, há algum tempo, me tocavam todas as noites. Os lábios vermelhos levemente beijaram-me a face. O silêncio entre nós ainda persistia, no entanto, já não possuía os mesmos contornos pesados de antes. Na verdade, aquele silêncio me era necessário, naquele instante, para relembrar as próximas cenas do roteiro, tão familiares quanto repugnantes. A repulsa que aquele beijo me causava, embora fosse puro e verdadeiro, era maior do que qualquer tipo de perdão que eu merecesse. A cena repetida noite após noite representava tão somente a minha podridão, mesmo que toda a platéia dissesse o contrário, estimulada pela expectativa de um final feliz.
Os lábios vermelhos incitados pelo roteiro excitavam minha pele, tentando entreter minha angústia e meus temores. A delicadeza dos dedos daquelas mãos femininas subia pelo meu peito, eriçando meus pelos, tocando intimamente as sensações da platéia. Eu já não era, naquele instante, o centro de tudo; mais importante do que eu, era o final do casal, que na cabeça de todos, inclusive na do diretor e roteirista, deveria ser feliz.
Cena 12
A face delicada dona dos lábios vermelhos me mirava com uma expectativa muito parecida com a do público, contudo meus olhos cegos corriam para muito além daquela encenação; o olhar dela me parecia vazio como o vermelho da poltrona de número oito.
Cena 13
Eu via a cera da vela no chão, enquanto as mãos dela tentavam inutilmente se fixar junto as minhas. Eu olhava a poltrona vazia e esquecia os lábios vermelhos. Eu deixava meus lábios tocarem os dela. Enquanto a platéia suspirava e o diretor contentava-se com mais uma apresentação, só me era possível pensar no vazio da poltrona de número oito.
Cena 14
Eu assistia a minha avó procurar meu irmão em mais um de seus esconderijos secretos, que somente ele conseguia imaginar; enquanto eu jogava bola com meu avô, eu olhava a cera; os olhos da minha companheira, no palco, se tornavam a única fonte de vermelho de seu rosto; a poltrona permanecia vazia; eu queria que os olhos dela fossem como os de meu avô, eu gostaria de imaginar como seriam meus olhos, caso eu não fosse o cego que eu era, do mesmo modo gostaria de sentir minhas artérias sem o veneno que se infundia do meu peito, mas a cera da vela não me permitia prosseguir com minhas reflexões nem possibilitava que eu não premeditasse, no amanhã, minha contínua prisão e que eu colocasse um ponto final na minha cegueira…
Igor Henrique Sternieri, 20 anos, é estudante do 1º ano de jornalismo da Unesp de Bauru. Suas preferências literárias variam do realismo fantástico de José Saramago e Gabriel Garcia Márquez à polifonia de Milan Kundera. Na música, espera que os grupos Los Hermanos e Days of The New retornem aos palcos o mais breve possível. Principal “vício”: São Paulo Futebol Clube.





Muito bem trabalhado o modo como você conseguiu passar as emoções do personagem ao mesmo tempo em que mostrava a multidão sem importância para ele.
Você tem textos em outros lugares? Gostaria de ler mais.
Parabéns!