Metamorfose
Zingarah
Desde muito cedo aprendera a tomar conta de si mesma. Sem qualquer memória agradável a respeito daqueles que a haviam criado, sempre estivera decidida a vingar por conta própria. Crescera pelos cantos da casa, equilibrando-se sobre as rebarbas e as bordas que os outros rejeitavam ou sequer consideravam ocupar. Nada tinha de seu, a não ser algumas poucas coisas indispensáveis.
A princípio, sentira-se soçobrar em um mar agitado. Com o tempo, adquirira a capacidade de permanecer sob a superfície da própria existência, observando. Via, e então acomodava o que via em suas caixas de guardados. Eram grandes caixas coloridas, todas forradas com tecidos estampados. Havia estampas de flores vermelhas, de flores azuis e amarelas, de pequenas formas geométricas. As suas preciosas caixas, que continham a sua coleção de retalhos de vida, ela as guardava com extremo cuidado, pois eram tudo o que tinha de seu.
Os dias sucediam-se em um vagar uniforme e retilíneo. Os outros não a viam, e ela se sentia feita de ar, de névoa ou de coisa nenhuma. Afinal, quem iria dar importância e atenção àquela criaturazinha sem relevo?
Cada qual, muito entretido com a própria vida e os próprios cuidados, seguia a sua rotina bem delimitada. Os outros acordavam, cumprimentavam-se, comiam, saíam para seus afazeres na rua. Muito sérios e compenetrados. Viviam, movimentavam-se, retornavam à casa para as horas noturnas. Riam, festejavam e eventualmente até discutiam. Mas nunca era o caso de se dar qualquer reparo a ela. Ela estava ali, não era certo? Vivia, também, não estava claro? Não era ninguém especial, era apenas uma criança um pouco crescida, que por alguma circunstância a vida se encarregara de deixar por ali. E que importância têm as crianças? O mundo verdadeiro, real, é aquele dos adultos sérios, trabalhadores e cheios de responsabilidades! Daqueles que se movimentam o dia inteiro, de lá para cá, agitando-se em torno…do quê, mesmo? Enfim, quem disse que precisa haver outro objetivo além do prover da subsistência e do seguir das horas? Tudo tão… perfeitamente encadeado. E ponto final!
Mas ela estava, de fato, ali. E dentro de sua concha de carne pequena e quiçá um pouco frágil, por detrás daqueles imensos olhos claros e interrogativos, havia muito mais…Havia as suas caixas de segredos, guardados e depositados, prontos e à disposição. E, quando os seus olhos contemplavam os seus preciosos recortes de vida, eles se arregalavam ainda mais. Destampando suas caixas coloridas com cuidado, seus pequenos dedos revolviam coisas estranhas e incongruentes entre si. Percorriam amores, sedosos como flores no fim do outono. Roçavam ciúmes, esverdeados como serpentes famintas. Resvalavam em ódios profundos, negros e ácidos como lodo. E o seu espanto crescia, enquanto manipulava verdades, equívocos, omissões e deslavadas mentiras. Chegava a ficar sem fôlego, quando se deparava com o maquinal movimento dos dias, a interminável e incompreensível seqüência de vazias atividades cotidianas, que todos se debatiam em cumprir e considerar aceitáveis. Tudo aquilo, mais os segredos depositados em suas caixas de guardados…como alguém poderia crer? Como alguém poderia querer?
E como podiam não dar nenhuma importância a ela, justamente ela que sabia de tantas coisas? E que não podia sequer falar, porque não lhe davam vez nem ocasião? Ademais, quem iria querer ouvir o que uma criança diz? Sentia-se nauseada e cansada. E, para piorar, entre os seus recortes ainda havia espaços em branco, vazios como em um álbum de retratos não preenchido…e esses vazios ela ainda não podia completar. Talvez dentro em breve pudesse…
Mas, como era somente uma criança a quem não davam qualquer importância, e como passou a se tornar incômoda com os seus imensos olhos cheios de muda interrogação e camadas de sofrimento sedimentado, os outros decidiram que ela era perigosa. Porque a cada vez que olhavam dentro daqueles olhos, o que viam era um perfeito reflexo de si mesmos. E então, isso resolvido, ela tinha de ser afastada do convívio dos demais. Quem sabe seria louca? Ah, isso, um tratamento seria o ideal!
O que não sabiam é que ela, sob o silêncio determinado, tinha planos para si mesma. E, no dia em que haviam decidido levá-la embora da casa, encontraram-na já vestida e pronta, muito agarrada às suas poucas e pequenas posses. Posses de nenhuma importância, é claro. Nesse dia exato e fadado, no momento em que diziam coisas incoerentes para seus atentos e bem treinados ouvidos, ela permitiu-se rir e gargalhar. O riso brotava-lhe do peito, da alma, dos cabelos, das caixas empilhadas aos seus pés. E era tão alvo, cristalino e desdobrado, que ela começou a crescer e a desabrochar, ante os olhares mortificados dos demais. A criança pálida e desbotada, a criatura sem importância ganhou proporções de gente grande! Como poderia ela ter crescido tanto, se quase não lhe davam atenção ou carinho? Poderia?
Ali estava, em pé e pronta, pronta e acabada, rindo a não mais poder. E, quanto mais ria, mais se encolhiam os circunstantes, cheios de um medo irracional. Enxugando algumas lágrimas que se lhe haviam pendurado nos cílios pelo esforço do riso, ela retirou todas as tampas de todas as caixas, permitindo aos outros que vissem tudo o que repousava naqueles resguardados espaços. E ela viu os seus rostos de estátuas de sal.
Daquele dia em diante, não foi mais criança, mas não precisou mais carregar as suas caixas consigo. Agora precisava apenas da luz clara da manhã.
Zingarah é advogada e escritora em São Paulo. Escreve na área jurídica e, sob o pseudônimo Zingarah, desenvolve diversas atividades literárias, incluindo seu blog pessoal. Participa da Revista Literária Paralelo 30 atua ainda como parecerista no mercado editorial.




