Incantesimo


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Bárbara Petri

Parada diante da porta, ela repassava todos os passos que a haviam feito chegar até ali. Todas as noites passadas diante do fogo, seu sangue derramado em taças de vinho tinto, a pele arranhada pelos gatos negros que caçara para deles retirar as vidas e o dom de permanecer em pé após cada queda. Sua memória a transportava para cavernas sombrias com o visgo espectral espalhado pelas paredes frias iluminadas por tochas semi-apagadas. Para locais onde somente os lobos poderiam encontrá-la, encontrá-los. E migrava para as rochas das quais lançava o próprio corpo para despistar quem pudesse rastrear seus passos até onde ele estivesse, seu segredo era o sangue percorrendo nas veias daquele humano…

Os vidros embaçados da sala ao lado anunciavam os contornos da ansiedade que ele tentava disfarçar quando a fitava sob a luz. Andando em círculos, parando vez ou outra para conferir as horas, tentando respirar para evitar que seu grito abafado pelos escrúpulos que trazia atrelado às costas irrompesse em meio aos livros que o oprimiam, ele não conseguia imaginar de onde ela viera, nem quais eram os nós que o atavam àquela criatura que parecia saber mais sobre ele do que sua imaginação poderia especular.

Não pretendia acuá-lo, não pretendia fazê-lo sentir qualquer distância ou temor. Vivera séculos para antecipar cada pegada que ele viesse a dar, para tornar o chão mais suave aos seus pés, para lhe servir como ninguém jamais o fizera. Ele a possuía e nem suspeitava que seu silêncio significava a entrega irremediável. Sabia seu lugar e era sob o corpo do homem que a aguardava com a sede dos que temem sorver o antídoto oferecido em estilhaço. Suas têmporas ardiam diante da proximidade de uma ruína. O que aconteceria se ele jamais a reconhecesse? O que faria se fosse impedida de tocá-lo? Como mataria aquela fome que a torturava por anos a fio se ele lhe pedisse para se afastar?

Sua mente a tocava com a sofreguidão de um desejo inexplicável. Não conseguia entender de onde surgia a necessidade de sentir o cheiro dela, a textura da pele oculta pelas roupas finas que ela escolhia minuciosamente para afligi-lo ainda mais. Gostaria de mortificar a si mesmo cada vez que se permitia pensar nos detalhes do corpo dela, nos sorrisos lançados entre as palavras agudas, no balanço dos quadris ao caminhar para longe dele. Queria rasgar a própria roupa como um renunciante enlouquecido, fugir para proteger-se de suas vontades, para protegê-la de sua aflição ancestral.

Porta aberta. Diante de seus olhos, somente o ar, rarefeito. Entre seus corpos, o calor inebriante da ausência de sons desnecessários. Suas mãos traçavam caminhos precisos, caminhos reconhecidos, antigos. Em suas bocas, vozes sussurradas falavam idiomas extintos, promessas feitas através do tempo. Além de todo o espaço, apenas um ser. Na cúmplice escuridão, gozavam eras, desfazendo karmas, liquefazendo cada átomo do que os separava. Agora, livres, retornavam para sua morada original: o ponto exato entre o abismo e o resgate.

Bárbara Petri, 27 anos. Integrante-moderadora de um conjunto com 29 personalidades, já foi de números, hoje é de Lua. Pensa escrever, enquanto ocupa as iniciais V.B. e devora quilos de Chambinho. Tem mania de erguer a sobrancelha direita, é viciada em música e acredita ser uma X-Men. Escreve em seu blog.

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2 comentários  


  1. Pelamordedeus, como escreve bem essa tal de Bárbara!!! :-) Adooooro seus contos!!

    Will - 14/11/07
  2. Meus parabéns, ficou muito bom.

    Estou atinando sobre os detalhes do conto, os “movimentos de câmera”, o sangue, o que significam… E fico sem jeito de perguntar… porque, afinal, eu também faço isso. Penso que a beleza do texto – pelo menos nos nossos dias – está justamente nisso: as palavras conseguem descrever aquilo que é impossível de se filmar.

    Abraço.

    Dimas Gomez - 16/11/07


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