Dia de visita


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Thomé de Oliveira

Um punhado de água fria levou pelo encanamento a espuma que estivera procurando dentes aos quais branquear. Não havia muitos, e de qualquer forma eles não voltariam a branquear. Na mão estavam outros, postiços, como aquele sorriso que o velho reluzia no espelho. Um sorriso de verificação, forçado, e que aumentava as rugas ao redor dos olhos e nos cantos da boca.

O relógio piscava uma hora ainda tímida que não condizia com a luz difusa que adentrava pelo vitral da janela. A ventania da noite fora forte e provavelmente derrubara alguns fios dos postes. E agora os números do relógio digital pensavam que iluminavam a madrugada. A fiação dos postes decerto estava bastante danificada, porque repentinamente os números pararam de piscar. O mostrador foi tomado por um negrume absoluto. O velho enfiou o dedo no interruptor sujo da parede e nenhuma luz se acendeu. Pior assim. Ele teria que dar um jeito de lidar com o telefone, coisa simples, mas que ele não entendia por não ver olhos enquanto falasse ao aparelho. Mas era seu direito e seu dever. Direito porque pagava a conta de luz em dia, e dever porque à noite haveria velas, mas depois que ele as soprasse a luz teria que ser acesa, e ele poderia ver os rostos familiares dos quais começava a não se lembrar mais. Ele imaginava que o netinho estivesse mudando rápido. As crianças crescem e a gente nem percebe. A nora… Bem. Dessa ele não podia se lembrar muito bem. Mulher de negócios. Sabe-se lá. O velho podia não ser estudado, mas entendia a forma como as pessoas usam de subterfúgios apenas para evitar dizer que não gostam de alguém ou que simplesmente são incapazes de deixar qualquer tipo de sentimento por esse alguém aflorar.

Mas havia o filho. Ah, sim! Desse ele se lembrava bem. Talvez estivessem aparecendo alguns fios brancos nos cabelos, e provavelmente ele não fosse mais capaz de se esconder debaixo da mesa, mesmo assim o velho jamais deixaria de reconhecê-lo. E hoje era um bom dia para fazer essa verificação, porque o velho estava ficando ainda mais velho.

“E ainda bem que agora fazem essas velas em formato de números, caso contrário o bolo seria grande demais para só nós quatro.”

Agora sim um sorriso verdadeiro esticou-lhe os lábios. Era um sorriso feliz, mas que fez com que o velho se assustasse consigo mesmo e que se lembrasse que deveria colocar logo os dentes postiços de volta na boca. Não porque houvesse alguém para vê-lo, pois sua esposa já se fora havia muito tempo, mas sim para que ele mesmo não se visse tão incompleto daquele jeito.

Ajeitou a boca e verificou-se no espelho. Dentro do possível, tudo bem. A luz que se filtrava no vitral brilhou em sua cabeça nua e chispou nos ralos fios brancos. Penteou esses vizinhos distantes e depois foi o perfume, provavelmente vencido, mas que sustentava algo parecido com o cheiro do desejo de proximidade. Ia adentrar o dia de espera, mas lembrou-se que a barba era um empecilho inerradicável. Voltou e fez com que a lâmina do barbeador transformasse a rudez de seu rosto em algo que fosse fruto da natureza e não do desleixo. Agora sim. Estava pronto para o dia de espera. E seria um longo dia.

Tomou seu café da manhã ouvindo os ruídos do dia que ia crescendo para o resto da cidade. Provavelmente dentro das casas havia pessoas que, como ele, nada fariam a não ser esperar que o dia passasse, mas mesmo esse pensamento naquele dia não era capaz de transportar o velho para a realidade de seus dias anteriores. Hoje era seu aniversário, e seu filho havia dito que viria e que traria o bolo. Esse algo especial, esse dia especial fazia com que o velho não se lembrasse de todos aqueles anteriores, que já se empilhavam em quantidade suficiente para que ele perdesse as contas e que traziam a cada alvorecer o desejo de que tudo acabasse de uma vez. Não. Não. Hoje não. Hoje a vida estava viva. Hoje era aquele dia tão esperado, o dia que faria com que todos os desejos de morte que o acompanhavam nos últimos anos não passassem de dias ruins. E era engraçado, para o velho, pensar nessa pequenez da espécie humana. Esse sentimento de que a vida, mesmo que construída com tijolos de tristeza, vale a pena. Ele costumava acordar reclamando por não ter morrido durante o sono e achava impossível que um único dia feliz fosse capaz de apagar toda a tristeza de sua velhice.

Muito bem. A vida, esperta como só ela, estava provando que ele estava errado. Ele agradecia a Deus por estar vivo, porque hoje, em seu aniversário, seu filho viria com sua família para que eles cantassem “parabéns a você”, comessem bolo e depois ficassem conversando. O deslocamento de poucos quilômetros, a não marcação de compromissos, a ausência ao capítulo do dia da novela na TV. E a vida do velho era a responsável por isso. Aquele dia em que ele completava mais um ano sobre a Terra era o motivo para que três pessoas saíssem de suas rotinas e fossem até aquela casa de uma só alma para encherem de sorrisos a noite curta, festiva e alegre.

Havia medo. Sim. Claro. Eles iriam embora, e depois a noite viria cheia de espaços vazios pela casa e pelo coração do velho. Ele acordaria no dia seguinte novamente acompanhado apenas pela solidão. Teria que esperar que um pássaro ou uma borboleta viesse voejar pelo quintal para que houvesse movimento em sua existência. Tentaria se interessar por um programa de televisão ou por um jogo de futebol transmitido por uma rádio.

Esperaria o carteiro passar para saber se haveria uma nova conta a ser paga e talvez, quem sabe, a vizinha da frente, aquela de dezoito ou vinte anos de idade, decidisse passar creme hidratante no corpo depois do banho. Seria um dia quente, e nesses dias ela costumava deixar a janela aberta enquanto se cuidava. Era terrível olhá-la nua e saber que jamais voltaria a tocar em algo parecido, mas era um bom passatempo, a prova da insensatez de achar que a vida vale a pena mesmo quando ela não vale mais a pena.

O velho chacoalhou a cabeça e espantou esses pensamentos. Aquele era um dia especial, então nada de pensamentos ruins, porque se fosse para ser assim mesmo nos dias bons, então não haveria a necessidade de dias bons.

Olhou para o interior de sua casa. As roldanas de algumas das cortinas das janelas pareciam ter criado raízes de tão extenso que era o tempo que o velho não as fazia se mover. A maioria dos cantos da casa não poderia sequer possuir sombras, pois as sombras necessitam da luz para existir.

Ele não queria que seu filho visse aquela existência tão escura. É claro que talvez essa constatação levasse o filho a perceber que deveria dar um pouco mais de atenção ao pai, mas o velho era uma dessas pessoas que alimentam em seu coração o amor em sua forma mais verdadeira. Não lhe agradava a idéia de criar culpas em seu filho. Então ele abriu cada uma das cortinas de sua casa. As de seu quarto, as da janela da cozinha, as da sala. Até aquela do quartinho que fora de seu filho quando ainda criança. E a luz entrou.

Iluminou velhos móveis e velhas lembranças. Um menininho correndo e fazendo estripulias pela casa, um quadril jeitoso se remexendo em frente ao fogão. Cobertores e lençóis indo ao chão em madrugadas de fins-de-semana. Na parede dos dias de hoje havia retratos antigos e já meio amarelecidos. A luz que os atingiu fez com que uma lagartixa corresse e se escondesse atrás de um deles. Sorrisos nas paredes. Sorrisos de um tempo que finalmente morreria quando o velho morresse, porque seu filho provavelmente estivesse criando suas próprias lembranças, pendurando retratos de seu próprio filho nas paredes de sua casa e se esquecendo daqueles, de sua infância, que iam definhando em um quarto esquecido.

E essa luz benevolente que entrava era o amigo íntimo do velho. Um amigo ao qual ele não dava muita atenção, mas que reconhecia como grandioso, pois era a luz que mostrava ao velho que ele também havia se esquecido de si mesmo, afinal, quem, estando preocupado consigo mesmo, viveria em uma casa onde havia tantas teias de aranha e traças pelos cantos?

O velho sorriu um sorriso amargo. A culpa era toda dele. Não poderia esperar que alguém desejasse estar em uma casa como aquela, mesmo que fosse por algumas horas, assim como não poderia esperar que alguém desejasse conversar com alguém que nada mais teria a dizer a não ser que o tempo estava seco demais, que as contas estavam altas demais e que as costas doíam demais. O sorriso se esforçou para continuar enfeitando o rosto enrugado. Tentou ser um sorriso verdadeiro, mas não havia motivos. A cabeça do velho ainda estava repleta de espaços vagos esperando para serem preenchidos por boas lembranças, mas essas não se faziam mais. E ele soube que talvez existisse o interesse de seu filho em estar naquela casa e também em conversas. A condição e os assuntos é que não eram desejados.

“Somos todos assim mesmo. Queremos o que as pessoas não podem nos oferecer, e oferecemos o que as pessoas não querem. O que não nos falta são motivos para sermos infelizes.”

Mas do que ele estava se queixando? E por que tantas queixas naquele dia? Tantos outros dias para que ele se apunhalasse, e justo hoje, um dia feliz, ele decidira obscurecer-se ainda mais!

A tristeza é isso. Uma companheira tão fiel e presente que apenas a notamos quando a possibilidade de alegria passa perto de nós. Era isso que o velho estava vivendo. Nos dias comuns ele não tinha o que esperar. A tristeza e a solidão estavam por ali, sempre, e ele se acostumara a elas como um cego se costuma à escuridão. Chegou mesmo a pensar que fosse melhor não esperar nada de bom. Seus dias de felicidade já haviam se acabado, e isso não está errado. Agora era o hoje de outros, um hoje que se transformaria em ontem quando o amanhã chegasse. Nesse tempo o velho não poderia mais sofrer, porque a morte é a salvação de todos os homens. E não há como afirmar que uma vida é completamente feliz. Nos últimos momentos todos somos atacados pelo medo e não nos lembramos do que já passou. A morte nos livra do medo. A morte nos livra da vida. Pena estarmos mortos e não podermos agradecê-la.

Mas na tira de luz que se esticava por uma das paredes do quarto o velho viu a sombra de uma borboleta voejante. Olhou pela janela e viu o céu azul com algumas nuvens passeando silenciosamente. Ouviu, ao longe, o som de uma criança chorando e de carros passando pela rua. E então encontrou o sorriso que ele buscava. Pouco lhe importava que a morte fosse uma salvadora que não recebia agradecimentos. Pouco lhe interessava se os dias passados se replicariam depois daquele dia. O que lhe importava era esse sentimento agradável de saber que algo bom vai acontecer. Ele já vivera isso muitas vezes. Quando era jovem e havia marcado seu primeiro encontro com uma garota, quando sua esposa entrou no hospital para ter um bebê, quando seu filho esteve, pela primeira vez, de frente para o gol, e sem goleiro. E então vieram o primeiro beijo, o primeiro filho e o primeiro gol. Algumas coisas se repetiram, outras não, mas sempre havia esses bons momentos de espera, até que os fins aconteciam, e lá estava a cabeça se enchendo de boas lembranças.

Ele queria mais, queria esse pouco. Esparramaria esse dia nos espaços vazios de sua cabeça para que não precisasse esperar mais nada. Tomaria todo o seu desejo e…

“Fotografias. Vou fazer algumas fotografias.”

E então poderia viver mais um ano com um monte de coisas para fazer sobre o mesmo evento. Revelaria os negativos e farias as cópias. Depois passaria algumas semanas se decidindo sobre quais eram as melhores fotografias e as ampliaria. Uma semana mais tarde voltaria para ampliar todas as outras. Passaria outros meses fazendo molduras de madeira para pendurar as fotos nas paredes da casa, e iria brigando consigo mesmo para se decidir quais eram os melhores lugares das paredes. E então, com a vida assim, repleta de afazeres, outro ano se passaria e ele, talvez, tivesse outra festa de aniversário.

Estava animado. Foi caminhando até o mercado para comprar o filme fotográfico e voltou a perceber que o mundo era um lugar realmente interessante. O vento era gostoso, o sol era confortável e as meninas de saias eram realmente uma bela visão. Até a fila no caixa do mercado era algo apreciável. Um exercício de espera muito útil para os próximos anos.

Depois limpou a velha máquina fotográfica e a deixou ali, sobre a mesa, a convidada especial daquele dia. Lá pelas quatro horas da tarde seu filho chegaria e o velho queria estar prontinho, por isso, depois que almoçou, tomou um banho, vestiu suas melhores calças e sua camisa mais nova e sentou-se no sofá. Dali só sairia para abrir o portão para suas visitas. Ficou pensando que além do bolo talvez houvesse algum presente e ficou tentando descobrir o que poderia ser. Não tinha idéia nenhuma sobre isso. E assim, pensando e pensando, as horas se passaram.

Um homem parou em frente ao portão de madeira e tentou abri-lo. Não conseguiu e percebeu que estava trancado. Então ele enfiou o dedo no botão da campainha e ficou esperando que alguém aparecesse. Na verdade esse alguém só poderia ser uma pessoa.

Dentro da casa o velho olhou para seu relógio de pulso. Quatro e doze da tarde.
Mais um apertão na campainha. Nada. Ninguém

— Deixa eu tocar, pai — pediu o garotinho, e o homem o ergueu para que ele alcançasse a campainha.

Esperaram. Nada. E assim se seguiram mais umas duas ou três tentativas, até que o homem olhou para o garotinho e a mulher que o acompanhavam e lhes disse que deveriam ir embora.

O velho continuou sentado no sofá, esperando. A máquina fotográfica começava a desaparecer na penumbra que ia recaindo sobre o mundo. No relógio o velho viu que a noite já entrara também nas horas. Levantou-se e acionou o interruptor, e apenas quando notou que a luz não chegou lembrou-se de que não havia ligado para a companhia de energia elétrica.

Não haveria bolo.

Pensou em telefonar para seu filho para saber se ele havia ido até lá, mas temia a resposta. Essa questão ficaria incomodando e lhe cutucando a mente e o coração. Se descobrisse que seu filho não havia ido, então a tristeza seria insuportavelmente vitoriosa.

E o velho decidiu que não deveria haver mais aniversários. Acendeu uma vela na escuridão, desejando profundamente que no meio da bagunça do quartinho do fundo existisse uma corda, para que ele não precisasse passar vivo por mais aquela noite.

Thomé de Oliveira nasceu em São Paulo em 1974. Cursou Letras na Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente trabalha como revisor de livros e é roteirista de curtas-metragens para o projeto Curta Química e Natureza. Acabou de lançar seu primeiro romance, Até o fim do dia. Mais informações em seu site.

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