Confluência de rios


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Isabella Kantek

A calçada era larga e ela caminhava com a brisa fresca. As árvores frondosas formavam um caminho de sombra e silêncio. Ela não precisava ter passado por aquela rua, mas sentiu-se atraída. Ela podia ter feito um caminho menor, entretanto o que tinha que acontecer era corrente forte. Muriel teve um dia extremamente cansativo no trabalho, perdeu uma ligação internacional importante porque o seu celular desligou de repente como em outras ocasiões, e no caminho de volta para casa ficou uma hora presa no metrô — problemas no trilho, informaram. Não que ela achasse demasiado ruim ficar no transporte por muito tempo, porque era assim que ela colocava em dia a sua vida, as suas leituras e a sua solidão.

A mulher se encontrava na esquina com um pedaço de papel na mão. E pedia um pouco de lágrimas. O seu cabelo era levemente cacheado e a pele, um amêndoa que refletia a luz do sol. Vestia um sari branco e cinza e por cima uma camiseta cortada na altura da cintura, um azul sem nuvens. Devia ter uns quarenta anos, apesar de aparentar cinquenta. E um rosto saudoso de infância. Muriel aproximou-se dela devagar, tentando entender a cena que ela ajudava a compor, e com a mão direita na bolsa fingiu procurar por alguma coisa, casualmente. Qualquer coisa que a levasse para longe daquela situação embaraçosa, que inspirava tristeza. A mulher não notou a tentativa de fuga fortuita da Muriel, e esticou o seu pescoço como quem estende o braço. Saudação.

“Escuta, estou falando”, disse Muriel ainda com a roupa informal do trabalho. Uma saia de algodão rodada e uma camisa verde decotada.

“Você está falando, e eu estou ouvindo, como sempre. Só ainda não entendi aonde você quer chegar”, replicou Eduardo ao mesmo tempo em que trocava de canal, deitado no sofá da sala.

A televisão estava alta. Alta demais. E a conversa foi interrompida por um barulho forte que vinha do andar de baixo.

“Eduardo, por favor, diminui o volume desse aparelho. Você quer que o Seu Crescencio vá reclamar de nós dois novamente para a síndica do prédio? Ou prefere que ele faça um rombo no nosso chão com a vassoura?”, disse Muriel sem paciência. A sua roupa amassada denunciava o dia longo que havia ficado para trás quando ela entrou no elevador, apesar do seu rosto cansado ainda dar sinais de atividade.

“De verdade? Um rombo no chão até que não faria nada mal. Você está bem? Estou te achando um pouco estranha, preocupada”, falou Eduardo metade interessado no assunto. Na TV um repórter entrevistava, banalidades, a mãe de uma atriz que tinha sido internada em uma clínica para dependentes químicos.

“Sim, estou. Você vai continuar me escutando assim de qualquer jeito?”, perguntou Muriel enquanto retirava do armário uma toalha limpa. No final, escolheu uma laranja grande, felpuda.

“Então, você pensou em trazer para casa uma pessoa que encontrou na rua, é isso? Da mesma forma que você trouxe aquela criança no ano passado? Parece até que você esqueceu que o menino fugiu de casa depois de uma semana com o dinheiro do aluguel na manga e o seu cordão de ouro”, disse Eduardo exaltado.

“É, eu pensei em trazê-la para perto de mim. De nós, digo. Mas eu não saberia como lidar novamente com as sociais e as discrepâncias depois de tudo o que aconteceu com o Martinho”, desabafou Muriel com a toalha de banho na mão.

“Você está bem, Muriel?”

“Sim, eu sempre estou. Você sabe disso.”

“E porque você não me ligou hoje na hora do almoço? Você está bem, mesmo?”, insistiu Eduardo. Seu olhar se perdeu longe na tela do televisor. Incomodos.

“Sim, pela terceira vez”, disse Muriel de costas.

Quando Muriel a viu pela primeira vez, pensou que ela estivesse na esquina esperando por alguém. E cada carro que passava por elas, ou que estacionava por perto, causava agitação. Houve uma vez que um casal bem vestido, de meia-idade, desceu do carro e caminhou na direção das duas. O homem de terno andava na frente e a mulher, de sari de seda, atrás. E eles olhavam fixos para a mulher que sorriu de volta um sorriso interrompido. O casal seguiu em frente, não só eles como tantos outros. Uma grandeza constante da qual podemos nos aproximar indefinidamente sem nunca a atingir. Desencontros. Com o tempo, Muriel notou que ela estivera sempre alí, esperando, suplicando pelas verdades acidentais que as pessoas ao seu redor não queriam reconhecer. E o seu olhar foi crescendo abismo no da Muriel.

Havia algo de rítmico no semblante da mulher, na sua postura. Uma fragilidade humana que ela, por instinto, colocou para fora. Para os outros. Suas mãos tremiam e conversavam barbaridades no peito. Duração ordinária da vida. Muriel aparentava vinte e cinco anos de idade, porém tinha trinta e seis. Sua pele, um bege desbotado. O jeans era curtido e a bata larga abotoada à frente, na altura das suas incertezas. O seu rosto não pedia infância porque essa havia sido longa e o seu eu eram tantos outros impacientes.

“Hoje ela estava lá na esquina de novo”, disse Muriel.

“Você ainda não desistiu da idéia?”, perguntou Eduardo. O microondas apitou quatro vezes até que ele retirou o seu prato de comida do aparelho e voltou para a sala onde assistia o noticiário local.

“Só estou contando”, respondeu Muriel enquanto mordia uma maçã.

“Você vai me contar se alguma coisa acontecer?”

“Claro, eu sempre falo”, disse Muriel.

“Mesmo? Você vai me ligar ou eu vou ter que ligar para os seus pais? Sua mãe l—“

“Vou, já disse. Eu não vou ligar para ela agora”, respondeu Muriel enquanto tentava abrir as correspondências com apenas uma das mãos. A esquerda, mais adestrada.

“Vê o rio”, disse Clara, uma menina de seis anos que voltava do parque com a sua mãe. “Eu já disse, minha filha. O rio ficou para trás, lá no parque. Vê, aquela é uma mulher, esperando um taxi”, falou a mãe. “Você vê o rio?”, perguntou Clara mais uma vez. “Clara Maria, por favor, chega de perguntar isso. Estou cansada, anda, vamos logo para casa. Vamos, vamos”.

Clara caminhou de costas, um pé de cada vez. Quase parando. Ela parecia fazer isso toda vez que estava com a sua mãe. As crianças e as suas brincadeiras insistentes e significativas. De vez em quando parava para cutucar as formigas com um graveto que havia trazido do parque. Sua mãe andava frenética, mais para frente, e de tempos em tempos virava o rosto para verificar se a filha estava bem. O vestido, virava junto. E na mesma sintonia, Clara cantava em um tom de voz baixo: “vê rio, corre rio, mulher rio que a mamãe falou, pega taxi. Um rio, dois rios, você vê rio”.

“Olha, olha mamãe. Parou um taxi para levar a moça, mas parece um carro de polícia. Por que você disse que a moça estava esperando um taxi?”. “Clara, eu não vou falar de novo, vamos para casa agora e pára com isso de rio, taxi polícia…”.

Em casa, Clara contou para o irmão mais velho sobre o incidente no trajeto de volta do parque. Contou como os homens a colocaram para dentro do carro, tudo um tanto confuso para a menina, e do adeus com as mãos que ela trocou com a mulher. “Você acha que a mulher era malvada? Ela até deu tchau pra mim?”, perguntou Clara. “Eu não sei, não a vi, o que você acha?”, perguntou de volta o irmão. “Não sei, mas a roupa dela parecia um vestido e era azul, igual ao rio que corre na frente do parque. E se você a tivesse visto, você ia achar o que dela?”.

O curso de água natural, abundante ou não, que desemboca em outro curso de água, não fala. Quem a brotou alí, nascente, na esquina entre as árvores opulentas, sabia das dores um muito pouco. Por que para cada sofrimento físico ou moral existe um outro em construção. Vidas reviradas. Tormentas.

Muriel evitou sair de casa no feriado e andar por aqueles lados. As suas inseguranças corriam caudalosas e ela se sentia responsável e em falta com o seu. Próprio do homem. Nunca escutou a voz da mulher, uma única palavra. Não precisou. E quando floresceu, Muriel retomou o seu trajeto e uma certa serenidade transbordou. Que nasce e começa a aparecer. Do lado do sol, oriente. Maré cheia.

Isabella Kantek nasceu em 1979 e é formada em Letras pela PUC-SP. Atualmente, mora em NYC, onde escreve ficção tamanho P, M e G entre uma refeição e outra, com uma criança a tiracolo, algumas camisas para passar e três vidas para administrar. Mantém alguns blogs, entre eles o Desmemorium.

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2 comentários  


  1. Que coisa linda esse texto. Achei belíssimo.

    [ ]s

    Elton Pinheiro - 18/11/07
  2. Muito obrigada, Elton. =)

    Isabella Kantek - 19/11/07


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