Cenas de um caso


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Ro Druhens

I. O primeiro encontro
Ela: Foi numa festa, na casa de amigos comuns. A dona da casa nos apresentou e de cara fiquei chapada por aqueles olhos verdes, aquele olhar de fim de noite, aquele sorriso meio cínico. Conversamos a noite toda e, quando eu disse que ia embora, ele pediu meu telefone. Acompanhou-me até o carro e ligou no dia seguinte, domingo, bem cedinho…

Ele: Foi numa festa, na casa de um amigo. Quando vi aquela bunda de dançarina de pagode, aquelas pernas de campeão de triatlon, pedi que me apresentasse. Ela falou a noite toda e, de repente, disse que ia embora, acho que queria que a levasse em casa. Fui até o carro e ela me deu o telefone. No dia seguinte, domingo, de madrugada, eu na maior ressaca, ela ligou…

II. A primeira transa
Ela: Foi na casa dele, uma semana depois. Ele havia me pedido um livro emprestado e fui até lá, num sábado à tarde, levar o livro. Começou um temporal e eu fiquei, esperando a chuva passar. Ele abriu um vinho, acendeu umas velas, veio manso, passou a mão nos meus cabelos, disse que eu era linda. Foi tudo tão romântico como se nos conhecêssemos desde sempre…

Ele: Num papo, pelo telefone eu havia feito um comentário qualquer sobre um livro, nem lembro qual. No dia seguinte, sábado, à tardinha, toca o interfone e o porteiro avisa que tinha uma moça lá embaixo, toda molhada de chuva. Mandei subir, achei que fosse a modelo da noite anterior. Não era. Era ela e o livro. Fazer o quê? Comi.

III. A primeira briga
Ela: Nunca brigamos! Claro que discutimos a relação diversas vezes, “a nível de” pessoas, enquanto casal. A reengenharia da relação, entende? Homens são de Marte, mulheres são de Vênus e tentamos encontrar um planeta em comum onde sedimentar o afeto, interdisciplinar os sentimentos. Tudo uma questão de culturalismo.

Ele: Nunca brigamos! Ela falava e eu ouvia. Me concentrava na bunda dela, nos peitões e nunca dei a menor importância ao texto. Tudo acabava na cama mesmo.

IV. Fim do caso
Ela: Não creio que tenha tido um fim, nós nos completamos, somos, sobretudo, grandes amigos. Demos um tempo porque ele precisa maneirar a ansiedade, a compulsão, essa coisa de me amar tanto, de me querer a toda hora. Só um tempo.

Ele: Não teve um fim porque nunca teve um começo. Foi mais uma dentre várias. Mais chata, é verdade, mas só mais uma.

Ro Druhens. Nasci, um dia. Um dia, vou morrer. Entre isto e aquilo, tudo o que vier é lucro. Um prêmio: primeiro lugar no concurso Ferreira Gullar para poesia em língua portuguesa, promovido pela Editora Uapê, em 1999. Um livro: Alguns Contistas Contemporâneos (Editora Uapê-RJ). Vários heterônimos como se fosse “uma” Pessoa. Eu, uma pessoa que escreve a vida, tentando a vida reescrever.

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1 comentário  


  1. Muito verdadeiro esse texto! Adorei!

    Márcia do Valle - 19/11/07


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