A noite em que o Big Brother caiu
Diego Viana
Era quase meia-noite, eu assistia ao meu Big Brother pela TV a cabo, no quarto escuro, deitado de cueca, largado por cima dos lençóis, com uma latinha de cerveja estupidamente gelada apoiada na barriga, que é como eu gosto. Quer dizer: tudo ia às mil maravilhas.
Digo isso porque na minha TV a cabo tem um canal exclusivo, espetacular, só para assinantes, e que é o único que mostra tudo que acontece na casa dos bróder. Você tem acesso a tudo, tudinho, que quiser. Custa uma grana a mais, tá certo, mas você escolhe a câmera e fica lá, 24 horas, vendo a Neide se trocar e o Peixe, meu ídolo, dar uns cascudos naquele cabeção do Wilson. (Não sei como essa bicha ainda não foi eliminada.)
Era o momento mais importante da edição, a nona ou décima. Eu não podia perder. Já vinha acompanhando desde o começo, e deixei de sair pra balada com o Alê, o Cabeça e o Dã pra ver o Big Brother daquela noite, porque sabia, tinha certeza absoluta, que a Gerusa, ô gostosa, ia finalmente dar pro Peixe. Na frente das câmeras! Manda ver, Peixe! Você merece!
Não preciso nem contar como as coisas estavam indo, né? Todo mundo sabe o que acontece no Big Brother, todo mundo vê. Não tudo, como eu, que tenho todos os canais. Mas vê. Então era isso: rolando o funk, cerveja na faixa, à vontade, todo mundo ali, pá, Gerusa rebola, Peixe só olhando. Todo o pessoal, aliás, olhando. E babando.
Mais um funk, não podia ser melhor, a letra diz: “Vai, esfrega, esfrega, se esfrega no amorzinho”, e a Gerusa, que não é nada trouxa, chama o Peixe pra dançar. Ele é malandro, finge que não quer, dali a pouco tá ele lá, com ela, e a Gerusa se esfregando, esfregando, ô delícia! Que inveja! Manda ver, Peixe!
Uma pausa no funk, Gerusa vai buscar uma cervejinha pro Peixe. (Quem não gosta de ser mimado? Eu queria ter um avião desses, viu!) E lá vem aquele corno do Wilson pra falar com ela, todo serelepe, todo pimpão, que panaca… Vai se foder, ô babaca, não percebeu ainda que ninguém quer saber de você? Ela dá o maior perdido no cara, que fica lá, parado, manezão, com cara de tacho. É isso aí, Gerusa! Chupa, Wilson!
Puta que pariu, que tesão.
Aí, de repente, o Peixe “cansou” de dançar, bem entre aspas, e foi pro quarto. Era só uma questão de tempo até que a Gerusa desse uma desculpa qualquer e fosse também, bem entre aspas, descansar um pouquinho, tadinha. Cansadinha, a Gerusa.
E foi aí que deu merda. No começo, eu não entendi o que tinha acontecido. Estava atordoado. Na televisão, em vez de Peixe e Gerusa dando umazinha, era só chuvisco. Porra! Que ódio! Preto e branco. Um chiado insuportável.
No começo, eu não conseguia nem me mover. Nossa, meus músculos estavam dormindo. Acho que eu estava parado na mesma posição desde a hora do almoço. Depois, deu um formigamento. E eu consegui me levantar. Porra, que dor nas costas! Mas o que mais doeu foi meu coração, quando vi que o botão do receptor da televisão estava vermelho. E, pra piorar, piscando. Porra, mas é um desastre! Um desastre! A TV a cabo caiu! Que merda!
Eu queria morrer. Não sei por que me veio uma esperança idiota de que a televisão aberta estivesse passando o Big Brother. Imbecil! É claro que não, e mesmo se estivesse, não mostraria as cenas ex-clu-si-vas pra assinantes, que só eu podia ver, porque sou assinante e ex-clu-si-vo. Peguei o controle remoto, que delícia de sensação, e apertei o primeiro botão. Isso é pra aprender a não agir sem pensar: o primeiro botão era o Dois.
Porra, logo o Dois?! Deus deve estar me castigando por querer ver a bimbada da Gerusa, aquela gostosa, com o Peixe. No Dois estava passando uma porra de um noticiário. Tinha um prédio esquisitão, redondo, enorme, pegando fogo, e depois um almofadinha de terno e orelhas enormes, com a cara toda vermelha, reclamando de um desastre em Angra dos Reis. O cara berrava que nem um cabrito.
Problemão em Angra. Gente no iate e um paredão de concreto pegando fogo. Porra, eu lá quero saber de Angra dos Reis? Por mim, podia ser na China, em Osasco, sei lá, não quero saber.
Em desespero, apertei o “Off”. A televisão ganiu, piscou como uma máquina do tempo e ficou preta. Que coisa bizarra! Vai ver que era mesmo uma máquina do tempo. Comecei a tremer e suar frio. Pensei que podia estar louco, e parece mesmo, mas eu juro, juro de pés juntos que, naquele instante, o tempo parou.
Eu mesmo fiquei congelado, em pé no meio do quarto. Minha cabeça zumbia como a sala de computadores de um filme de ficção científica, daqueles velhos, toscos pra caralho. No quarto, nada se mexia. Nada. Quando a televisão não funciona, o movimento morre. É tenebroso, e eu sentia medo, muito medo. Sei lá do quê.
Aos poucos, fui percebendo que vinha um barulho de algum lugar. Eram sons que eu conhecia. Eles foram crescendo aos poucos, tomando o lugar do meu zumbido interno. Acho que era o tempo que voltava a andar. Foi um alívio. Voltei a poder movimentar os braços. Puta merda, eu estava com o coração na boca.
Comecei a entender que barulho era aquele. Eram buzinas e motos. Vinha da rua. O trânsito devia estar engarrafado. Minha respiração começou a voltar ao normal, e percebi que queria ir ao banheiro. Muito. Mais um pouco e eu molharia a cueca. Muita cerveja… muito tempo parado… na mesma posição… Pois é. É nisso que dá.
Quando voltei do banheiro, estava mais tranqüilo. Aliviado. Lá fora, a algazarra do trânsito continuava uma loucura, mas eu não estava nem aí. Estava tranqüilo, tranqüilo. Entrei de novo no quarto e vi que a latinha de cerveja tinha caído no chão quando me levantei correndo. Que sorte, estava vazia.
“Escapou de boa, hein, Neusa!”, foi o que pensei. Neusa é a faxineira, um amor de pessoa. Faz uma farofa que, pelo amor de Deus,…!
Pena que é baranga.
Como disse, eu estava tranqüilo. Sentei na cama pra continuar vendo meu Big Brother e aquela sacanagem toda. Fazia um certo frio, então vesti a camiseta que estava ali, no meio da bagunça, desde que a Neusa passou por lá da última vez. Coitada. Peguei o controle remoto, e só então vi, no receptor, que o botão continuava vermelho. E continuava piscando.
Puta que pariu! Não vai ter TV a cabo? Nada de Gerusa e Peixe no bem-bom? Aí, lembrei do telefone. Corri até a sala, procurei o maldito sem-fio, encontrei ele no meio das almofadas, voltei. Revirei o receptor até achar o número da assistência técnica e disquei.
Atendeu a musiquinha do gás, aquela merda, interrompida de vez em quando por uma voz sexy de mulher, que pedia pra esperar. Por gentileza. Eu esperava, pela maior gentileza, escutando por uma orelha a musiquinha do gás e, pela outra, as buzinas ensandecidas que vinham da rua. Porra, parecia que a cidade inteira estava buzinando! Vou falar uma coisa, é bem insuportável. Dá pra deixar neguinho maluco.
Deitei de novo e fiquei curtindo a musiquinha do gás.
Que butininha.
Deu uma vontade louca, incontrolável, de coçar o saco, meti a mão debaixo da cueca, logo mais estava excitado, antes que eu percebesse já ia tocando uma, ô maravilha, escutando a musiquinha do gás e pensando no que deviam estar fazendo àquela hora a delícia da Gerusa e o Peixe, o rei, na casa pré-fabricada e chiquérrima do Big Brother.
Só loucura, loucura total.
A musiquinha do gás não parava, só era interrompida mesmo por aquela voz que, nossa, que tesão. Mas aí, juro, que doideira, comecei a ter barato com a música. É verdade. Ficar muito tempo escutando a musiquinha do gás começa a dar o maior barato. Porra, que loucura, ninguém me atendia, e eu lá, na maior bronha, sonhando que estava dando uns amassos num botijão de gás, que nem o Peixe estava fazendo com a Gerusa, lá no Rio de Janeiro, lá no Projac.
Acordei da viagem porque tocou o celular, na cabeceira, logo atrás da minha orelha. Tomei um susto da porra. Toda aquela fantasia se desfez de repente, puf, enquanto o aparelho vibrava e tocava uma batida de Trance. Tive de largar minha atividade mais prazerosa pra atender. Era o Cabeça, com sua voz meio fanhosa e inconfundível.
— Está vendo o Big Brother, maluco? — ele perguntou.
Como eu, ele tinha trocado a balada com o Alê e o Dã pela oportunidade única de ver o Peixe dar um pega na Gerusa, de jeito, assim como ela gosta.
Eu não quis abrir o jogo e admitir que estava sem televisão, perdendo a trepada do século, tendo que imaginar toda a cena pra ficar excitado.
— Estou — respondi. — Porra, que animal, hein?
O Cabeça não respondeu de cara. Fez um silêncio. Finalmente, ele mandou.
— Esses dois, hein? Que baixaria!
— Animal, animal!
— Acho que ninguém nunca foi tão explícito!
— É, não que eu me lembre.
— Pô, mas nem pra esconder com um lençolzinho, como todo mundo…
Comecei a ficar com inveja do Cabeça, que podia ver tudo que estava acontecendo, e eu não. Mas não queria dar bandeira. Comecei a descrever a cena como ela devia ser, isto é, como ela era na minha imaginação. Ele também descrevia. Nossa narração conjunta da noite de Gerusa e Peixe daria um filme pornô épico, com a musiquinha do gás como trilha sonora. É uma pena que eu estivesse com as duas mãos ocupadas, porque excitação não faltava.
Esqueci até mesmo das buzinas, motos e agora berros que pareciam subir até a minha janela, vindos da cidade inteira. Cheguei a perder o interesse em ser atendido pela assistência técnica, a tal ponto que, quando comecei a sentir uma coceira no pescoço, usei a antena do telefone pra me aliviar.
Coceira é um negócio filho da puta. Você coça e coça, mas ela, em vez de ir embora, só aumenta. E se espalha. Meu pescoço inteiro estava coçando, os pontos em que eu já tinha me arranhado com a antena doíam de verdade, queimavam mesmo, e eu não conseguia parar. Se tivesse, pelo menos, alguma coisa pra me distrair! Mas a televisão não funcionava, e a imaginação do Cabeça parecia ter se esgotado.
— Maluco — eu lhe disse — Estou com uma coceira filha da puta, não quer passar de jeito nenhum!
— Porra, eu também — ele respondeu. — Acho que estou precisando pensar em tomar banho. Esse negócio de ficar vendo Big Brother vicia, a gente esquece da vida! Nem tomar banho, eu tomo mais!
— Podes crer.
Desligamos. Meu rosto inteiro coçava. Meti as unhas nele, também. Quando afastei as mãos, não só a sensação no rosto era ainda mais incômoda, como vi que, debaixo das minhas unhas, tinha pele morta e sangue. Nem preciso dizer que fiquei assustado. Com esse negócio de ficar horas na frente da televisão, a gente perde a noção da própria força e pode até acabar se machucando. Meu pescoço, então, devia estar uma coisa medonha.
Quando parei de olhar pras minhas unhas, finalmente vi meu braço. Estava cheio de brotoejas. Enormes, horríveis. Desde quando, há quanto tempo estava assim? Não dava pra saber. Levantei correndo, fui até o banheiro e acendi a luz. Foi a pior idéia que tive na vida, olhar no espelho. Meu rosto era todo placas vermelhas, cheio de arranhões e sangue que escorria das feridas que eu mesmo tinha aberto. Tirei a camisa com pressa. Foi bem doloroso. Meu corpo também estava tomado pelas brotoejas.
Tentei pensar no que devia fazer. Procurar um hospital? Com aquele trânsito maluco? Buzinas, motos, berros e, agora, vidro quebrado e sirenes? Eu não conseguia raciocinar. Só vinha à minha cabeça a imagem dos corpos do Peixe, todo músculos, e da Gerusa, toda curvas, naquele movimento de vai-e-vem que eu não podia acompanhar.
Tive, ainda, a esperança de que a televisão, por milagre, tivesse voltado a funcionar. Voltei, conferi o receptor. Nada. Respirei fundo e aceitei o fato de que, naquela noite, eu teria de me conformar com os canais abertos e o jornal do Dois desesperado com o tal acidente em Ubatuba ou Angra dos Reis, ou sei lá onde. Mas ponderei bem: a voz do almofadinha era melhor do que nada. Pelo menos a cara de medo dele era engraçada, quando dizia que a nuvem estava se aproximando.
Porra, o figura tem medo de uma nuvem!
Pro meu desespero, nem os canais abertos pegavam mais. Percebendo isso, fui atingido por uma onda de frio que me fez tremer como um celular com defeito. Era coceira, dor e agora frio. Comecei a ter acessos de tosse. Não conseguia mais respirar. Finalmente entendi o meu problema: precisava de mais televisão ou mais cerveja. Televisão, impossível. Só cerveja.
Chegar até a cozinha foi um suplício. Minhas pernas estavam duras, não queriam se mexer e doíam como se fossem de plástico. A respiração era difícil, queimava na garganta, e eu tinha que parar a cada passo por causa dos acessos de tosse que me faziam pular como um saco de pipoca no micro-ondas.
Finalmente, atingi a bendita cozinha. Abri a geladeira e tirei uma latinha. Foi na hora H. Estava tomando o primeiro gole quando todas as luzes da casa se apagaram.
“Merda”, pensei. “Agora é que não vai mesmo ter mais Big Brother pra mim!”
Pra não ter de voltar até o quarto, deitei no próprio chão da cozinha. Geladinho, gostoso. Aliviava um pouco a coceira nas costas, pelo menos. Eu bebia, apesar da dor na garganta a cada gole. Melhor do que nada. Esse é o meu lema.
Entre acessos de tosse, goles e coçadinhas dolorosas, fiquei escutando o buzinaço ensandecido que vinha lá de fora. Comecei a me acalmar.
Ao mesmo tempo, até a barulheira da cidade, toda escura, começou a diminuir, até que sumiu de vez. Ufa, finalmente. Foi um alívio. O maior alívio que eu já tive na vida.
Irado.
Diego Viana é jornalista e economista. Está há um ano na Paris de carne dura e sangue quente, estudando a filosofia e a vida do Velho Continente. No mundo inverso da internet sem pátria, é Osrevni, e publica dois blogues: Para ler sem olhar e Cálculo renal.





monsieur viana pretendeu escrever como se fosse um espectador do BBB. “saco, merda, irado”. ahã, entendi.
Muito bom o texto. É horrivel quando a gente quer ver alguma coisa e não consegue.
interessante a idéia de eexplorar um tema contemporâneo,louvável também a linguagem solta,livre onde o palavrão flui,apesar de algumas limitações facilmente perceptíveis na técnica devemos parabenizar o autor