Uma vida entre dentes
Raimundo Neto
Ela precisou nascer de mim, da dor e de outras presenças, durante a sessão no cinema — um desenho animado, clássico dos anos 80, que virou filme. Eu, que quando nasci não pedi a ninguém, fui importunado pelos gemidos encorpados, a alegria assustadora, um pedido abusado de uma mulher da cerpa de Felícia Dora. Era seu nome. É seu nome. E ela queria nascer. Morou em minha dor por um mês, confessou-me com juventude, distinção e inconveniência. Narrou meu desaboroso e a incontestável rotina do meu cotidiano com a precisão de quem mora ao lado ou na cabeça de alguém; minhas idas e vindas de consciência e as poucas decisões tomadas diariamente, dessas que um prestador de serviços precisa ter para sentir-se vivo, foram descritas com cinismo e frieza. Felícia soletrou meus atos escrupulosos e infantis no banheiro, e afirmou sentir uma perturbação surpreendente ao me observar cantando no banheiro para uma platéia, imaginária apenas, de centenas de pessoas por azulejo quadrado. Felícia queria nascer urgentemente. Preparava-se para rasgar chantagens e não sedução. Queria vida eterna em dezenas e dezenas de páginas. Ameaçou explodir dentro de mim se eu não contasse aqui sobre ela.
Provou minha falta absurda de coragem; enfiou a língua nos recantos do meu coração; analisou todas as minhas refeições e outros passatempos alimentares sem grande relevância nutricional e constatou, com sílabas conclusivas: “Você não é um escritor, mocinho, é?”. Tinha unhas exageradas, olhar preocupado mas feliz, gesto de mulher de verdade, e o sorriso de quem pretende matar de raiva ou de amor alguém que a renegue. Provou minha falta estranha de sentido. Eu não era mesmo um escritor. “Raimundo? Escrevendo sobre Felícia Dora?”. Soprava sua existência com cheiro de dúvidas. Provei a incrível e indissimulável presença de um personagem obstinado. Provamo-nos. No cinema, silenciar era preciso. No entanto, tornava-se cada vez mais improvável que eu, com um personagem a cutucar-me a existência, e tendo que aceitar púberes exasperados e de costumes pouco humanos gritando, também nas minhas proximidades, mantivesse a boca fechada e não revelasse um ódio frustrado e cansado que tenho por metade dos homens, mulheres, adolescentes que conheço, e de escritores e personagens que já não admiro tanto. Era preciso muito mais que uma página para acabar com nossas vidas; digo, minha vida e a presença de Felícia Dora. Uma caneta cravada no coração de um de nós. Sangue azul, ou de outra cor, manchando quaisquer chances de sobreviver neste mundo estranho e sufocante.
Felícia, prevendo iniciativas suicidas ou homicidas, considerando alguma morte futura, cravou seus dentes no meu pescoço e deixou a saliva escorrer, depois o sangue, e por último sua verdade. Arrancou algum singelo pedaço meu. Mastigou sem fazer barulho. Tomou o restante da coca-cola, com canudinho, sugando concentrada, deixando que o líquido se acumulasse na boca. Com as bochechas como se estivessem inflamadas de coragem, Felícia fez um movimento infantil, permitindo que a coca-cola vivesse entre os dentes e a língua, calculando que o destino de qualquer refrigerante é abusar do esmalte que compõe a boca de uma mulher, de uma personagem. Apoiou as mãos nos braços da cadeira imensa, num movimento grosseiro e mal educado de quem pretende cuspir seus conteúdos, balançou os cabelos para trás, até então escuros, e engoliu o refrigerante e um pedaço meu. Contorceu-se até mim, esquisita, e sorriu arrotando: “Eu sei ser como você, pseudo-escritorzinho!”, e me fez sentir suas propostas, sua indecência, sua história, seu comportamento totalmente inescrupuloso de mulher-personagem que começou a comer homens e mulheres aos dezesseis anos, tendo ingerido seu primeiro ser humano completo aos vinte e dois, quando descobriu que para viver mais uma mulher ou conta-se em um livro ou absorve os conteúdos alheios, os bons e parcialmente úteis, assim, com a literalidade que é possível. Felícia teria que jantar-me qualquer dia desses, depois que eu escrevesse sua história. Precisaríamos de estômago, fôlego e bom gosto literário, suspeitei a princípio.
Felícia Dora é do tipo que morre mais de uma vez: quando algum pedaço humano desce-lhe ao estômago, causando desconforto, evoluindo para infecção intestinal, fazendo-a vomitar a dita parte ingerida, que com ossos compridos, não sai como entrou, lisa e sem dificuldades, causando-lhe asfixia; ou quando prova algum pedaço suficientemente infectado por drogas ou outros venenos contemporâneos e fabricados pelo século XXI ou antes, que infestam a delicada circulação de Felícia. Ou quando ela acredita realmente estar morta. Todo dia um pouco mais. E assim Felícia só se sentiu uma única vez. Foi na época em que experimentou a doce e incorruptível clareza dos pedaços, perna e braço direitos, de Adelaide Elias, doze anos, sua prima. Nunca precisou sentir culpa. O parentesco era de terceiro grau, então não faria diferença cuspir-lhe na cara, roubar suas bonecas, desvirginá-la ou comer seus membros. O que enegreceu suas devoradoras certezas foi a dúvida, a estranha sensação de ter que estabelecer limites, faixa etária, reorganizar suas preferências.
Adelaide foi sua prima mais querida; dessas com quem descobrimos o inconfundível e iluminado prazer de sentir um fogaréu entre as pernas, baixo ventre, interior acolhedor, dedos permissivos e saliva grossa desfilando pelos arredores da boca. Felícia aprendera a amar com Adelaide; porém, uma vez descoberta pela prima, que a viu saborear a mãe e o pai numa tarde cinza e despretensiosa de 1980, teve que castigá-la, prendendo-a dentro de si. “A mão que me fez mulher aos dezesseis anos, e os pés que me conduziram neste vale de infortúnios, agora entre meus conteúdos”. A verdade é que, mesmo maneta e perneta, Adelaide não morrera. Mas, como o tom dos debates e especulações na cidade eram por demais inescrupulosos, e não sendo mais aceita em nenhum comércio, Adelaide se submetera a trabalhar num circo, como atração secundária, notícia amarelada na última página de jornais de segunda. Deixou o buço crescer em desordem, enfeitou os cotocos que sobraram com lantejoulas e outras possibilidades, mudou o nome, viajou centenas de quilômetros para ser desgraçada com um circo. Foi como morrer. Com a dor, e as perdas, da prima, Felícia Dora viu-se renascendo. Um momento único de descobrir a vida: provar pedaços, consumir conteúdos, seduzir corpos e ocupar seus espaços, através de um ato que acontece além de uma simples prática canibalesca. É provável que algum gene mostre-se mordido, alterado, herança de um casamento consanguíneo, de avós macumbeiros, de bisavós ciganos, de trisavós nazistas, de tataravós políticos. “Que seja a genética a causa de minha fome destemida; que seja o tempo um pai acolhedor; que seja um livro o grande consagrador de minha vida! Que seja Felícia Dora a melhor personagem de um bom escritor!”
Não lhe apraz viver cem anos, confessa entre dentes e apertando um pano molhado contra meu pescoço, para estancar o sangramento. Quer apenas sentir-se viva, carne, osso e mordidas. Já comeu tantos homens, mulheres, uma criança e, por vingança, um poodle, que sente-se indubitavelmente sábia, preparada e do tipo “avançada” para seu tempo. Inglês, francês, alemão, japonês, espanhol, mestrado, doutorado, psicologia, sociologia, crítica literária, culinária chinesa, curso de eletrônica, matemática aplicada, livros mal escritos, dezenas de novas posições sexuais, pornografia intensificada, montagem de micro-computadores, edição de revistas, a vida das celebridades incluindo alguns fracassos, manobras arriscadas, dicas para evitar assaltos, idéias para assaltar carros-forte, como ferrar uma nação: tudo em algumas mordidas.
Tentei convencer Felícia de que não era uma idéia regular que eu, comum e sem substância, escrevesse um conto ou romance, ou o que fosse, tendo como personagem uma criminosa fria e mal-educada, ou construir uma estória exagerada e fantástica, sem ser admirável, tendo como pano de fundo um lugar que não conheço e seu passado e perspectivas contemporâneas. “Raimundos não escrevem bem sobre Felícias.” Ela segurou meu braço com força decidida e arremessou-me contra a parede do banheiro do shopping. Não sei explicar sua robustez, nem narrar seus movimentos, apenas relato que foi com um trançar de pernas e um agitar de mãos e cabelos que ela enfiou minha cabeça tola na privada e sentenciou, piegas e sem novidades: “Escreva-me ou te devoro”. Cá estou eu, pretensioso e sem parte do pescoço.
Raimundo Neto, 24 anos. Estudante e Funcionário Público Temporário. Publica contos em seu blog. Faz Psicologia no Piauí, mas vive com a cabeça na Literatura do mundo todo. Não tem livros publicados, não participa de concursos literários e tem medo de elogios. Queria publicar seus contos numa antologia, um romance, e ter uma fotografia na orelha de O livro da minha vida.




