Homem-cão


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André Canevalle Rezende

Suas quatro patas doem como se um bonde houvesse passado por cima de cada uma delas. Os dentes estão em cacos, literalmente. Foi o resultado do desespero e da angústia. Aliás, há quatro dias esses dois sentimentos são seus companheiros, e deles dois Dias não consegue se livrar. Assim como também não consegue se livrar da coceira infernal de suas costas. É sarna, e ela já lhe arrancou um grosso tufo de pêlos das costas e do peito. Os pêlos se foram, mas a coceira ficou, e das regiões mais acometidas já brotam líquidos fétidos e viscosos. O resto de humanidade que lhe resta impede-o de lamber essas feridas. Ele prefere se esfregar em postes e no chão, o que torna o processo de cicatrização ainda mais lento e a possibilidade de infecção maior. E isso lhe causa mais medo e mais angústia.

Dias tenta lembrar de como se meteu naquela tremenda fria. A memória torna-se mais fraca e apagada, é já um borrão. Sabe que lhe resta pouco tempo e que, uma vez transposta a linha que separa o homem do animal, não haverá mais volta. Com tremendo esforço, reconstitui cada passo que deu nos últimos dias, na esperança de encontrar algo útil para traçar um plano de ação.

Terça-feira

Dias era conhecido somente por Dias e somente de Dias era chamado. A terça-feira se passou como um dia qualquer, sem sobressaltos ou extraordinariedades. Negou e concedeu empréstimos, recebeu culpas que não eram dele, resignou-se. Enfim, nada anormal.

No período da manhã, uma senhora jurou que se enforcaria na primeira samambaia a aparecer pela frente, caso Dias não fornecesse o dinheiro necessário para ela bancar o segundo casamento da filha viúva. Saiu sem centavo algum.

No período da tarde, coube a Dias convencer um aposentado de que era ótimo negócio retirar a parcela do décimo terceiro salário ainda em julho, com módicos juros cumulativos de 2% ao mês (a parte dos juros Dias falou numa velocidade que impressionou até mesmo a ele próprio. O pobre aposentado aceitou o acordo impelido pela sua monumental vaidade, pois não queria dar pinta de surdo e pedir a Dias que repetisse a parte dos juros).

Dias chegou em casa à noite, exausto do trabalho. Caiu morto de cansaço em seu sofá de molas soltas e adormeceu como se estivesse deitado numa nuvem.

Furiosas pancadas na porta fizeram Dias acordar num sobressalto que lhe pôs o coração entre os dentes e os pulmões nas narinas. Tremendo, pensava se tratar de um ladrão, já que para bater naquela porta era preciso pular o portão da garagem. “Mas ladrão não bate em porta; arromba, entra e mata”. Esse pensamento atuava mais como convite a abrir aquela porta e sair gritando quintal afora feito louco do que como um calmante. Mas Dias conteve-se, aproximou-se do olho-mágico e olhou. Ninguém! Abriu a porta devagarzinho, pôs a cabeça para fora e correu os olhos pela garagem vazia. E estava vazia. “Os pestinhas antes apertavam a campainha e saiam correndo. Agora eles invadem os quintais.”

— Pestes! — gritou Dias, chamando a atenção dos filhos do vizinho da frente que brincavam na rua. Dando um passo a frente, tropeçou no pacote que depositaram na sua porta e quase deu com a testa no chão.

— Miseraveizinhos de uma figa… Isso é de vocês? É? Pois não é mais! É meu, e não devolvo! — gritou Dias enquanto segurava o pacote debaixo do braço. As crianças não entenderam nada, mas riram da cena ridícula protagonizada por Dias, acrescida de graça pelos cabelos desgrenhados de quem acaba de acordar.

Dias foi até a cozinha e depositou o pacote sobre a mesa. “Até que tem um belo embrulho. Será que é de alguma admiradora secreta? Ou será algum indefeso animalzinho preso aí dentro por aquelas pestes? Não! É muito pesado.” Dias encheu um copo d’água e derrubou-o goela abaixo. Antes de a água bater no estômago, lhe ocorreu a terrível hipótese: “Será que a mulher do empréstimo desistiu de se matar e resolveu me mandar pelos ares com uma bomba? Ou será o aposentado desejoso de vingança pelo engodo?”. Esses pensamentos fizeram Dias dar um salto que deixaria qualquer ginasta olímpico pálido de inveja e qualquer contorcionista circense todo quebrado. Com um só mortal de costas, meteu-se entre o fogão e a parede. O pé esquerdo raspava na orelha direita, a sola direita empurrava a nuca e pressionava o rosto de Dias contra o fogão. O braço direito ficou enfiado num vão da pia. Permaneceu algum tempo assim, mas a dor que a posição causava somada ao terror de sua claustrofobia fizeram-no atirar longe o fogão, que se espatifou contra a parede. Esticado no chão, admirava a amplitude inimaginável que aquela experiência dera à sua cozinha.

Dias levantou-se, colocou o ouvido na parede do pacote, mas não ouviu nenhum tique-taque (para ele, qualquer bomba pode ser identificada por um tique-taque). Resolveu abrir. Rasgou cuidadosamente o papel do embrulho, levantou devagar a tampa da caixa e deu de cara com aquilo.

Era uma bola de metal corroída pelo tempo e com buracos cheios de ferrugem. “Que porcaria é essa?”. Junto com a bola veio um bilhete curioso, que dizia: peça em voz alta e ela lhe dará.

“Definitivamente foram aqueles pestes lá de fora. Mas não devolvo a bola. De jeito nenhum!”. Dias depositou a bola no canto inferior esquerdo da estante, local reservado para presentes de mal-gosto. “Que bolota horrorosa.” Atirou-se no sofá. Antes de pegar no sono, amaldiçoou as molas soltas e a falta de grana.

— Eu ainda assalto aquele maldito banco. Juro! — e dormiu.

Quarta-feira

Os dias de Dias começavam cedo. Às 5 da manhã, ele acordava e lia alguns jornais on-line. Depois, checava seus e-mails e fazia um café-preto bem forte. Tomava banho, caminhava até o banco (ele não tinha carro e não aceitava ir de lotação) e lá ficava, até a hora de voltar.

Naquela manhã, Dias resolveu pular a parte chata de ler jornais e foi direto aos e-mails. Deparou-se com algo que lhe tirou o fôlego: um e-mail de um banco suíço parabenizava-o pela abertura da conta Dusseldorf, na qual estavam depositados 200 milhões de dólares. Imediatamente veio à mente de Dias o recado curioso do bilhete. Decidiu arriscar e acertou: foi a Bola. Fez alguns testes e foi prontamente atendido. Pediu de quadros raríssimos a meias listradas de verde e rosa.

Dias teve o melhor almoço de sua vida, com todas as iguarias que ele apreciava: geléia de casca de mandacaru, crista de galo escocês, suflê de tomate e toda sorte de doces e sorvetes que levariam um bode ao colapso digestivo.

Foi para o banco dirigindo seu importado. Demitiu-se provocando enorme espanto e desconfiança. “É certo que foi ele”, pensaram todos.

Quinta-feira

Dias era a própria expressão da felicidade. Mas nesse dia começou seu calvário.

Teve um régio café da manhã; traçou planos para a viagem, etc. Mas não queria deixar o Brasil antes de se vingar de Mário, seu vizinho dentista. Pensou em mil hipóteses e formas de vingança.

Certa vez, o ex-cão de Dias (ex porque era de sua ex-mulher) passou para o quintal de Mário e roeu a mangueira de combustível do carro. Dias jurou que não havia sido Arch, que Arch estava trancado e tal, mas um exame de arcada dentária feito pelo próprio Mário provou que foi Arch quem roeu a mangueira. Dias desembolsou uma fortuna, brigou com a mulher e acabaram separados. Agora era a forra. E Mário arcaria com o prejuízo.

Seria simples demais apenas desejar que a mangueira rompesse. Dias queria fazer o serviço sujo, e a idéia que depois se revelaria a mais idiota de todos os tempos lhe veio à mente:

— Está decidido. Bola, transforme-me num cão falante! — pediu Dias, ressaltando o falante, para que ele pudesse des-desejar ser cão depois. Esse pedido ia ao encontro de um inconfessável desejo de infância de ser cachorro.

Como de costume, a Bola atendeu Dias. Ao invés de tornar-se um poderoso Doberman, ou um talentoso Boxer, Dias viu-se transformado num modesto poodle branco com laço rosa. Mas deu-se por satisfeito, já que conseguia o mais importante: falar! Saiu tão concentrado que não percebeu a porta fechar-se atrás dele.

Foi fácil para Dias esgueirar-se pelas grades que separavam as duas casas. Em segundos Dias estava sob o carro de Mário. Olhando o assoalho, identificou a mangueira de combustível. Deu uma poderosa dentada e recebeu um esguicho goela abaixo.

Sexta-feira, hoje

Mário acordou cedo, tomou café e foi para o carro. Tentou uma, duas, dez vezes, mas o carro se recusava a pegar. O ponteiro do tanque marcava “vazio”.

— Não é possível, enchi o tanque ontem! — Mário ajoelhou-se e olhou embaixo do carro. Lá estava Dias, bêbado, deitado na poça de álcool. Enfurecido, Mário agarrou-o pelo rabo e o puxou para fora.

Melissa, a filha de Mário que a essa altura já estava com Maria, sua mãe, no quintal para ver por que Mário gritava tanto, ficou encantada com o cachorrinho. Arrancou-o das mãos do pai (que odiava cachorro) e começou a acariciá-lo. Na ânsia de criança que jamais teve cachorro, Melissa acariciava Dias com tanta força que ele mal respirava. Os ossos da mão da menina faziam um cafuné tão dolorido que, apesar de Dias tentar se segurar, acabou soltando um “aiai”. Nesse momento, Melissa atirou o cachorro no chão e começou a chorar. Os três espectadores olhavam admirados para o pobre cão encolhido e acuado. Cifras saltaram dos olhos de Mário:

— Um cão falante! A fortuna nos sorriu! Maria, Melissa, não deixem o cão fugir! — Mário entrou em casa e correu para a maleta de primeiros socorros, onde deixava uma injeção de anestesia geral prontinha para as pacientes mais histéricas.

Voltou correndo para o quintal.

Dias via a injeção crescer, crescer, cuspindo anestesia para todos os lados. Tentou fugir. Mário o agarrou pela pata traseira. Numa luta medonha, Mário segurava Dias e Dias distribuía dentadas. Nesse momento, Mário fincou-lhe entre os dedos do pé a agulha, e o fez com tamanha truculência que Dias não suportou:

— Me larguem! Saiam de perto de mim! Saiam de perto de mim! Saiam!

Maria olhava horrorizada. Melissa estava aos prantos. Mário assustadíssimo. Os três entraram correndo e fecharam a porta. Dias, ainda mais trôpego após a anestesia, se esgueirou quintal afora e entrou em sua garagem. Ainda era possível escutar os berros de Maria ao telefone: — É da polícia? Socorro! Um demônio bêbado tomou forma de cão e está trancado no meu quintal! Venham rápido! Descrevê-lo? É um cachorro falante! Tem quatro patas, dois olhos e um focinho! Cheira a cachaça e grita feito gente louca! Eu não bebi, foi ele…

Meio dopado, Dias deu de cara com a porta fechada. Esticou-se ao máximo para alcançar a maçaneta. Nada. Começou a dar pulos tentando abocanhá-la. O tempo passava, ele ficava mais cansado e mais desesperado. Seus dentes se partiam com o impacto, um a um. Quem passava pela rua achava graça:

— Olhem, um cão adestrado! — exclamavam.

Dias caiu no chão morto de cansaço. Acordou já tarde, e com os instintos caninos tinindo. Sem perceber, fazia agora parte de uma multidão de cães que acompanhavam uma vira-lata pelas ruas. Levou e recebeu dentadas. Quando se deu conta, estava do outro lado da cidade, na frente de um bar, pedindo um teco de sanduíche aos bêbados. Foi chutado. Humilhado. Sempre deixava uma sensação de déjà vu por onde passava.

A foto de Dias estampava todos os jornais, como sendo ele o maior assaltante de bancos do mundo. As manchetes: “Bancário desvia fortuna para o exterior e desaparece”, “Maior assalto da história é cometido no Brasil”, “Banco quebra após assaltado”.

Dias transpôs a barreira do homem para o animal. Chegou num ponto sem volta.

Semanas depois

Dias voltou para casa. Mário, vendo-o deitado na calçada, agarrou-o novamente. Mas Dias não fez esforço para se livrar. Tornou-se companheiro de Mário, e passava tardes inteiras olhando para aquele doutor maluco e decadente que insistia em pedir que ele falasse. Dias não entendia nada. Era agora somente um cão e se chamava Fifi. Volta e meia vinha em sua mente a palavra Dusseldorf. Ele não sabia o que significava aquilo. Lampejos de lembrança o faziam ir até sua antiga casa, cuja porta estava arrombada. Entrava, olhava tudo, mas se esquecia do que havia ido fazer lá. Acabava latindo freneticamente no meio da sala, fazendo Mário saltar o portão para resgatá-lo.

Maria enfiou Melissa num convento antes de ficar louca e ser internada num sanatório.

O dinheiro jamais foi encontrado.

A Bolota desapareceu.

André Canevalle Rezende estuda Jornalismo e distingue perfeitamente ficção de realidade. Lê por profissão e trabalha por lazer. Saudoso de um tempo que não é o seu, rascunha contos e crônicas em uma Olivetti antes de publicá-los em seu blog.

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