Feito cão
Carlos Eduardo Bonini
Chico olhava pelas frestas das portas de metal, esperava encontrar algum cisco de luz repousado no chão da loja vazia. Às cinco da manhã, homem correto não se arrasta pelas ruas. Ele bem sabe disso, mas não teme: conhece todos aqueles que têm trânsito por seus lados, vira-latas dos mais festivos ou dos derrubados pela lassidão. Ajoelhado na calçada — a fuça embicada no vão franzino —, tentava segurar a mochila magra, que insistia em pender para os lados. Nada havia para se ver dentro do prédio, o andarilho abraçou seu fardo e seguiu costurando a guia da calçada.
As lixeiras trazem consigo uma fração da alegria possível, espalham-se assimetricamente pelas calçadas — coloridas, vivas, finitas. O homem estacionou na frente de uma, enfiou as duas mãos de uma vez — sanha que só se desperdiça com baús recheados de pedras brilhosas e jóias de família. O cheiro que emerge do detrito gasto sempre lhe traz lembranças, por segundos lhe vem a merenda do primário: bisnagas bem recheadas, tatuadas com os dedos e o amor da mãe; o queijo já largando cheiro tão logo se abria a embalagem de papel alumínio.
De repente, um braço seu puxado com força, Chico percebeu um vulto grande e pesado; na nuca, a respiração ansiosa de um homem de quem só se via o sorriso.
— Me corta, me corta agora.
Uma faca sem brilho a cutucar sua cintura, o andarilho tropicou nas palavras.
— Me corta. Me corta e eu te dou um sanduíche limpo.
O vulto envolveu a faca com os dedos do andarilho — que, tomado de susto que não cessava, permaneceu na mesma posição em que estava quando interpelado pelo estranho. O visitante tinha cheiro de planta.
— Por favor, me corta. Só um pouco de força, não machuca muito. Eu ajudo.
E a faca abrindo ala entre as carnes — nada se via, as respirações inalteradas. O andarilho teve ainda seu dedo conduzido até a ferida, em lapso de curiosidade despreocupada separou as duas paredes de carne. Sentiu prolongado deleite — por muito tempo não sentira tal consistência tão singular.
Em um instante quebrado, o vulto abriu a mão do andarilho e nela depositou o sanduíche; virou-se capenga e tomou seu rumo sob a lua apagada. O pão francês sufocava uma fatia tímida de queijo e uma mais gorda de presunto; o cheiro era familiar desde sempre. Chico deslizou a mão pela fatia superior; por toda a superfície, buracos rasos cavados por dedos alheios. Buracos apressados e pouco zelosos; ainda assim, carinhosos.
Mas vira-latas não se dão o luxo de examinar o que lhes é dado — tomam com suas bocas cheias de dentes a comida e todo o resto, tomam até mesmo as mãos mais gentis; respeitam apenas suas naturezas e enterram os afagos no ácido de seus estômagos ansiosos. Digerido mas não esquecido, o gesto do estranho havia de ter sido um carinho.
Carlos Eduardo Bonini, vinte e alguns. Escrevo há muitos, mas publico há poucos. Talvez leve ainda tantos para ter algo meu publicado em papel, mas me viro como posso. Influenciado pela terra vermelha, pelo transparente dos olhos e pelo cinza das intenções.




