As sandálias
Henrique Araújo
Ela ou ele vinha de dentro de um copo, um prato ou mesmo um barril de petróleo. Talvez um aquário, uma latrina. Um chapéu de palha abafado pelo uso e esquecido sobre a cômoda da viúva.
Levanta a cabeça, teria ouvido? Estava a metros ou quilômetros dali, noutra aba do planeta. Atravessando nuvens de pensamento, nuvens claras e escuras de pensamento. Magras e espessas do mesmo material.
Relaxa, pernas e braços esticados: estrela do mar, do céu e da terra. Inclina-se para a esquerda, direita. O vento na janela do quarto, porta, porta-retrato, ponta da colcha da cama, vermelha com motivos florais. A outra, azul diluído em mil litros de aguardente, no canto ainda manchada do fluido noturno.
O vento açoita, bagunça e vai embora. Ele fica.
Apenas ouve, triste. Ouve alegre também, mas não é todo dia que tem esse privilégio. Hoje, por exemplo, música clássica, melancolia ainda mais, enruga e distende as orelhas feito cachorro em direção ao onde, como e por que estaria zunindo aquela criança, uma menina, um menino de pouca ou muita idade perdido — ou achado — dentro ou fora da casa, próxima ou distante, vestido ou nu da cintura para dentro.
Liga o rádio, plenos ruídos. Não se conecta, desliga antes da próxima canção de amor. Ela foi, ele ficou.
Na vizinhança de meninos e meninas encardidos, trapos, olhinhos sujos e bocas arreganhadas, correria. Numa perna, ferida. Na outra, micose. Na barriga o tiro de canhão, rombo. Improvisam jogo de bola em frente à casa, tijolos fazem as vezes de trave. As meninas, nessas tardes, apenas observam, pernas recolhidas, pés no chão e cabeça ao vento. Até arriscam uns chutes, logo desistem — coisa bruta, futebol. De repente, enroscados, dois ou três medem força. Coisa bruta, coisa suja, coisa feia.
Livro solto, distante a vaca que sangra e morre sem alarde no meio de uma rodovia. Breve em pedaços, fatiada pela miséria. Ele preso, enleado ao que vem de longe, quem sabe próximo. Ao que vem da casa, gritinhos guturais, chorinho vertido incondicional.
Era choro de criança.
Não havia enlouquecido, pensou em módulos que se dividiam em capítulos e estes em pontos ainda mais microscópicos, pontos perdidos. Veio uma sede, uma fome, um cansaço incomum. Levantou, água, bolacha e café, sentou. Antes, lamentações. Resmungos, chiados, grunhidos — incomodado por não saber nada do que, entre dentes, diz a criança. Porque era menino. Ou menina, na casa ou apartamento. Era apartamento. Sem dúvida que sim, tudo indicava que sim. Escreveu no bloco: “apartamento”.
Olha as mãos, as suas mãos: sobre a mesa, brancas e secas, prendiam um livro, um lápis com o qual seguia anotando trechos que julgasse importantes da prosa. Os gritos, grunhidos já o impediam. Um galo em cima do muro, no coqueiro o pássaro azul bem forte, concentrado. Chão revolvido, cocô de gato.
As crianças têm a graça de serem profundas. E simples. Os grunhidos são, agora todo certeza, de uma criança. A mãe a deixou sozinha em casa. Costume. À feira? Braço dado com o namorado, voltas e voltas na praça. Era muito cedo. Geme, ele, ela em seguida. Ela tinha fome, sede ou dor de ouvido, dente.
Onde a mãe? Com um e outro, recordou a boataria. A da esquina, muro caiado: “sempre à cata de menino bonito, lábios grossos e cabelos negros”. “Ou loiros, que não têm tanta diferença, era mulher de grandes apetites e nenhuma exigência”, acrescentou. Flertava com o vento e gozava com a terra. Roxa, de preferência.
Roteiro em retrospecto: a mãe sai de casa, sempre nos mesmos horários, e, na modorra da tarde, a menina chama por ela, implora, brinca com os brinquedos, entrete-se, recorda. E grunhe. Tinha pena dela, sozinha, fantasmas em torno, restos de comida na geladeira — haveria uma geladeira?
As mãos soltas tinham largado livro e lápis para se contorcer e dançar e espantar moscas. Súbito, estagnação. Crispam-se, a mãe retorna, passos pesados, rosto desfeito em careta. Na sala, procura rapidamente o cinzeiro. Aceso, tranca-se no banheiro, azuis e brancos azulejos. Feito os olhos dele. Lava-se com desleixo, vasculhando buracos. No espelho, breve olhar, aceno em falso, risinho e malícia misturados.
Na soleira da porta, a criança dorme. Não grunhe ou geme ou chora — apenas abraça-se às sandálias da mãe.
Henrique Araújo é, em maior ou menor grau, estudante de Letras, Filosofia e Jornalismo. Tem contos, artigos e reportagens publicados em sites, jornais e fanzines. Mora em Fortaleza desde quando nasceu, há vinte e sete anos. Já detestou o sol que faz na cidade. Hoje, não sabe viver sem ele. Escreve diariamente em seu blog.




