O vizinho
Alex Sens Fuziy
(inspirado em fatos reais)
Quando eu me mudei para aquela casinha bonita, naquele bairro bonito, com aquela vizinhança relativamente bonita e simpática, eu pensei que tudo seria perfeito. Ou mais que perfeito. Aí descobri que meu colega de classe, aquele detestável, era meu vizinho. Sua casa era colada à minha. E isso era realmente péssimo. Mas não era só isso, se fosse eu já estaria feliz.
Além do péssimo vizinho, havia muitas crianças. Crianças que gritavam, que jogavam bola dentro da minha casa, que tocavam a discreta campainha da minha casa, e que vez ou outra urinavam no jardim da minha casa. Péssimo bairro. Então a coisa foi piorando.
Descobri que havia pombas que sujavam a varanda, faziam seus ninhos e suas camas sobre as pilastras de tijolo aparente da varanda, e a usavam como banheiro público. Péssimas pombas. Eu as detestava, eram bonitas e relativamente simpáticas, porém traiçoeiras e muito sujas. Imundas. Mandei cimentar alguns tijolos nas pilastras. Pronto. Não voltariam mais. Ledo engano. Começaram a entrar no forro de um telhado que ficava ao lado da casa. Pombas dos infernos! Esqueci as pombas.
Outro mal era os caminhões. Eu morava perto do supermercado, e todos os caminhões que paravam no depósito deste supermercado iam embora pela rua em frente a minha casa. Então a cada dez minutos eu podia ouvir aqueles monstros passando por cima das lajotas da rua. Era horrível. Péssimos caminhões. Eles quebravam algumas lajotas, soltavam aquela fumaça que acabava com a natureza e os moradores locais tinham que conviver com aquilo. Eu era um deles. Até que a prefeitura apareceu e pregou várias placas nos postes, referentes à proibição de estacionar caminhões em todas as ruas do bairro. Ótimo. Mas nada adiantou. Os caminhões passavam, pois era de direito, mas continuavam estacionando em frente às casas.
Em menos de uma semana morando naquela casa eu pensei que aqueles eram os únicos problemas. Qualquer um pensaria. Mas não.
Eu morava em frente a dois prédios pequenos, de quatro andares. Um dos prédios ficava mais em frente à casa vizinha, o outro bem em frente a minha. Neste havia alguns moradores idôneos. Um rapaz com cara de poucos amigos adorador de colares africanos, uma mulher que parecia limpar a janela e o quarto durante o dia todo e um senhor, morador do primeiro andar. Este era o mais estranho. O mais insólito.
Quando eu abria o portão de entrada da casa, ou simplesmente quando chegava de algum lugar, lá estava ele. O senhor. Com um pé sobre o pequeno muro da varanda e o outro no chão da mesma, ele me vigiava, olhava descarado. Seguia meus passos por toda a rua, desde a casa até a esquina e desta até a casa. Parecia viver ali.
Num único dia descobri duas coisas daquele homem. Ele tomava banho de sol naquela pequenina varanda e vigiava a minha casa com um binóculo. Os banhos de sol, apesar de serem ali, na varanda, não eram vistos pelos moradores do prédio ao lado. Ele puxava a cortina da sala, pela porta que dava desta para a varanda e a amarrava no segurador de metal da mesma. Numa espécie de tenda mal feita, ele estendia um cobertor na varanda, se despia e lá ficava, recolhido, sem ninguém notar. Mas eu notava. Um dia o vi engatinhando como uma criança, cena grotesca. Tudo bem que não havia praia na cidade, mas era só viajar para uma cidade litorânea próxima uma vez por semana. Pronto.
Então não o vi mais na varanda. Ótimo. Não precisaria mais compartilhar daquelas cenas. Por isso mesmo eu não saía mais. Fiquei com ojeriza. Eu sempre tive medos de vizinhos estranhos, e aquele havia se superado. Um dia descobri sua predileção por vigiar minha casa. Ele não se contentava apenas em ficar ali parado na varanda seguindo meus passos e tirando suas próprias conclusões. Não. Ele fechava a porta da varanda, e lá de dentro vigiava minha casa e os cômodos com as janelas abertas com um binóculo. Através do vidro eu o vi e tratei de fechar todas as janelas da casa, sendo que a maioria delas dava para a rua, dava para o apartamento deste homem. Decidi que construiria um muro. E construí.
Mandei arrancar as grades altas que cercavam o terreno e em duas semanas minha casa tinha um muro erguido. Um muro de três metros. Plantei heras e imaginei que não durariam muito. As crianças com certeza arrancariam, como faziam com os hibiscos do jardim perpassando aquelas mãozinhas diabólicas por entre as grades.
Estava lindo. Eu não via mais os vizinhos, só um grande muro com pedras, algumas heras já crescidas e um pouco menos de sol, claro. E isso era ótimo. Eu era apreciador dos dias mais escuros. Para mim, sol poderia ser visita rara. Mas então eu pensava nas heras, nas plantinhas. Coitadas. Elas precisavam dele. Então desejei sol todos os dias. E ele veio. Até que a época de chuva começou e o sol pareceu ter mudado para o Japão. Eu desconfiava muito disso. Era uma grande hipótese.
Era o meu trigésimo oitavo dia morando naquela casa. Um trigésimo oitavo dia muito chuvoso. A água escorria pela calha e formava uma cachoeira na rua. Fiquei com medo de enchente. Nunca desejei tanto pela vinda do sol. O céu estava cinza escuro há dias. Quase duas semanas daquele jeito. E parecia abraçar inúmeras camadas grossas de nuvens que não queriam ir embora. Os trovões e os raios também contribuíam para o cenário de filme de terror. Delícia de tempo, mas não para as plantas.
Foi nesse dia que minha campainha tocou de forma diferente. As crianças, acostumadas a apertá-la no mínimo cinco vezes, já haviam me cansado. Porém nesse dia ela tocou apenas uma vez. E outra, suave e vagarosamente numa segunda vez.
Corri até o portão e pensei que estava sob uma queda d’água. A água caía tão intensamente que eu podia jurar que não havia mais nada seco em mim. Abri uma pequena fresta do portão e o vi. O homem do apartamento do primeiro andar. O vigia da minha casa. Ele sorriu e pediu para entrar. Estava com um enorme guarda-chuva. Fiquei com uma inveja daquele guarda-chuva. Eu precisava construir um toldo no caminho até o portão. Droga!
Relutei por um instante. E se aquele homem quisesse apenas tomar a minha casa. Seqüestrar meus bens, a talvez a mim. Mas a chuva forte impedia de eu pensar demais. Acabei por abrir o portão e deixando-o destrancado corri até a varanda com o senhor.
Ele fechou o guarda-chuva e sorriu novamente. Cena estranha. Aquele homem, vigia da minha casa, que tomava banho de sol nu na varanda, aquele homem que sempre me vigiava, ali, na minha área, com aquele sorriso bobo, como se me conhecesse há tempos.
— O que você quer? — eu perguntei. Não encontrei outra frase melhor. Não o convidaria para um chá, nem diria “que chuva hein?”. Seria absurdamente ridículo.
— Eu já morei nesta casa. Há muito tempo.
A revelação foi como uma destas frases finais de filme policial. O caso estava resolvido, a vítima, no caso eu, havia descoberto a verdadeira chave daquele quebra-cabeça. Exagerado? Verdade. Mas neste filme policial não havia um criminoso, como eu imaginava. Então aquele senhor não queria me vigiar, nem saber o que eu tinha. Ele tinha saudade daquela casa.
— Por isso comprei o apartamento em frente e todos os dias fico olhando para ela — ele respondeu como se lesse meus pensamentos. — Mas agora não posso mais — terminou apontando o muro.
Senhor simpático! Convidei-o para um chá e comentei sobre o tempo. Não desmanchei o muro, afinal ele seria minha visita diária, e poderia ver a casa quando quisesse. Aprendi tanto com ele. Tudo parecia querer mudar. Até o sol apareceu, as nuvens foram embora. E minhas heras duplicaram de tamanho. Só os caminhões continuaram por ali, assim como as pombas dos infernos e as crianças diabólicas. Mas nada disso importava mais. Eu tinha um amigo.
Alex Sens Fuziy tem 20 anos e nasceu em Florianópolis. Atualmente mora no sul das Gerais. Trabalha no âmbito literário com seus livros. Tem trabalhos publicados em sites de literatura e antologias.É idealizador da Revista Malagueta e publicou seu primeiro livro de contos no início de 2008.




