Labirinto
Zingarah
O desejo é um labirinto intenso e cego em Sinkiang. Essa frase martelava-me a cabeça, devagar e constante, como uma espécie de goteira mórbida. Uma goteira que se perdia dentro da noite molhada, enquanto eu tentava caminhar sobre os reflexos fugazes que lambiam as calçadas. Úmidas línguas de luz bailando de um lado a outro.
O estrondo forte fez o próprio chão tremelicar, multiplicando os seus efeitos pelos meus ossos. O clarão espalhou um brilho difuso, tornando o contorno das coisas um composê de prata e preto. E eu pensei comigo mesma o que é que estava fazendo debaixo da chuva que aumentava, andando meio sem rumo por aquela parte deserta de Bangcoc.
Talvez estivesse procurando algo, nem que fosse aquele cheiro de ozônio queimado que me perfurava as narinas inquietas. A chuva desabou de vez. Levantei a gola do casaco, procurando um lugar em que pudesse me abrigar do temporal. Daquela parte da cidade, eu podia ver, de acordo com a direção em que caminhava, alguns pedaços do rio. Eram como lampejos móveis que subiam e desciam, ameaçando transbordar de si mesmos. Avistei um néon azul, quase apagado, mais adiante, junto de um toldo listrado em farrapos. A vitrine suja não trazia inscrições em inglês, como as lojas das melhores partes da cidade. Hum.
Empurrei a porta entreaberta e aspirei com força o vapor quente que subia do interior escuro. Era uma nuvem confortadoramente cálida, depois da friagem da rua. E adoravelmente perfumada, em contraste com os odores de peixe e de rio que invadiam Bangcoc durante suas tormentas tropicais. Cheiro de roupa lavada e passada, de algodão sendo aquecido pela chapa de um ferro em brasa.
— Chove! — disse, automaticamente, em inglês, para o vulto que vi surgir detrás da tábua de passar, enquanto repuxava, também automaticamente, o casaco para a frente do corpo.
Nenhuma resposta. Somente o chiado do vapor subindo do ferro sobre a mesa.
Olhei com mais atenção para o homem, batendo as pestanas com força, para afastar as gotas de chuva que borravam-me a visão. Era alto e magro, de uma magreza musculosa que sobressaía em cada centímetro do seu corpo. Não parecia ser tailandês, ou, pelo menos, não parecia ser um tailandês puro, se é que isso algum dia existiu. Tinha feições mestiças, algo que se poderia mesmo assemelhar a um porto-riquenho misturado com um quê de sangue asiático. Cabelos escuros e aqueles olhos negros, em formato de amêndoas.
O vapor continuava sussurrando a intervalos regulares. O mais era silêncio. Absoluto.
Fiz um gesto desconexo em direção à porta da rua, sugerindo o quê, nem eu mesma sabia. O cheiro de roupa limpa era pungente e profundo. Pilhas de lençóis brancos jaziam perfeitamente dobradas e lisas a um lado. Do outro, eram os mesmos lençóis, lavados e amarrotados, à espera. O barulho da chuva estalava no telhado de chapas de zinco. Eu, parada no meio de uma poça que aumentava, o sobretudo encharcado pingando, sentindo aumentar a sensação de impossível daquilo tudo.
O calor, o vapor, a iluminação fraca. O ruído compassado nas telhas acima de nós. Tornei a olhar para ele, completamente suado, aquela pele terrosa sob a bermuda de jeans cortada de uma velha calça. Percebi outros cheiros, outros vapores e aromas entrelaçados naquele momento exato, o vime úmido e envelhecido dos grandes cestos de roupa, o suor adocicado, ensopando-lhe as costas nuas. As lâmpadas da lavanderia piscavam ao sabor dos raios e relâmpagos, ameaçando apagar de vez.
Não soube em que instante caminhei através do chão áspero de cimento batido, nem como consegui afastar o insistente comando para sair dali. Apenas senti aquele suor escorrendo pelas palmas das minhas mãos, e a proximidade daqueles olhos noturnos, dentro dos quais parecia não haver mínima fissura pela qual se infiltrasse a luz. Os lábios volumosos, semelhantes a uma fruta madura que se oferece em holocausto, no ápice do seu sabor. Ignorando cada faceta da realidade, sobre camadas e mais camadas de lençóis brancos, cuja textura acetinada acariciava-me o corpo como um convite, e cujo cheiro limpo preenchia os espaços entre nós.
A noite, transcorrida entre o começo do nada e o final daquilo que não poderia ser. A madrugada, acidificando numa claridade oriental o meu bom senso violentamente atropelado. O meu riso, ecoando como soluços invertebrados, quebrando a opacidade do inteiro silêncio que se formara e ainda não se rompera. Absoluta mudez, onde não havia qualquer idioma intermediário, a não ser a linguagem dos corpos. Os meus dedos, entrelaçados aos de um perfeito estranho, adormecido sobre uma pilha de lençóis desdobrados, cujas pontas começavam a encharcar nas poças d’água do chão.
Recolhi-me daqueles lençóis como quem duvida da própria sanidade. Descobri um sorriso límpido, cheio de dentes incrivelmente brancos:
— Sorry, no english…
Mas eu já estava longe, caminhando entre as pedras lavadas do calçamento, ajeitando-me dentro do casaco e do consistente prazer que descobria o dia. Balançando, um pouco alterada, como se tivesse bebido algo forte demais. Mas desperta, em cada fração possível de mim. O desejo é um labirinto intenso e cego, não em Sinkiang, mas justamente em qualquer lugar. E a manhã é mais um caminho a seguir, tentando não achar a saída.
Zingarah é advogada e escritora em São Paulo. Escreve na área jurídica e, sob o pseudônimo Zingarah, desenvolve diversas atividades literárias, incluindo seu blog pessoal. Participa da Revista Literária Paralelo 30 atua ainda como parecerista no mercado editorial.




