Divina bandidagem


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Lucas Limberti

Meu Deus! Socorro.
Corro. Corro muito. A ladeira íngreme e úmida cresce aos olhos. Escorrego. Senti o bafo quente de meu predador. Molhado pela garoa cortante, fujo entre as vielas. Meu corpo sedento e culpado não agüenta mais. Ouço um disparo. Corte na respiração. A bala veloz impede a remissão dos pecados da vida inteira. Dor. Muita dor. O metal frio no osso do tórax recua a pulsão. Tensão, o cão ajoelhado, escuridão e muitas buzinas.

— Seu maluco, poderia ter matado alguém!

O sol quente do meio dia se misturava à fumaça do motor que entrava pelas janelas da Perua Kombi ano 74, enfiada no poste. O pastor Amadeu dormiu ao volante e se salvou daquele sonho que o levaria ao juízo final.
Ainda um pouco tonto e com algum sangue descendo às ventas, ele sobrevive ao acidente, mas não se livra daqueles pensamentos que o perseguem.

— Afasta senhor, que sonho errado, num piscar de olhos quantos pesadelos, mas entre a bala nas costas de Macalé, prefiro o concerto da minha Kombi, glória a Deus aleluia! — pensou aliviado.

Uma viatura da polícia se aproxima. Apreensivo Amadeu checa o documento do carro e a carteira de habilitação. Tudo certo.

— Ai meu Deus… O porta-malas!

Amadeu volta no tempo se lembrando do acontecido daquela manhã.
“Derrama senhor, derrama senhor, derrama todo o seu amor”, canta o coro de fiéis em um culto improvisado no antigo salão de dispensa do presídio municipal.

— Irmãos, com a glória de Jesus vos entrego este folheto com os Dez mandamentos sagrados de Deus — pronuncia Amadeu a seus fiéis do claustro.

De mão em mão o pastor entrega sua palavra. Entre os fiéis o olhar fixo de Macalé, o chefe da organização criminosa que comandava o presídio o acompanha afirmativamente. Intimidado, o pastor tira os óculos remendados com arame do bolso da camisa e começa a leitura em voz alta dos dez mandamentos. A leitura se fazia obrigatória já que ele não recordava todos aqueles ditames cristianos. A atmosfera tensa se dava pelos negócios tratados por de trás daquela cerimônia.
Durante toda a noite anterior, os presos escreveram em folhas de caderno o estatuto da organização. Cada um escreveu a sua cópia e levou às escondidas para o culto.

Na saída, os presos entregaram os folhetos com os dez mandamentos a Amadeu, que estava parado na porta. Junto com eles os estatutos da organização.
Das mãos de Macalé o pastor recebeu um envelope coberto pelo folheto dos Dez mandamentos. O dente de ouro no sorriso irônico do bandido refletia o rosto acuado do vigário que engoliu a saliva viscosa e pensou:

— Preto carvão, capoeira, macumbeiro, você vai queimar no fogo do inferno.

Amadeu era um sujeito que escondia atrás de uma fala dócil e afetiva uma personalidade ambiciosa e obscura. Antes de se dedicar às atividades religiosas, era um vendedor livre, vendia de tudo pelas praças, muambas, cigarros paraguaios, doces, chaveiros, emplastos, de tudo podia se encontrar no porta-malas de sua perua Kombi. Certo dia, descobriu que muitos faziam riqueza pregando nome e Jesus. Comprou duas caixas de som e um microfone pôs-se a pregar em praça pública. Logo já tinha sua própria igreja e sustentava sua casa, sua mulher e os dois filhos com o dinheiro do dízimo dos fiéis.

Começou a pregar no presídio, pois certa vez, quando transportava uns produtos trazidos do Paraguai, foi pego pela fiscalização. As muambas foram apreendidas e a responsabilidade recaiu sobre dele. Os policiais não quiseram fazer o “acerto” e ficaram com todos os videocassetes sem nota fiscal que ele carregava. Os trâmites da negociata foram feitos com um sujeito asqueroso chamado Wilson Ramos, que era irmão daquele que viria a ser o chefe da maior organização criminosa do país, o Macalé Ramos. Ele não tinha como restituir a dívida ao destinatário. Como pagamento, Amadeu deveria ser o pastor da igreja interna do presídio e funcionar como um “avião”, que na linguagem do crime significa aquele que transita informações entre os membros da organização de dentro e de fora da prisão.

Já no estacionamento do presídio, Amadeu abre o envelope e lê os seguintes dizeres:
“Os estatutos devem ser entregues no final do culto de hoje à noite, sem falta, aos membros da organização que estão em liberdade. Aquele que não contribuir com os irmãos que estão na cadeia será condenado à morte sem perdão. Lealdade, respeito e solidariedade, acima de tudo, à organização”.
Cansado e tenso, o pastor separa em seu porta-malas de um lado os estatutos dos criminosos, de outro os folhetos com os dez mandamentos.

Na noite anterior, ele havia passado acordado. Recebeu vários telefonemas anônimos dizendo que sua casa seria alvejada caso não comparecesse ao culto daquela manhã. No caminho do presídio à sua igreja, ele dorme ao volante. No farfalhar da colisão os estatutos e os mandamentos se misturaram. O suor de Amadeu escorria orelha a baixo com a aproximação dos policiais.

— Documentos do veículo, por favor, disse o policial.
— Está aqui, responde Amadeu concertando o arame dos óculos.
— O que aconteceu aqui? O que você carrega nessa perua velha? Por favor, abra o porta-malas — perguntaram a dupla de policias.
— Eu perdi o controle do carro, acho que o freio falhou e… No porta-malas carrego os folhetos com as canções e os mandamentos da minha igreja, eu sou pastor evangélico da “Divina Santidade” — respondeu Amadeu labioso.
— “Divina Santidade”? Pois então você é Amadeu Batalha? — perguntou atônito um dos policiais que conferia sua carteira de motorista.
— Eu mesmo, Amadeu Batalha, pastor fundador.
— Pois minha mãezinha te adora, diz que o senhor é um santo homem. Tome, pegue este lenço e limpe o sangue do nariz — completa o policial que do próprio celular liga para um guincho.
— Fique tranqüilo, Seu Amadeu, o guincho de minha confiança vai deixar você e seu automóvel em casa, vai com Deus, glória aleluia.

Mais aliviado com a lei estatal, o pastor agora se preocupava com a outra lei, a dos fora-da-lei, que estavam manuscritas em seu porta-malas. Olhando aquele monte de folhas, tentava separar os papéis: não conseguia distinguir o que era do crime e o que era de Deus.

Separou como pôde; o nervosismo causado pelo medo das ameaças de Macalé prejudicava mais ainda a lida com aquela papelada. Não havia mais tempo: tinha que realizar o culto na sua igreja no horário previsto, pois ao final um segundo “avião” pegaria os estatutos e daria conta de redistribuí-los para a bandidagem. Jogou tudo em uma caixa e correu para a igreja.

As imagens daquele sonho que causara o acidente não saiam de sua cabeça. Chega esbaforido na sua igreja e abre a caixa com os papéis. Pensava no discurso que tinha de fazer, da importância dos dez mandamentos, “Amar a Deus sobre todas as coisas”, mas ele amava a si mesmo acima de qualquer coisa, seu pensamento estava cego, o reflexo do dente de ouro do bandido reluzia sua memória.
Sobe no pequeno púlpito da igreja, lá de cima avista o cenário do culto: as caras formando uma paisagem impenetrável. Não ligava para isso. Eles fingiam, ele também fingia e todos viviam em suas pequenas ilhas existenciais.

Com a confusão do acidente, os estatutos se misturaram aos mandamentos. Todos na mesma caixa, Amadeu atrapalha-se e acaba distribuindo para seus fiéis o estatuto da organização e para o bandido no final da missa os dez mandamentos de Cristo.
Tudo confuso.

Agora a bandidagem estava com a folha da igreja e os fiéis com a folha da organização. O que ocorreria? Amadeu sentiu um frio na espinha. Agora já não tinha nada a fazer.
Ali perto, um dos integrantes lia atônito sem saber o que fazer e pensava consigo mesmo:

— Seriam mesmo aquelas as ordens? Não matar, não roubar… Estava tudo estranho, muito estranho.

Tinha tanto medo da organização, estava duvidando… Mas não! Iria fazer aquilo que estava escrito: nunca mais iria matar.

Um outro, antes de invadir uma loja num assalto que havia tramado há meses, lê o tal folheto trocado. Como assim, o que está escrito? Não poderia mais roubar? Ia viver do quê? Depois desses anos todos roubando para a organização e ela agora lhe roubava o sustento. Sentiu medo e na dúvida optou por seguir o que o suposto estatuto postulava. Ele não roubou.

Poderia ser verdade? Honrar pai e mãe, aqueles que ele abandonara para ter a organização como madrasta? Muitas coisas passavam pela cabeça dos bandidos, mas o medo das retaliações vindas das ordens internas os cegavam na prática dos mandamentos. Para eles, a organização talvez quisesse se moralizar. Mas não vinha ao caso, há um juramento.

— Eu jurei seguir as ordens, sejam elas quais fossem e agora não ia ser diferente — conclui um advogado da organização que retirou a defesa de um dos integrantes junto ao Fórum, pois não levantaria falso testemunho.

De repente, os criminosos começaram a trabalhar durante seis dias da semana e no sétimo dia, no sábado sagrado dedicado ao Senhor Deus, conforme o 4º mandamento, apareceu toda a malandragem daquelas passagens na sede da igreja de Amadeu, a “Divina santidade”.
Em bando, vários sujeitos mal encarados da organização entram no templo. O pastor fica aterrorizado.

— Vão me matar! Não acredito!

Já ia se arrependendo do que fizera, aquela fria sensação de morte que o perseguia tomou seu corpo todo que tremia. O líder olha pra ele e diz:

— Toca a cerimônia em frente, nós só estamos seguindo ordens.

O pastor entrou em pânico, pela primeira vez rezou verdadeiramente, clamou a Deus em forma de orações coletivas pela vida:

— Seria agora meu fim, na frente de todos fiéis, não posso acreditar na ousadia deles — pensou Amadeu em desespero.

“Pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome…”. Atônito, o pastor ouviu não o barulho da bala em sua direção, mas um som mais familiar. O bando de Macalé estava rezando. O que era aquilo?
Porque rezavam para aquele altar que eles tanto desprezavam? Meio sem jeito disse:

— Vocês estão rezando?
— Sim, ordens da organização.
— Como assim?
— Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, e é isso que estamos fazendo.

O pastor quase riu, pois se deu conta do que havia feito. Da confusão dos papéis no acidente nascia a conversão. Mesmo assim, teve medo:

— E quando Macalé descobrisse? Será que até seu irmão Wilson acatou aos ditames da divina bandidagem?

Pois é, a informação de que o crime mudara de lado chegou até os limites do presídio. Macalé viu que seu rebanho se perdia, de repente estavam todos louvando a Deus aleluia. Ficou furioso e mandou matar o pastor. Mas ninguém atendeu sua ordem, todos acharam que era balela, pois agora era proibido matar.
Enlouquecido, Macalé esbravejava aos quatro cantos:

— Eu é que mando nessa droga aqui!

Ao que de pronto respondiam que agora Deus está acima de todas as coisas.
Conforme as ordens da quadrilha eram difundidas, o crime desaparecia. Certo dia então, por força daquele estatuto bendito, os bandidos entregaram suas armas, os juízes e advogados seguiram as leis, policiais se converteram, enfim o crime sumiu de vez.
Amadeu sorria tranqüilo, ele tinha contribuído para aquele estado de coisas, para a paz. Mas, de repente, se intrigou:

— Ai Deus… Os fiéis. O crime voltaria, seus fiéis estavam com o estatuto da maior organização criminosa do país e eu as entreguei como os mandamentos de Deus.

Voltando ao estado de desespero inicial, Amadeu é abordado por uma senhora de cabelos longos e com um vestido cumprido azul turquesa que diz:

— O seu folheto estava muito bonito pastor.

Nos dias que se seguiram, o pastor percebeu que os fiéis que leram o estatuto não haviam mudado a conduta, outros fingiram também que leram e elogiavam os escritos do pastor e os mandamentos de Deus.
Estupefato, o pastor gargalhando pensa: santa hipocrisia!

Lucas Limberti é jornalista, literato, ator e formado em Letras pela USP. Rasga a vida com fortes mordidas, é apaixonado e feliz. Gosta de contar histórias, conhecer lugares e abraçar o mundo carregando o universo dentro do peito. Seu melhor amigo é o violão, sua segunda língua é o italiano. Escreve em seu blog.

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