Como é que é?


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Márcia do Valle

Restaurante na beira do mar. Noite de lua cheia. Barulho das ondas indo e vindo, lá longe. Todos os ingredientes para que a noite se transforme em um programinha romântico, até que o outro pede caranguejo. O garçom traz aqueles animais que parecem recém saídos do mar, que ficariam ótimos como um enfeite no centro da mesa. Mas não, não eram objetos ornamentais. E por isso o outro pega os bichos peludos com a mão, põe na boca e chupa fazendo barulho. Oferece à Elisa. Não, obrigada. Prefiro comer pratos originários da seção de congelados do supermercado, todos embalados em caixas retangulares de papelão com fotos meramente ilustrativas. Prefiro comer frango em vez de galinha. Caranguejo, nem pensar. Contato com a natureza tem limite.

Elisa fica aflita só de pensar que daqui a pouco o outro largaria aquele martelinho de madeira feito para martelar caranguejos recém-mortos e tentaria segurar a sua mão ou sua perna com aqueles dedos emporcalhados. Ela pede uma água mineral sem gás. O outro oferece novamente o que considera um manjar dos deuses. Ela diz que está sem fome. Indisposta. Só não pode dizer que vê-lo comendo como um troglodita foi a causa da indisposição. Aguarda pacientemente enquanto ele se refestela com os crustáceos. Agora, pelo menos, ela já pode fazer cara de indisposta.

O outro paga a conta, lava as mãos e sai de mãos dadas com Elisa. Nem tudo estava perdido, ele tinha lavado as mãos. Talvez uma bala com sabor forte ainda pudesse salvar a noite. Uma Halls preta. Não, Elisa não tinha nenhuma bala na bolsa. Uma pena. Lua cheia, barulhinho das ondas, mãos quase cheirosas… E a lembrança dele colocando aquelas patas horrorosas na boca. Assim não havia a menor condição de beijar essa boca. Talvez outro dia, após algumas escovações de dentes. Quando a memória seletiva dela já tivesse descartado a imagem dos caranguejos na boca dele. Hoje não. Hoje Elisa dormiria sozinha e sonharia com caranguejos. Pesadelos com homens pré-históricos comendo com as mãos o animal que acabaram de caçar. Pesadelos com o cheiro do restaurante. Pesadelos com esse jantar que, pelo visto, seria o primeiro e último encontro com esse comedor de caranguejos. Ele bem que insistiria para beijá-la, para esticar a noite na casa dele, para combinar outro encontro, como os homens pré-históricos deviam fazer em seus rituais de acasalamento, mas ela não estava interessada nem no beijo dele, quanto mais no que poderia acontecer depois do beijo.

Só que ele não sugeriu ir para nenhum outro lugar não. Pelo contrário, foi direto deixá-la em casa, sem nem conversar muito. E chegando lá, já começou com aquele papo ensaiado agradecendo a noite, pronto para dar um beijinho educado na bochecha dela e ir embora para nunca mais aparecer. Como é que é? E quem esse comedor de caranguejo pensa que é para não se interessar por Elisa. Logo por ela! Ele só podia estar maluco de não estar rastejando aos seus pés, implorando pela atenção de uma mulher sofisticada como ela, que comia massa com garfo e colher e usava palitinhos japoneses para degustar peixes e outros frutos do mar. Ei, querido, se liga. Não, mas ele não se ligou. Então ela arriscou perguntar sobre um próximo encontro, que poderia ser para assistir um filme, mas a resposta foi vaga e escorregadia. Ela pensou em sugerir um sorvete, mas lembrou que tinha dito que estava indisposta.

Numa jogada quase suicida, ela ainda disse que queria voltar outro dia para comer caranguejo naquele restaurante, que parecia estar delicioso e era uma pena que ela estivesse indisposta naquele dia. Mas nem assim ele pareceu se interessar. Ainda comentou que andava viajando muito a trabalho, que no dia seguinte mesmo viajaria e só voltaria depois de duas semanas. Ok, rapaz, eu posso esperar. Me liga lá de onde você estiver e a gente se fala melhor. Daí a gente combina de voltar lá para comer caranguejo assim que você voltar. Sabe, eu realmente quero voltar lá. Tão aconchegante aquele lugar! Me liga que eu te espero voltar. E nem pense em me deixar saltar desse carro sem um beijo na boca.

Agora sim, a noite já tinha valido a pena. Depois daquele beijo, só se ele fosse maluco é que não telefonaria para ela de onde ele estivesse. Ah, com certeza ele ia ligar sim. E Elisa mal podia esperar para ir lá, se lambuzar com aquela gosminha que sai do caranguejo e mostrar que ela não nasceu para ser dispensada não. Mas não mesmo.

Márcia do Valle tem 29 anos, é carioca e escritora. Escreve desde pequena e começou a divulgar seus textos em seu blog. A partir daí, suas palavras começaram a invadir o espaço virtual e, atualmente, podem ser encontradas em diversos sites. Seu primeiro livro, o romance 180 graus (Editora Marco Zero), retrata a vida de duas personagens que podem ser encontradas em cada um dos leitores.

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