Algum tempo que não agora
Gabriel Innocentini
Para Mari
Essa vontade incontrolável de ligar, dizer duas ou três palavras e depois um longo e enfático silêncio que abrisse os braços para me receber. Ligar. Mas com a ponta dos dedos, cuidando bem para não quebrar a possibilidade. Os números discados, a ligação chamando. Manter as possibilidades. Não posso. Aqui, não.
Caminhou para o quarto escuro, apenas as luzes da cidade piscando pela janela, um carro mais rápido, alguma tevê invadindo o apartamento com o volume excessivo, um ranger sórdido ininterrupto. Que vida mais absurda, quanto clichê em volta, pra terminar assim. Encostou-se na parede lateral, entre a cama e janela, naquela penumbra, quase confortável, talvez um ligeiro medo. Passou a mão pelos cabelos. Precisava ser menos relapsa, não temer o espelho, deixar de bobagem. O telefone vibrou na palma da mão, o coração pulsando, a respiração alterada.
— Alô?
— Mári — é ele —, você ligou para mim?
Tentou manter a calma, e as possibilidades, respirando fundo. Dava certo nos filmes, por que não daria aqui?
— Eu…é que, onde você tá?
— Em casa, acabei de chegar. Tive que resolver mil coisas hoje, conta no banco, deu um rolo, gente querendo furar fila, atraso e nãoseiquê, impressionante a falta de educação das pessoas. Agora só preciso de um banho e de uma cama.
Um caminhão passou recolhendo lixo.
— Eu vi Ali, hoje.
— Hein?
— Ali, o filme, com o Will Smith. Sobre o Cassius Clay, Muhammad Ali, boxe, coisa e tal — respirou audivelmente. Precisava cuidar mais das unhas, também. Das unhas e dos cabelos. Me dar valor.
— Sei.
A ponta da unha do indicador áspera, ela começou a arranhar o lençol.
— Sei — repetiu —, também vi. É muito bom. Ele é engraçado.
Passou a desenhar vales e depressões sobre a cama. Quando pequena, tinha um gato.
— Os gatos, quando se deitam, não deixam marcas, sabia?
— Não gosto de bicho, você sabe, Mári.
— Eu tive um gato que se chamava Charles. — Ficou vendo a gravura desenhada que não sobreviveria a um estender de lençol. — Era bonito, angorá, a alegria da casa. Ficou anos comigo, depois morreu. Você acha que a gente podia ser gato?
Ouviu-o tirando a roupa, talvez o casaco, com esse frio faz bem em se agasalhar.
— Olha. — Jogou-se pesadamente no sofá, ou cama, ela não sabia bem. — Já me dá trabalho demais ser gente. Você precisa parar de ler Clarice, como o médico recomendou.
— Faz frio agora. Em mim. Aqui é muito frio.
Foi se arrastando até o aparelho de som. Ligou direto, claro que tocaria algo depressivo, era só o que ouvia ultimamente. As semanas costumavam durar mais antigamente…e os finais de semana também, que remédio. Elliott Smith sussurou: beba, meu amor, fique pra cima a noite toda, as coisas que você poderia fazer, você não vai, mas deveria…
— Escuta aqui, isso daí é aquele cara que ficou enterrando pateticamente a faca no peito até a namorada aparecer?
Ela se deitou no chão, voz e violão se espalhando pelo quarto, um sentimento sem nome se apoderando, forçando as frinchas, os espaços, se misturando à melodia desordenadamente.
— Você não faz idéia do que.
— Mári, pára com isso, por favor!
— Do que se passa. — O teto, quantas vezes não ficou olhando o teto, sonhando filmes que ninguém assistiria nem teria a chance de assistir, diretora de um roteiro intrincado, cujas personagens entravam e saíam ao acaso, nenhum argumento, sempre saindo pela tangente esfarrapada, nunca corrigindo rota porque como saber aonde ir se não sabia sequer. — Nem tocar guitarra de salto alto.
— Esquece isso é coisa de patricinha — disse ele, e deu um tempo antes de continuar. — Que eu li seu blog, você tem que.
— Como assim leu meu blog?
— Que que tem?
A projeção no teto ganhou contornos míopes e luzes desfocadas. De pijama branco, largo, algumas linhas desfiadas, ela se esparramou lentamente, os cabelos morenos em desalinho, pelo carpete, como se as possibilidades estivessem desesperadamente vivas e o menor movimento fosse o suficiente para quebrar o chão de gelo no qual sua existência resistia.
– Não importa mais. Você não faz idéia do que é isso.
– O quê?
A frase lhe escapou assim, peixe que sobe à superfície e retorna às profundezas, quase com a desistência de uma revelação:
— Não quero morrer, não; quero outra vida.
Calou. Todo o esforço convergira para estas palavras: Não quero morrer, não; quero outra vida — repetiu baixinho. Foi despencando para as águas fundas de si mesma.
— Mári, tá. Eu acho que você precisa usar a tática Ali. Você sabe: o negão levou pancada até não poder mais, foi levando, levando, até que o Foreman cansou. O cara cansou e ele partiu com tudo o que lhe restava, foi demolindo o Prédio Foreman como uma bomba atômica, no nocaute mais famoso da história.
As lágrimas salgadíssimas morriam nos lábios dela, sem soluços, sem soluções.
— Que adianta? Eu não tenho Foreman pra bater, você sabe disso. Eu queria…eu quero…outra vida, em algum tempo que não agora. Só isso. Que se dane o resto, eu, isto, você, aí, que se dane, era isso que eu queria — respirou — e quero.
A música rodava novamente.
— Mári, lembra do Forrest Gump, que você adora por causa.
— A vida é uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar — disse com grande esforço, como se cansada.
— Dessa frase, isso. Tem uma hora que a Jenny volta pro Tom Hanks, e eles começam a passear, até que ela vê uma casa e eles param de conversar, daí ela vai caminhando até a casa, pára em frente, se agacha e passa a tacar pedras, com fúria, como se quisesse fazê-la desabar, até que ela pára, o Tom Hanks, ela chorando, se aproxima e diz que uma hora as pedras acabam. Mári, as pedras podem ter acabado, mas, me diz, meu deus, me diz, você ainda tem alguma casa pra derrubar?
Ela sorriu entre lágrimas e desligou.
— Não sei — repetiu para si mesma.
Ali, nas águas fundas em que nadava, não via os telhados dormindo na noite, a maquinaria estrelada se movendo pelo céu, e um gato que miava pela rua, não via, nem importava — ela já não estava agora.
Gabriel Innocentini estuda jornalismo, gosta de beats e westerns, torce para o São Paulo e toca violão tão mal que dá gosto. Escreve em seu blog.




