E no meio do caminho tinha um Pedro
Ro Druhens
— Telefone só toca de madrugada pra anunciar desgraça, pensou, procurando no escuro do quarto pelo maldito aparelho, procurando na neblina da memória pelos benditos parentes…
— Alô!
— Oi!
— Alô…alô!
— Oi, meu bem.
— Quem ta falando, porra, sabe que horas são?
— Sou eu, amorzinho.
— Que merda! Eu quem? Que raio de amorzinho é esse?
— Sou eu, o Roberto, seu vizinho de frente.
— E eu lá conheço Roberto? Vai passar trote na comadre da sua madrinha
— Calma, você fica linda zangada, ainda mais de camisolinha vermelha.
— E como você sabe que estou de camisola vermelha???
— Tô te vendo de binóculos.
— Tarado, voyeur, filho da…
— Tô mais tarado ainda porque você deixou cair a alcinha da camisolinha…
— Tem mais o quê fazer não, seu Roberto? 1 hora da manhã e você vendo vizinha de binóculos?
— O mais que eu tenho de fazer, não quero fazer sozinho, chega na janela e olha pra cá, quarto andar, vou acender a luz…
Perdeu a fala. Do outro lado da rua, na janela do quarto andar, o peito onde sempre sonhara desenhar seus sonhos, a cabeleira negra onde sempre fantasiara perder seus dedos, o sorriso branco, os olhos, com certeza, seriam azuis…
— E aí? Ta me vendo?
— Mais ou menos, ta distante, queria ver mais de perto.
— Posso ir aí?
— Não, Robertinho, o porteiro, você sabe como é, deixa que eu vou.
— Como você preferir, não se importa com a chuva?
Tirou a camisola, a calcinha, vestiu a Burberry, escovou os cabelos, um perfume discreto e as botas de salto alto. Nem esperou pelo elevador, desceu pelas escadas. E pisou na calçada no mesmo instante em que um táxi freou. Temporal, vôos cancelados e a cara feliz do marido ao vê-la esperando por ele na chuva. Abriu a capa, tarada. Ali mesmo, junto ao muro, o tesão despertou do enfado adormecido entre seus lençóis de seda.
No prédio em frente, na janela do quarto andar, Roberto, com a mão no bolso da calça, acariciava o volume imenso de dinheiro que recebera do marido piloto…
Ro Druhens. Nasci, um dia. Um dia, vou morrer. Entre isto e aquilo, tudo o que vier é lucro. Um prêmio: primeiro lugar no concurso Ferreira Gullar para poesia em língua portuguesa, promovido pela Editora Uapê, em 1999. Um livro: Alguns Contistas Contemporâneos (Editora Uapê-RJ). Vários heterônimos como se fosse “uma” Pessoa. Eu, uma pessoa que escreve a vida, tentando a vida reescrever.




