Kalahari
Bárbara Petri
“Somos duas a partir de agora.” Sua voz continuava a lhe dizer que jamais conseguiria permanecer intacta após toda a explosão que havia experimentado durante os três últimos dias. Ela sabia que nada do que vivera fazia parte do mundo de ilusões criado por sua mente ou por alguma máquina do tempo que insistia em brincar com sua vida como se ela fosse um fantoche animado, ou inanimado, como preferia pensar sobre si mesma algumas vezes. Mas diante do espelho do quarto daquele hotel imundo, ela podia afirmar a si e a quem estivesse disposto a ouvir, que algo mudara.
Caminhando lentamente para fora das paredes ostensivamente brancas do quarto, ela notava que seus passos lhe indicavam que deveria tomar a direção contrária àquela que a trouxera até ali, mas calavam quando ela lhes perguntava para que rumo seguir. “Talvez devesse sentar na beira da estrada e esperar pra ver o que acontece…” Infelizmente, suas antepassadas não haviam lhe ensinado a esperar o destino, sua única espera era o tempo exato do assalto de uma alma. E foi lembrando de sua avó diante do fogão a lenha que ela continuou seu caminhar incerto pela areia vermelha do deserto. “Por que foi que eu tomei aquele avião?”
A cada abutre morto que encontrava, ouvia seus instintos gritarem para fugir dali, para se afastar antes que encontrasse as razões de ter chegado até aquele pedaço de inferno que nenhum ser jamais deveria conhecer. “Algumas coisas só acontecem comigo…” Sua audição apurada mandava que ficasse alerta e era difícil de acreditar no que seus olhos lhe mostravam: um imenso amontoado de terra e o silêncio abismal de um lugar inabitado. Entretanto, ela sentia que algo estava errado, podia ver, através da pele clara, seu sangue pulsar como lava incandescente. Era o perigo, era a morte e era delicioso.
Como um espectro, ele rompera o chão sob seus pés e já estava com a lâmina apontada para seu pescoço quando ela girou sobre si mesma e numa fração de segundos tocava com força precisa a têmpora esquerda de seu oponente, fazendo-o perder o sentido imediatamente. “O prazer é todo meu, docinho.” Tirando as roupas do homem que acabara de lhe atacar, ela percebeu que possuia no pulso, oculta pelo bracelete que ganhara de sua mãe quando ainda era adolescente, a mesma marca que ele trazia no dorso. “Da mesma cor, forma… é igual!” Apertando dois pontos entre a nuca e o crânio dele, ela o fizera ficar consciente outra vez, sem permitir, no entanto, que movesse qualquer músculo do corpo.
— O que é essa marca no seu peito? O que significa? — precisava saber que espécie de ligação eles possuiam, afinal, não era possível que alguém em outro país, em meio a um oceano de poeira, tivesse alguma conexão com sua vida.
— Não se lembra? Se tivesse me deixado falar antes de me derrubar, teria evitado toda essa… Você arrancou minhas roupas, sua maluca?! Nunca vai aprender a ir devagar, não é mesmo? Quer o quê agora, me deixar tetraplégico? - era estranha a forma familiar com a qual ele falava com ela, mas se eles se conheciam, qual o motivo dele ter mirado um punhal em sua garganta?
— Se me conhece, deveria saber que eu não deixo em pé quem me ataca. — seu espírito se acalmava sempre que ouvia a voz dele. Como se uma onda de silêncio lhe invadisse… Mas como? De onde eles…? O que aquele estranho sabia sobre ela que nem mesmo sua memória podia lhe contar?
— Sou eu, menina. Vim te buscar, se quiser partir dessa vertigem que criara. Ajudá-la a retornar ao que é teu, ao que é você, única, leve. Mas você jamais teria me notado se eu não pulasse sobre você. Só esperava que, após todo esse tempo, você não continuasse tão veloz. E precisa me contar como aprendeu a fazer um fulano falar sem conseguir mexer dos ombros pra baixo. Isso é demais! Bem, isso não importa… Porque você está tão linda quanto da última vez que te vi. Também está tão ácida, tão sozinha…
Enquanto ele falava, seus olhos fechados levavam-na para a varanda da casa onde passara toda a infância. Podia sentir o vento batendo nas árvores altas e até ouvir o ranger do velho portão de madeira. E via seu tempo passar, seus cabelos ficarem longos e as flores encherem suas madeixas escuras com poesia. Já fora tão suave quanto a lua nova… As imagens irrompiam em sua mente e a conduziam até os campos onde sua avó celebrava a renovação das eras, onde ela rodopiava para um céu estrelado, onde dera seu primeiro beijo no dono dos olhos da noite. E no meio da aridez inóspita, ela encontrava o caminho de volta. E anoitecia em seu mundo.
Bárbara Petri, 27 anos. Integrante-moderadora de um conjunto com 29 personalidades, já foi de números, hoje é de Lua. Pensa escrever, enquanto ocupa as iniciais V.B. e devora quilos de Chambinho. Tem mania de erguer a sobrancelha direita, é viciada em música e acredita ser uma X-Men. Escreve em seu blog.




