Fiordes: quando da aproximação dos estreitos
Raimundo Neto
Com o desejo virtuoso de ler um livro, animar-se simplesmente, Ana entrou numa loja qualquer, sem saber que o destino lhe reservava mais amor e menos livros. Empurrou a porta de vidro com apenas dois dedos e concentrou os olhos na última prateleira; nem conhecia o lugar e já tinha preferências. Sala fria, com um homem a respirar as letras guardadas em centenas de livros. Com a cabeça decidida a livros Ana parou por um instante, e sem se perceber estava frente a frente com Daniel. Comprimiram-se: o peito, ou os olhos, ou as pernas, ou as mãos. Uma luz que escurece ao contrário, que absorve sensatez, numa tontura apreciável como se outro mundo se lhes fosse apresentado.
A música de fundo, Francisco Alves, engordou a consciência dos dois, envelhecendo-os por um momento, uma idade cruel acrescentou-se, algo que exigiria sacrifícios, e que, talvez começasse a esboçar-se como possível quando eles se movessem um em direção ao outro: um dedo, apenas um dedo. Sabiam, num movimento consciente, mútuo, limpo, encantamento doce, que todas as pessoas são esquecíveis, e a vida pode ser saborosamente um mar de trocas. Dali em diante ninguém do passado precisaria voltar e fazer parte de suas vidas, pois eles se substituiriam.
Comportaram-se como dois labirintos. Seria possível perscrutarem-se, invadir um ao outro, bastaria um movimento. Um dedo apenas. Mas, nenhum movimento a tornava mais humana, nenhuma iniciativa a expectava, talvez a deixasse misteriosa, visto que estava ali com os olhos de gasolina, claros, mergulháveis, agora alimentados pela música de Fernando Alves, bem nutrido-se; ela que sempre, sempre se satisfizera, equivocadamente, com parca comida, agora teria uma refeição respeitável e completa chamada arbitrariamente de “Meu homem completamente desconhecido”.
Nenhum movimento, porém.
A vida reiniciou-se nos pés frios, que sutilmente pareceram humanizados. Um coração, que só os dedos dos pés entendiam que existia, começou a bater, vibrar, e a vida, esta que deixa uma mulher absoluta, estabelecida, saciada de si, subia em golpes lentos, pela perna, depois pelo resto de suas indecências, e atingia os lábios duros, nariz detido em cheiro novo, as orelhas surdas de tanta discrição.
Por fora do instante, de seus conteúdos súbitos, o vento, com mesura, mexia, não em vão, alguns fios de cabelo de Ana. O cabelo animado movimentava-se em mechas encorpadas, autóctones até, posto que eram tudo que Ana era, viviam no espaço da moça; estabeleceram-se, as mechas, no meio do rosto dela, as fronteiras de um mesmo lugar, separando ela dela mesma. Agora, o que os afastava era mais banal que um mero receio livre de amar um desconhecido: uma nova oportunidade que flutuava leve, ordem superior para que Daniel, e só ele, afastasse os cabelos para as origens altas da cabeça de Ana, ou na boa colocação de compridas mechas, atrás das orelhas, iniciando-se assim o que era para ser a realidade deles:
— Você estava assanhada.
Ela entenderia. Perfeitamente. Mas, nada. Nem um dedinho rápido movera-se.
Pareciam reflexo um do outro: braços magros, sem definições encantadoras, movimentos sempre os mesmos, olhos acinzentados, esclerótica espalhada deixando o olho pura brancura, e um pescoço de encaixe excelente que asseguraria carinhos comedidos por uma noite inteira.. E eles não se iniciaram, por assim dizer.
Os dedos dela tamborilavam na coxa, na sua coxa, experimentando maciez, saboreando a si própria, num amor engraçado, já que era dela por ela, sem mais e outros desapontamentos.
Estátuas. Dois humanos num mistério, não novo, apenas honesto, bravo até; uma Medusa dos tempos de hoje e sempre, endurecendo dois seres sem pioneirismos, seduzindo-os, enrijecendo qualquer iniciativa que salvasse o dia de amanhã. Sabiam que se precisariam qualquer dia desses. Um dedo que se movesse e eles bonificariam o futuro um do outro.
Ana havia pago o preço justo pelo livro. Pagava tudo com justeza.
Daniel, antes de enxergá-la de verdade, apenas entendia que qualquer homem, sem esforço, deixa cair-se de bom querer por uma mulher como Ana, que presenteia amigos queridos e, com dedicatória diligente, escreve com letras redondas e anunciativas: “Faça-me existir e correr de vento em popa!”. Nenhum erro a mais na vida, seria essa sua promessa firme. Bem sabia que chegaria em casa queimando de tanto querer mais amor, colocaria o que fosse preciso na mesa (novas flores, velhos livros, cadernos encapados, revistas passadas, perfume barato, algum aparelho moderno que o abismasse), abriria as janelas, deixando o interior da casa respirar de novo, permitindo a intrusão do sol de fim de tarde anunciando noite recente, e manteria o coração no lugar, deixando-o bater pelo seu máximo e pelo seu mínimo. E se ela quisesse ver seu sossego, ele revelaria; ou sua cara lavada, seu modo de rio agitado, com fogo existindo em erupções em algum lugar no fundo: o absurdo ali tão próximo dela.
Não poderiam deixar os olhares perderem a força.
Nenhum dedo se movia. Eles correriam sempre que possível um para o outro algum dia — era de entendimento secreto e mútuo — sempre que achassem que o abandono umedece de tristeza os olhos. E quando a vida estivesse resolvida dormiriam tarde, acordariam cedo, carregariam pelo resto do dia o sono, o cansaço, areia nos olhos, desregulariam todos os relógios de suas vidas, deixando o futuro pra depois: a filosofia de um amor vagabundo.
Assustados, quando o primeiro brilho recíproco de seus olhos quase os acordara daquele momento encoberto, pensaram que tudo era silêncio entre eles, ou simplesmente concentração. Não era. As feridas poderiam romper-se, derramar qualquer líquido grosso, e ainda assim estariam mergulhados um no outro. Um amor delambido; uma agonia certa; um receio de que outrem, cheio de absurdos e incoveniências, mesmo que só quisesse saborear um livro como ela, entrasse e quebrasse o instante mencionando o que para eles era perceptível mas amedrontador: “É amor isso que vejo estampado aí?”.
E a idéia do amor possível, enquanto eles não se nomeavam ainda, os rejuvenesceria daquele momento primeiro, ligaria o relógio da vida real, estalaria os dedos num som de agora, acordando-os um do outro, revivendo-os. A música de Francisco Alves, havia terminado, o amor decifrado como amor, a dúvida embranquecida pelos nomes certos e cumprimentos, enfim, iniciados, tornando-se entendidos, necessários, indispensavelmente “Minha Ana” e “Meu Daniel”.
Raimundo Neto, 24 anos. Estudante e Funcionário Público Temporário. Publica contos em seu blog. Faz Psicologia no Piauí, mas vive com a cabeça na Literatura do mundo todo. Não tem livros publicados, não participa de concursos literários e tem medo de elogios. Queria publicar seus contos numa antologia, um romance, e ter uma fotografia na orelha de O livro da minha vida.




