O céu pela boca do Urso


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Carlos Eduardo Bonini 

Ele disse que o amava, os gestos elegantes no corpo largo inspiravam fé. Primeira noite de contato, e na primeira noite já sentia muito mais que as carnes e os pêlos, a aliança do outro forjando rugas na sua pele. Fricção pouco pensada, mas muito desejada ao nascer de cada noite até então.

Em uma recepção de gala, Medina preenchia o smoking com sua beleza bufa, senhor a emular um trator impiedoso que se amansa diante da recompensa. Já o garçom, garotinho longe ainda dos vinte — pele de leite como pista de histórias para contar. Uma recompensa. Nasciam as histórias para contar.

O amor começou pela trilha de alcunhas suaves, nomes saindo da boca do velho e fazendo cócegas na orelha de Alex. Palavras de infância, um sol de quintal na casa do avô. Nas primeiras noites o peso do amante ainda lhe era estranho, mas o fardo foi se consumindo e restou apenas um cobertor de gratidão e perfeita comunhão a envolver o casal. Os dois tão diferentes: um magro, a pele sem pêlos — excessivamente branca, ainda os pontinhos vermelhos —, o outro de tal porte que mal conseguiria se esgueirar por uma porta sem dificuldade. O par em concha, certa estranheza, uma satisfação proibida ao deitar — os queixos se tocando gritavam um calor atípico —, e finalmente a certeza da condenação ao sentir tamanho rebento no gozo. Mas enfrentariam juntos, e que viessem todos os círculos do inferno a convocá-los: jamais lhes diriam não

Medina abraçava Alex com suas patas desordeiras, bagunçava o cabelo do amante para permitir o riso aos amigos. Fazia alguma troça e desaguava em urro frenético, irritante para qualquer vivente mas que enchia de graça o rosto do garoto. O velho passou a incluir em sua agenda algumas turnês pela noite ao lado do seu protegido — troféu lustroso, barato e provedor de boas impressões.

Alex se deslumbrava diante das tantas coisas que Medina conhecia — os bares já visitados, pessoas conhecidas, bebidas degustadas. Até então, o menino havia apenas bebido, bebido como moleque que era, e se encantava frente à perícia do namorado em sorver um líquido qualquer e dali construir alguma observação. Aquele homem estava muito além de qualquer elucubração mais delirante do garoto, era quem vinha estender-lhe a mão e levá-lo para um mundo além daquelas noites em pé, horas cansadas servindo glutões e bulímicas nos salões de festas de um mundo que não o seu.

O velho gostava do garoto, que lhe servia muito bem. Dois meses juntos, o garoto havia preparado um prato de infância, coisas de avó. Empesteou-se a casa com cheiro de comida de pobre, dos temperos mal conciliados que ofendem narizes treinados. O velho, tutor na alma, amarrou o menino e fez com que ele obedecesse a cada uma das ordens que seguiram — servir-lhe os prazeres que mesmo um débil mental poderia servir.

E horas assim, nem bom nem ruim, o gosto salgado por herança. “Agora tenho fome”: Medina devorou todo o prato preparado pelo garoto, a comida triste e emborrachada, saiu largando pelas quinas o cheiro de urso e as bravatas de nunca mais.

Acordado pelas dores, Alex parou pela janela, lamentou-se entre a lembrança de ontem e uma esperança azeda, olhou uma cidade toda granulada de vida. A silhueta emoldurada pela janela — provável que alguém presenciasse seu momento único —, teve certeza de que nenhum par — condenado ou não, natimorto ou apaixonado — havia sido tão agraciado. Com a graça, haveria de vir o perdão e tudo mais de belo que um coração pode querer. Além disso, Medina havia esquecido seu paletó amarrotado no chão.

E a pele de Alex mais branca que nunca, mais e mais salpicada de dádivas vermelhas purulentas. Depois da tormenta, muitas delas — no rosto, no peito, no lombo —, um mapa para todos os velhos que sabem que onde há pus, há vida. E eles sempre vão buscar.

Carlos Eduardo Bonini, vinte e alguns. Escrevo há muitos, mas publico há poucos. Talvez leve ainda tantos para ter algo meu publicado em papel, mas me viro como posso. Influenciado pela terra vermelha, pelo transparente dos olhos e pelo cinza das intenções.

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