Apartamento 502


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Luís Fernando Pinotti Silva

Para Carolina Medina

De vez em quando, tudo isso é uma merda e eu abro a janela para ver qual é a da rua. Sinto uma lufada de vento, aspiro, estufo o peito, encho o pulmão com um misto de monóxido e concreto e paro. A fome sumiu. Aí eu fico indignado porque já tem dois dias que estou tentando enganar essa filha da puta com tudo o que você pode imaginar e não consigo. Ontem, veja bem, parecia que tinha um bicho me roendo as entranhas e eu já fico com o cu na mão pensando que é aquela doença desgraçada que chupa o fígado por causa da bebida em excesso, mas acabo percebendo que não é nada disso porque tem um ronco que sussurra de dentro para fora, clamando, pedindo por algo que não existe, pelo menos não onde eu moro. Então eu me sinto aliviado, vou até o armário da cozinha e volto acompanhado por aquela vodca vagabunda que a gente adora beber antes de sujar ainda mais o meu colchão florido com porra viscosa e branca. Quero dizer, ela já está amarelada e eu tenho medo de estar doente e te passar alguma coisa, mas você teima em me sorrir um sorriso único, logo depois dizendo que não passou a noite toda rebolando num palco mal-iluminado da Augusta para chegar em casa e não receber a única coisa que lhe dá algum prazer. Aí é que eu penso em como deve ser boa a tua vida de puta porque você sempre gostou de dançar, exibindo seu corpo de sílfide num vestido repleto de brilhos e plumas, daqueles que eu nunca teria dinheiro para te comprar, nem se vendesse toda a coleção de selos que herdei de meu pai. Eu penso, enquanto acendo um cigarro e tento alcançar o controle remoto do televisor com os pés, que tua vida de puta deve ser mesmo um encanto porque você sempre chega de porre e se orgulha em poder tomar todos os daiquiris que tiver vontade porque o jovem garçom, um mulatinho de bigodes ralos, está perdidamente apaixonado e deve seguir à risca a dieta americana para se evitar o médico, trocando a maçã por uma punhetinha de classe. E que fuma cigarros estrangeiros, com piteira, fazendo com que você se sinta como a Bette Davis naqueles filmes da madrugada que te fazem chorar baixinho enquanto deita sua cabeça no meu peito, segura meu indicador com força e diz que morre se um dia eu morrer, mas no fundo eu quero partir primeiro porque você é extremamente utópica e porque nunca vai deixar de ser linda e o mundo só tem compaixão do que é belo, não de um escritor bêbado e fodido, por isso é melhor que eu morra antes pois você é a única pessoa que faz com que eu prefira uma companheira a um livro e que tem me feito desaprender a gostar da solidão, o que é ruim para alguém que não tem o hábito de receber carinho sequer de um cachorro. E você pede sempre que eu leia aquele meu poema sobre losangos coloridos, escuta de olhos baixos e chora, pedindo se pode ficar comigo naquela noite, mal sabendo que você é a dona de todos os meus instantes, e dizendo que, na verdade, não gostaria de ter de ir embora, que queria era ficar comigo pelo resto da vida e eu te desencorajo porque eu sei que é boa a vida de puta, ainda mais se comparada a um apartamento pequeno, sujo, decadente, legítimo casulo de mim mesmo. Então você coloca um cigarro na boca, o acende e o deixa em meus lábios, que sente o suave toque de seus dedos pequenos, finos, de pontas pintadas em vermelho-coração, enquanto me abraça forte e eu sinto teus seios tremerem na consonância de teu corpo nu, e dou duas tragadas, ofereço e você me diz que não pode fumar, conseguindo arrancar de mim um sorriso de ternura e incredulidade. É quando eu afago teus cabelos, minha Iracema do centro, saio da cama e volto com um copo de uísque sem gelo, coloco o “Cookin’”, do Miles Davis para sangrar, me deito contigo e você me diz que não pode beber e eu não entendo nada, mas percebo que há relâmpagos nos céus e que é a oitava noite em que você chega na minha casa sem hálito de rum ou cheiro de nicotina por entre os dentes, assim eu te encaro com delicadeza e tento explicar que não fui feito para ser amado e que a decisão de não envolver dinheiro em nossa relação foi inteiramente sua, mas você retruca e diz que comigo nunca se sentiu uma puta e que comigo é para valer e que é comigo que você vai estar para criar o filho que está esperando para dezembro. Nosso filho, você diz. E eu apago meu cigarro na parede, bem ao lado daquela foto do Doisneau que você adora, te beijo na boca como nunca, arremesso o copo de uísque pela janela, pouco me fodendo se vou acertar algo ou alguém e choro com a intimidade de quem se despede do vento, como se não precisasse de mais nada para saciar o que quer que seja.

Luís Fernando Pinotti Silva tem 28 anos, é libriano, flamenguista, já tocou percussão em botequim, nunca tomou o Daime, cinéfilo, não fuma, não bebe, não é considerado o salvador da literatura, muito menos do rock and roll. Gosta de escrever, já publicou seus contos em diversos sites da internet e numa antologia de novos escritores, publicada no eixo Norte-Nordeste. Deposita todas as suas neuras em seu blog.

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