Rua Alvorada
Emerson Wiskow
Durante toda aquela tarde de calor infernal os moradores da rua não colocaram o nariz para fora. Ninguém agüentava mais. Árvores, flores, cachorros, humanos, pássaros, insetos… Tudo sufocava, amolecia, esvaia-se até secar. A rua agonizava, fervia mergulhada numa massa quente. Fazia um mormaço terrível.
Um pequeno pardal tentou um vôo desesperado e não conseguiu. Despencou exausto e buscou refúgio na sombra de uma pedra. O bico aberto à cata de ar e de forças não foram suficientes para ele resistir ao calor. Foi o primeiro a morrer, depois dele, perto da casa oito um cão agonizava sobre o asfalto que fervia. Dona Maria observou horrorizada a cena. Já tonta e com os olhos embaçados ela tentou ir de encontro ao cão. Juntou forças para tentar o resgate e caiu antes mesmo de conseguir chegar ao portão que ficava a três metros de sua casa. Foi o segundo ser que pereceu sob o calor avassalador, o terceiro foi o cão que assava a língua esticada sobre asfalto escaldante.
As horas passavam lentas e o calor tornava-se cada vez mais sufocante. As rádios não sintonizavam, nem mesmo as televisões. Os telefones ficaram mudos. Todos os eletro-eletrônicos pararam de funcionar. Fios derretiam-se e desmanchavam-se continuamente transformando-se numa massa disforme. Os moradores ficaram sem qualquer informação ou contato com o mundo fora da Rua Alvorada. A rua tornou-se um ponto isolado no emaranhado de ruas da cidade.
O calor aumentava. Desesperados três homens e duas mulheres enrolaram-se em lençóis, encharcaram-se com água e saíram correndo na tentativa de fugir daquele inferno. Tombaram os cinco, sufocados e esgotados. Alguns minutos depois ferviam sobre o asfalto. A carne enegrecia aos poucos, os olhos esbugalhados, já sem vida, mostravam a agonia que passaram.
Mergulhada naquela massa quente a rua parecia tremular silenciosa como se não houvesse nada vivo por ali. Não se ouvia mais gritos. Ninguém tinha mais forças para gritar. Outros cães morreram, assim como pessoas, insetos, pássaros. O desespero tomou conta dos moradores. Alguns se arrastavam como moluscos anestesiados, outros juntavam o resto de força e rezavam enquanto o sol continuava explodindo lá fora. Uma família acompanhada por seus vizinhos juntou-se sob uma grande árvore. Repartiram a sombra e tentaram respirar. Os corpos encharcados de suor moviam-se lentamente, com moleza e desânimo. Observavam o tempo e esperavam, olhavam para o céu desejosos de encontrar alguma nuvem e contavam os minutos na esperança da noite chegar para amenizar o calor. Um a um caíram como folhas pressas em árvores por uma linha fina e frágil. Logo a Rua Alvorada encheu-se de mortes. Pássaros morriam, gatos, insetos, humanos. Tudo torrava. Ninguém sabia o que fazer. Agonizavam e o sol ardia cada vez mais.
As horas passavam numa morosidade inigualável. Perto, a vida continuava normalmente, nas ruas vizinhas, nas ruas dos outros bairros, nas ruas da cidade. Pessoas continuavam a viver e a realizar suas tarefas cotidianas sem nada saber do que acontecia na Rua Alvorada. Quase desmaiando um homem tentou loucamente se livrar do calor mergulhado numa banheira cheia de água. A água esquentou rapidamente chegando ao ponto de ferver. O homem desistiu, sufocou, catou o ar com todas suas forças até cair esgotado. Muitas mulheres choravam quase nuas, suas roupas ensopavam de suor. Na casa catorze uma família recolhia seus mortos. Sobre a cama do quarto do casal jaziam três pessoas da família. Um ao lado do outro eram velados naquele bafo quente no qual o quarto estava mergulhado. A janela aberta tentava resgatar um pouco de ar. Após algum tempo o filho mais velho carregou o quarto membro da família para a cama mortuária. Depois, esgotado ele fraquejou e deixou-se levar.
Sete horas da tarde e o sol continuou implacável, o mormaço não dava trégua e nada se movia. Os olhos ardiam na claridade da rua, o chão salpicado por pequenos defuntos dava a cena um ar bizarro. Cães com a língua de fora, mortos, espalhavam-se pelos pátios das casas, na rua e nas calçadas em frente às residências. Junto a eles pássaros e outros pequenos animais também jaziam espalhados pela Rua Alvorada. A única esperança tornou-se a noite que não chegava. Pensavam que com ela o mormaço, o calor e sol dessem lugar a alguma brisa, e com ela poderiam fugir dali. Do inferno que se abatera sobre a rua, sobre a cidade. Não sabiam que nas ruas vizinhas a vida continuava se desenrolando sem nada de anormal. O mormaço estancara sobre a Rua Alvorada engolindo-a como um monstro feito de massa quente. Ninguém mais conseguia respirar, ninguém mais agüentou. A noite chegou depois de uma eternidade que os relógios não marcaram, e uma suave brisa soprou sobre a Rua Alvorada.
Já não havia nenhum ser vivo que respirava na Rua Alvorada.
Emerson Wiskow escreve em seu blog e para o site Bagatelas. Não se considera escritor. Também desenha cartoons.




