As colinas distantes perdidas*
Rafael Rodrigues
Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como o palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da platéia que sorria.
Charles Chaplin
Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração ou anda sozinha me esperando pra dizer coisas de amor?
Los Hermanos – “Fingi na hora rir”
De faz de conta segurei tua face e a coloquei bem rente à minha. Fechei os olhos e, de brincadeira, fiz que te beijaria a boca. Quando abri meus olhos, vi os teus ainda fechados. Foi quando percebi que já não mais brincávamos e que finalmente meu sonho se tornaria realidade. Sem pensar duas vezes, te beijei.
Nosso primeiro beijo foi longo, desesperado e, durante ele, senti um leve sofrer. Isso me fez acreditar no amigo que uma vez me disse assim:
— Ela também sente algo por você.
Você também me queria, em silêncio.
Quando nosso beijo terminou, eu estava aturdido, sem ter o que fazer ou para onde olhar. Apoiei as minhas mãos — que há pouco haviam passeado por teus cabelos, ombros, costas, braços e até por tuas nádegas, em um movimento tímido, rápido e meio-sem-querer — em um lugar qualquer que nem me lembro e olhava na direção da tua cintura, mas não era ela que eu via. Eu não via nada. Apenas sentia. Torpor.
E eu disse, meio sem saber o que dizer:
— Eu… eu… eu não estou acreditando.
Só acreditei quando menos deveria acreditar. Foi depois de te ouvir dizer, muito séria:
— Você é desse tamanho pra mim, ó (e afastou bem as mãos). Não é desse, não (juntou bem as mãos).
Ruborizei como nunca em minha vida. Senti meu rosto vermelho, ardendo, em fogo. Você dizia:
— Daqui a pouco eu vou querer morrer.
Respondi:
— Me desculpa, não era pra isso ter acontecido. Eu só…
Você não me deixou terminar.
— Não, não é isso. É que… Eu nunca vou te ter. E ao mesmo tempo vou participar de toda a tua vida. Vou ver teus filhos crescerem, mas não vou ser a mãe deles. Vou ver o teu sucesso e não serei eu a estar ao teu lado, te dando apoio. Vou ouvir as histórias das viagens que eu deveria fazer contigo, e que você vai fazer com ela.
Você estava mesmo falando sério. E dava para perceber — agora eu já olhava e conseguia te ver — que teu olhar também não via nada.
— Então vamos viver juntos — eu disse. Isso significava abandonarmos nossos vulgos amores e nos aventurar a viver uma nova história que poderia — ou não — dar certo.
Você olhou pra mim e sorriu, e isso me pareceu um sim. Quando tudo dava a entender que íamos de novo nos beijar, mas sem culpa, desta vez, comecei a enxergar algumas coisas.
Eu havia entrado naquela casa com um casal de amigos. Você já estava lá quando chegamos, só Deus sabe como. Eu não fazia idéia de onde estava, mas parecia ser a tua casa. Isso não explica o fato de eu ter entrado nela, pois não tenho as chaves. Mas explica o fato de eu não conseguir construir imagem real qualquer em minha mente, além da tua, pois nunca fui em teu lar.
Percebi então que era um sonho. Nada disso aconteceu.
Mas o sonho era tão real… O sonho era real…
E nada mais era.
*Título de um conto de Arturo Bandini, protagonista do romance Pergunte ao pó, de John Fante.
Rafael Rodrigues tem 24 anos e mora em Feira de Santana, Bahia. Publica contos e resenhas de livros na internet desde 2003. É editor-assistente e colunista do site Digestivo Cultural. Escreve em seu blog.




