Uma herança
Carlos Eduardo Bonini
Minha vida foi feita cadafalso do desperdício, momento e momento se seguindo em vão. Tantos meses sem beijar boca alguma — vez me veio que a boca é seca, talvez eu tenha tido má sorte. Já há dias sem interlocutores, cansados que todos ficaram.
Cortaram o cordão e outros nojos, limparam a sujeira e cerziram o destino forte demais. Saudade da edícula, pintar a edícula vestindo um macacão, de varar a estação me alimentando apenas da luz que vazava oblíqua o vidro da janela. Veio o ano seguinte e derrubaram tudo para fazer uma piscina — luxo da mamãe ociosa e do papai vaidoso. Por mim a edícula ficaria intacta; poderiam mesmo erguer mais andares, desde que as janelas fossem limpas com freqüência razoável. O sol deveria entrar sempre.
Eram tempos em que a vizinha de meia-idade gostava de se expor na janela do seu sobrado; ela punha o maiô mais vistoso, apoiava os peitos na janela e esperava que eu olhasse. Eu olhava, olhava sem interesse. De alguma forma eu a ofendia e a excitava, ela passou a se exibir de forma mais agressiva: do maiô para os biquínis e então para a pele enrugada se mostrando desavergonhada. Eu olhava, mas meu interesse estava na garrafa de água açucarada que seu marido instalara ao lado de sua janela. Um bom homem, um obcecado admirador dos beija-flores. Eu também gostava deles — bichos que estavam aqui em um segundo, no outro pipocavam a cem metros. Adeus, bichinhos. Se eles voltavam, não sei: eram lindos, mas todos iguais.
A dona se cansou da minha recusa e veio ter com meu pai: as palavras da mulher ferida na auto-estima, os dedos do meu pai rasgando minha orelha. Absurdo um filho dele olhar para mulher casada, que eu me retirasse por tempo indefinido e não falasse com meus amigos. Papai tinha suas debilidades sociais, infelizmente ninguém lhe mostrara que paternidade era uma delas. Eu vivia recluso e não tinha amigos. Em um gesto breve, o resumo da minha história vindoura.
Bastante resumida minha vida toda: tantos caminhos e escolhi ficar alheio. Olhando de longe, apenas: o papel de espectador, em certo instante travestido de epifania, se mostra sedutor.
Meus dias se fizeram breves instantes, e milhões de instantes depois me apoiei na janela do meu apartamento e a avistei dois prédios adiante: o corpo de doze anos saracoteava entre os móveis, a toalha despreocupada cedia e fazia reluzir a carne serena. Não havia pássaros nas cercanias; se houvesse, eu os ignoraria. A pele, essa se mostrava sem vergonha — a culpa não havia de ter invadido com suas hordas truculentas aquele templo. Um templo construído com tijolos de carne, as ligas dadas pelo perfume de menina com o cabelo molhado.
Duas horas atrás eu a encontrei em uma rua adjacente à nossa. Era a mesma de todas as noites: uma serigrafia feita no vidro da sua casa, um sonho recorrente para mim. Um idílio que me permite a retomada da ida serenidade — um sonho generoso.
Eu perguntei se podia tocá-la, se fosse contagiosa aquela ternura eu queria saber naquele segundo. Deu-me a esquiva, eu a joguei contra a marquise de um prédio abandonado e murmurei canções que ela não entenderia: que me deixasse fundir minha cólera e sua serenidade, que pensasse naquilo como um favor a um desconhecido.
E que deixasse o sol entrar — sempre.
Carlos Eduardo Bonini, vinte e alguns. Escrevo há muitos, mas publico há poucos. Talvez leve ainda tantos para ter algo meu publicado em papel, mas me viro como posso. Influenciado pela terra vermelha, pelo transparente dos olhos e pelo cinza das intenções.




