Espelho espatifado por tiro


A+  A-  C  F   P

Arnaldo Sobrinho

Daqui a pouco se completariam três dias. Hospedara-se ali, há quase setenta e duas horas se mantinha trancado no quarto. Três dias que não via ninguém. Três dias que não comia ou bebia qualquer coisa. Roupas sujas espalhadas pelo chão. Um cheiro acre impregna o ar abafado. Morno. Azedo. Gosto de iogurte talhado. O ar tem gosto e é um gosto de podre. Três dias sem contato humano; três dias que não fazia a barba ou tomava banho ou sentia a luz do sol na cara. Sequer levantava da cama. Não sabia o que fazia ali. Apenas fazia. Fazia.

Dor. Uma ou outra sensação esparsa. Muita dor. É bom sentir essa dor; ainda estou vivo. Morde o lábio inferior com força, e sente que uma gota de sangue lhe escapa e escorre pelo queixo. Uma chaga recém-aberta. Me mantém acordado. Sente o corpo magro e asqueroso levitando e fecha os olhos. Dor de mil agulhas perfurando o corpo. Não quer ver mais nada. Basta. Não me vê. Não pode. Não sabe que estou aqui. Ou talvez saiba, mas prefere acreditar que não. Eu inexisto. Você acredita nisso.

Tampa os ouvidos com as mãos, tem dor de cabeça. Tudo gera. Tudo pulsa. Vibra. Pode me ouvir, sei que pode. Mas não quer. Não quer admitir que o grão de feijão rompa a camada de algodão encharcado. Quer fingir que não. Eu inexisto. Latejo.

O quarto agora é uma boca enorme e negra, profunda como um abismo. Sua na cama, arranca os lençóis. Está delirando. O quarto-boca-abismo o persegue como fera no encalço da presa, urra coisas ininteligíveis. Sabe que não tem como escapar. Sabe que não pode haver fuga. Cai entre os dentes enormes e sente a saliva quente e gosmenta envolver seu corpo quente e gosmento, deixa-se estar ali. Sabe que. A boca começa a se fechar, dentes descendo sobre dentes. Pensa em pontes levadiças de filmes épicos, seus dragões e princesas e fossos de crocodilos. Crocodilos. Os dentes enfim se fecham, encaixando-se uns entre os outros. Acabou. Não há fuga. Nunca.
Silêncio. Silêncio. Nada. Pensa-se novamente no útero da mãe. ?

De súbito, a campainha. Corte bruto, não há espaço pra misericórdias descabidas. Cordão umbilical decepado a machado. Levanta-se da cama e vai até a porta, a camisa empapada de suor. Anda com dificuldade, arfante. Mas sentia. Abre a porta esfregando os olhos e dá de cara com a camareira. Olha os seios fartos debaixo do uniforme adolescente. Coxas. Peitos.

Alguém o esperava lá embaixo.

Arnaldo Sobrinho é graduado em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente, enlouquece aos poucos às voltas com seu primeiro livro de contos, a sair até o final do ano. Também está tentando concluir sua graduação em Língua e Literatura Francesa, e escreve em seu blog.

A+  A-  C  F   P   T




Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail