Vida B


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Tiago Martins de Morais

Ela olha o corpo do jovem sem camisa que admira o mar e não consegue ver a expressão de seu rosto, pois o reflexo do sol pousa bem na frente. Baixa os olhos para o copo de cerveja, olhando, antes disso — sem perceber ou sem admitir que percebe — para os lados. Olha de novo e irrita-se, pois tudo o que ela consegue ver é exatamente o que quer ver, o corpo desenhado daquele observador marítimo que deve ter metade de sua idade. O vento de fim de tarde sopra forte e ela sente seus cabelos voarem. A súbita onda de segurança faz com que se detenha, sem seus incontroláveis pudores, no corpo do rapaz. Observa seus ombros retos e firmes e desce com os olhos até a leve elevação abaixo do ombro que vai aumentando cada vez mais até formar um peito farto, firme e poderoso. Pensa em lentamente olhar para todo o corpo que parece estar ali, a disposição de seu olhar, já que o sol faz o serviço de impedir que ele a descubra, mas o pensamento é rápido e ela olha direto para a sunga preta; apertada. Vê um volume quase indecente no meio e tenta imaginar algo que não seja a imagem arquetípica que tem em mente; graças a seu marido. Essa imagem ilusória lhe agrada mais e ela segue, fixa, a observar o volume da sunga do desconhecido. O vento de fim de tarde lhe causa um arrepio e ela sente os lábios tão secos quanto um deserto. Bebe um longo gole de cerveja e se culpa, mas já não sente sede.

Quem é ela, ali, bebendo cerveja? Uma criminosa. Foi até a praia para relaxar, para se sentir bem, colocou um biquíni e, por cima, um vestido de praia verde, prendeu o cabelo, e saiu de casa. Sente-se uma criminosa; sente-se culpada. Longe, longe de se sentir livre. O fato de estar na beira da praia, sozinha, bebendo cerveja em uma mesa amarela de plástico está exatamente dentro dos planos que fez quando saiu, mas isso faz com que se sinta antinatural. Faz com que pense que todos estão a observando e pensando que ela, mulher quase atraente de cinqüenta anos, está representando o papel errado. Ou, pelo menos, que está representando muito mal o papel de uma mulher livre de pudores, preconceitos, medos e obscuridades intelectuais que resolve tranqüilamente, sem afetações, passear pela praia no fim do dia e olhar com desejo, em sua condição de mulher, para um desses jovens malhados que aparecem em qualquer canto.

Ela não é feia, tem o rosto jovem e bem-cuidado, o corpo já não é mais tão magro, mas sem que ela saiba ou se permita saber, os homens mais experientes, com o olhar mais treinado pelo tempo, ainda a observam na rua. Talvez, é claro, não a ponto de se voltarem sem esconder dos outros passantes que estão, como cachorros, olhando para um grande e dourado pedaço de frango. Mas ainda a olham.

Ela tem os olhos certos; certeiros. Enquanto vinha até a praia, andava num passo lento-seguro, olhava as pessoas por cima e fingia uma naturalidade que lhe dava forças e que lhe deu forças para chegar ao quiosque beira-mar e pedir uma cerveja, apontando em seguida para a mesa em que pretendia se sentar. Quando finalmente se sentou, estava extremamente exausta de tudo aquilo e a insegurança que soube esconder de quase todos durante toda a vida, voltou com fúria.

O homem que ela vigia se senta; agora ela enxerga parte de seu rosto e as costas largas, que parecem, nas laterais, asas. Aquela imagem não a excita tanto e ela se perde nos seus pensamentos. Mas um rapaz baixinho e franzino vem lhe entregar a comanda da cerveja e pergunta seu nome.

— Como? — Ela não entende.

O nome, ele quer, para escrever na comanda.

— Ana. Ana Lúcia.

Ele, com pressa, escreve apenas Ana, e sai. Ela quer pedir outra cerveja, mas não pede; ele já se afastou.

Pensa no marido. Ali, tão perto do sujeito que atraiu seu olhar. Pensa no marido e fica olhando para o copo de cerveja, quer evitar as comparações-decepções. Só conheceu intimamente dois homens. O primeiro namorado, durou seis anos, e o marido, até agora, vinte e quatro anos. Não se lembra do primeiro namorado, ao menos não em detalhes, cor dos olhos, se lhe atraía ou não. O marido é quase gordo, descuidado com a aparência, a deixa com nojo quando tira a roupa e fica só com aquelas meias pretas e com a cueca branca ou amarelada, um nojo que — imagina — se sente de um estuprador. Mas ela se acostumou a ele; foi se acostumando às poucas palavras que eles passaram a trocar, foi se acostumando a ouvi-lo comentar e reclamar sobre o trabalho e também foi se acostumando a sua catatonia, quando ela resolvia falar de si mesma. Os dois acostumaram-se aos vícios de seus papéis. É um vício, afinal, ser sempre o mesmo personagem.

Agora, ela cai em uma apatia. É difícil deduzir exatamente o que ela está pensando, muito embora todas as suas expressões sejam sempre tão transparentes. Antes fora fácil ver o desejo com que ela olhava para o jovem descamisado. O desejo de uma mulher tão pouco consciente que sequer entende seus próprios desejos. Ela se perguntará sobre o que está fazendo ali, exilada? Mudou-se para Alhures, esta isolada praia do Rio Grande do Sul, há um ano. O marido precisava vir, pois um emprego em Torres, um cargo razoável, fez com que ele decidisse, sem muito hesitar, a deixar Porto Alegre. Ela veio junto, apática, achando — sem perceber que era uma desculpa, como tantas outras que dera a si mesma — que seria uma boa idéia viver na praia.

De coisas desse tipo a vida de todo mundo está cheia; de ilusões e de falsas crenças também, é difícil escapar das falácias que criamos para nós mesmos. Somos todos um grande e complexo labirinto de desculpas, sublimações e esquecimentos. Mas ela, Ana Lúcia, que sempre quis ser chamada apenas de Lúcia, mas nunca se portou de forma que pudesse sustentar a força desse segundo nome, viveu demasiado perdida nesse labirinto. Sem saber que estava num labirinto, achando que assim era a vida. Deixou os dois relacionamentos que teve tomarem grande parte de suas energias. Quando o primeiro macho a deixou, foi a primeira crise; depois, talvez, tenha se acostumado a viver longas crises, em silêncio, cansando no escuro. A vida até ia indo, ela pretendia cursas Artes Plásticas em alguma faculdade. Sensível, sempre foi afeita, mesmo que à distância, às artes. Talvez fosse sensível em demasia para compreender simbolismos e desfazer códigos, mas não sabia disso. O segundo amor, que virou um casamento, foi o band-aid para o término do primeiro. Então, aqueles planos ficaram de lado. O casamento, o primeiro filho e poucos anos mais tarde uma filha, fizeram com que ela esquecesse certas idéias.

Difícil acreditar que ela esteja satisfeita em estar aqui, em viver esta vida. Não porque vivemos em tempos em que parece tão pouco que uma mulher apenas case e tenha filhos, mas porque ela viveu tudo isso numa apatia de dia de chuva. Porque pensou em fazer tantas coisas enquanto tudo isso acontecia — o casamento, os filhos, as crises e finalmente a mudança — e nada fez. Às vezes, a chuva e o frio — numa manhã de inverno — nos mantêm em casa, dormindo até mais tarde. Toda a sua vida foi assim, os planos foram deixados de lado, porque ficar na cama parecia mais fácil, confortável e menos assustador.

Ela nunca traiu o marido. Tinha força suficiente para desafiá-lo e demonstrar sua insatisfação quando o descobria olhando para outras mulheres. Mas não sabia identificar seus desejos a ponto de trair. Não sabia atendê-los. Talvez fosse essa oposição que tenha gerado a total falta de amizade entre ela e sua filha. Roberta era forte, ágil e explicativa. Talvez sofresse com a oposição que via na mãe.

Ela aproveita que o rapaz franzino está perto e pede uma segunda cerveja. Estará ela lutando contra sua própria duplicidade ou vontade de ser outra? Ou o tempo em que está sentada ali e a cerveja já a deixaram mais à vontade? Não. Não vamos idealizar esta personagem, ela não está confortável, ainda se sente mal, ainda se sente uma má atriz num papel errado; ela é assim, ela é fraca, ela é néscia.

O rapaz da beira do mar se levanta e ela o olha imediatamente. Detém o olhar em seus braços cruzados que, por estarem cruzados, parecem mais musculosos. Ela olha o abdômen e agora, sem o reflexo do sol, consegue ver o seu rosto. Bebe um gole de cerveja e fica o olhando, como se quisesse unir os dois prazeres no mesmo segundo. Ele tem os cabelos secos e lisos; bagunçados pelo vento. Ela se detém nos cabelos dele e parece se agradar com aquela desordem, com os movimentos que o vento faz sem que o objeto de seu olhar dê atenção a isso. De repente, ela deseja aquele homem como talvez nunca tenha desejado nada antes, com uma força que talvez seja o impulso suficiente para que apesar da chuva e do frio, ela resolva sair de casa, na confortável manhã de inverno.

Ela se levanta, ensaiando aquele passo seguro que sabe imitar, lutando sabe se lá com que contradições internas. Caminha pela areia e pára ao lado do jovem. Não o olha, olha para o mar, finge uma seriedade concentrada e percebe, com o canto do olho direito, que ele volta a cabeça em sua direção.

Ela o olha e o olhar dos dois se cruza rapidamente. Ele, no entanto, só virou a cabeça para constatar quem estava ao seu lado. Ela sustenta o olhar; está quase em êxtase por ter tido coragem de andar até ali, só para ficar ao lado do macho que atraiu uma fêmea no cio; um cio que foi sempre tão reprimido. Ela o olha dos pés a cabeça, visivelmente observando com mais atenção os lugares que mais lhe interessam; as coxas, a marca do pênis na sunga — que percebe agora estar molhada —, o peito e os cabelos.

O rapaz percebe que está sendo observado e volta os olhos para ela. Assustada ou pelo menos surpresa pelo fato de ele a estar olhando tão fixamente agora — mesmo que sem qualquer expressão no olhar, a não ser uma seriedade tranqüila —, ela lhe fala alguma coisa. Ele estica o braço até o alto e abaixa; colocando o pulso na mira dos olhos. Do relógio vem a resposta, e um olhar sério e tremendamente malicioso a acompanha. Ele se espreguiça, esticando todos os músculos, ao que ela observa atentamente, e fala alguma coisa para ela. Ela, um pouco menos segura de si, responde algo rapidamente, sorri e volta para a sua mesa, que se antes era uma revolta, agora é um refúgio.

Ela toma um longo gole de cerveja, fecha os olhos, tentando se recuperar. Há um misto de adrenalina e prazer nela, mas quase pode sentir o gosto do arrependimento naquele gole de cerveja. Quando olha de novo para a beira da praia, vê um casal de velhinhos andando lentamente, em silêncio. No entanto, eles não olham para o mar.

Tiago Martins de Morais é graduando em Letras pela UFRGS, Professor de Redação e Revisor de Textos. Tem contos publicados no livro Oficina 31, organizado por Luiz Antonio de Assis Brasil e na revista virtual Bestiário, edição de abril/2004.

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