Morte súbita
Marco Polli
Quanto esta cena é improvável? Sou conhecida por ter um surpreendente gosto para namorados, comparam-me aos cinéfilos que adoram filmes lentos e esquisitos e destacam neles maravilhas que os outros consideram sutis demais ou apenas inexistentes. Alguém poderia muito bem estar no meu quarto, mas não deveria ser André. É fácil notar que o gênero feminino elege alguns homens que nunca terão falta de sexo ou atenção. Para eles, o conjunto das mulheres são um tipo de estoque de livre acesso, e se por acaso agem como traidores e canalhas, isso apenas os deixa como figuras mais intensas e faladas. A improbabilidade era afinal sobre mim, nunca havia estado nessa posição, como uma operária designada pelo meu gênero, garantindo os serviços que André, um rapaz darwiniamente desejável, deveria ter.
Mas deveria sempre então? Sem que nada fosse dito, o sexo freqüentemente, mais do que diário na verdade, tornou-se uma regra em nosso namoro. Eu estava aproveitando, mas a obrigação passa a me incomodar. Em alguma época, o sexo antes do casamento era o problema, hoje o tabu é não ser sexualmente atlética, sempre. André, de tão mal costumado, certamente não aceitará nada a não ser a recorrência certa das transas selvagens. O problema para mim não é o sexo, mas justamente a previsibilidade. O nosso término está próximo, acho. A funcionária que se revolta.
Deve ser o nosso fim, mas, no meu quarto agora, a cena desta manhã tem alguma graça. Nos jogos da universidade, eu estou no time de futebol de salão com as minhas colegas da Biologia, André está no time da Medicina. Curioso nós dois acordando tarde, colocando o uniforme ao mesmo tempo, lado a lado na cama. Na minha cabeça: filmes independentes, operárias e previsibilidade. André está preocupado com a hora, mas se veste sem afobação e exibe alguma seriedade, gravitas, um Aquiles colocando o seu tênis de futsal. Por milagre, ele me deixa ir dirigindo, mas pede a cada minuto para eu ir mais rápido. Ele pergunta se já tinha visto o time adversário dele jogar. “André, acho que é o fim, foi a nossa ultima vez esta madrugada. Como isso é para você?” Somente imagino a fala, pena, mas não é hora para drama – preciso ter cuidado, estou levando a estrela do time para a final. O Aquiles de tênis tira da música que eu estava ouvindo e coloca em alguma do Metallica dos anos oitenta, aproveita para aumentar o volume. Ele pede para eu ir mais rápido.
Muita gente joga salão como se fosse apenas o futebol convencional num campo menor. André tem o mérito de usar as peculiaridades do jogo: os passes rápidos, os chutes fortes que atravessam a quadra, a movimentação que tem mais a ver com o basquete do que com a disputa de futebol society na chácara do tio. A liderança de André não é oportunista, ele é mesmo o melhor em quadra. Algo justo, previsível — a sobrevivência dos mais adaptados, Aquiles acabando com Heitor. Mesmo contra um time forte, a medicina sai com cinco gols a favor no primeiro tempo. André não se reúne com o time, prefere vir ao me encontro, deve-me atribuir poderes excepcionais, um tipo de recarga via lábios. “André, sabia que terminamos agora? Você já pode escolher a minha substituta, ou substitutas, por aqui, repare como estão olhando para cá”. Não, não é a hora ainda. Não digo o que pensei, mas, na verdade, duvido que ele ficaria abalado, faria os seus gols digerindo a novidade.
Dentro de quadra, logo depois de começar o segundo tempo, algo enfim tira André dos eixos. Uma pancada atrás do pé e a falta não marcada o deixam raivoso, e se a raiva parece lhe dar mais energia para correr, a sua precisão desaparece. Os erros iniciais não causam tanto efeito, mas logo André se torna a crise do time. Esbravejando, ele ainda faz questão de ser o centro das jogadas e, assim, os seus passes errados, os chutes longes do gol e uma falta tola fazem a vantagem do placar desaparecer. Ninguém tem coragem de substituí-lo.
Para mim, essa é uma situação nova. Os namorados que tive pareciam se manter em um ar difuso de derrota — precisamente, uma frustração calma e contínua, eram melancólicos seguros. Eu jamais havia estado alguém que criasse grandes expectativas para depois falhar em um momento preciso. Uma falha observada por muitos, prejudicando mais gente. Eu tinha agora um herói caído, dramático. O segundo tempo acaba em empate e a prorrogação começa em alguns minutos. André vem em minha direção e os olhares médicos que o acompanham são diferentes desta vez. Eu poderia dizer que não vamos terminar mais, que ele estava interessante como eu nunca poderia ter adivinhado. Não toquei no assunto, mas tentei consolá-lo da melhor maneira. Tenho a impressão que só eu consigo aceitá-lo assim, fora do seu papel inicial.
Já está quase na hora do meu jogo, mas preciso desesperadamente ver como este aqui termina. Vou saindo devagar, mantendo a atenção na quadra. Pois André é o primeiro a tocar na bola, ele a passa para o lado e logo recebe de volta, marcado. Fazendo um giro, ele chuta, acertando o gol no canto, morte súbita. Volta a ser o herói pleno, garante a final. Eu me afasto mais rapidamente, mas ainda posso ouvir a torcida. Sei que tudo terminou. “Tchau, Aquiles.”
Marco Polli. Nascido em 1973, criado no interior de São Paulo. Formou-se em Engenharia Química, mas ainda persegue fielmente a prosa literária. Mantém uma página sobre cinema e um blog.




